O que são preprints?

Luiz Augusto Campos (Editor-Chefe de DADOS)


Desde 2020, DADOS começou a aceitar a submissão de manuscritos oriundos de servidores de preprints. No entanto, ainda existem muitas dúvidas na comunidade acadêmica, especialmente nas Ciências Sociais, sobre o que são os preprints e o que eles mudam nos tradicionais modos de avaliação e publicação científicas. Nosso objetivo aqui é responder a essas questões brevemente, além de explicar de modo simples como se pode submeter um preprint à DADOS. Para tal, preparamos um esquema de como se dá a avaliação de manuscritos no tradicional sistema de revisão duplo-cega e como ele é modificado no modelo de preprints. A seguir, disponibilizamos um vídeo e um episódio de podcast sobre como DADOS incorporará preprints, seguido de uma texto resumindo esse material.

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[PODCAST]

 

O sistema duplo-cego de avaliação

Tradicionalmente, os manuscritos submetidos a um periódico acadêmico passam pela avaliação duplo-cega, na qual nem autores(as) nem pareceristas sabem das identidades uns dos outros. Nesse modelo, os manuscritos passam por quatro grandes filtros editoriais:

  1. Deskreview: a revisão formal ou deskreview é uma análise técnica do texto de acordo com as regras da revista, que englobam as normas de citação, a coerência com o escopo temático do periódico, a qualidade gramatical do texto etc.
  2. Revisão duplo-cega por pares: se o artigo passa no primeiro filtro, ele segue para a revisão anônima por pareceristas. O que é característico desse modelo é que nem pareceristas nem autores sabem a identidade uns dos outros, daí o rótulo de avaliação duplo-cega. A premissa aqui é que o anonimato possibilitaria um julgamento mais imparcial dos textos acadêmicos.
  3. Avaliação do Conselho: com o auxílio do conselho editorial, o editor-chefe avalia a pertinência dos pareceres e do texto enviado.
  4. Decisão: se o texto passa pelo crivo dos pareceres e da avaliação do conselho, sua publicação é avaliada pela editoria, a quem cabe a decisão final.

Quando publicado, o texto ganha um identificador de objeto digital ou DOI, um código numérico a partir do qual ele pode ser acessado virtualmente e citado em outras publicações. Isso ajuda os autores e autoras a divulgarem seus trabalhos e a revista a incrementar o seu impacto acadêmico, algo que pode ser medido com métricas como fator de impacto ou outros índices.

Ainda hegemônico no mundo editorial, esse sistema possui, porém, alguns problemas. Nas Ciências Sociais, um texto leva em média de um a três anos entre a sua submissão e a sua publicação final, sobretudo pelo tempo necessário à leitura dos(as) pareceristas anônimos(as). Vale notar que estes fazem um trabalho gratuito, o que acaba relegando a redação de pareceres a um segundo plano de suas prioridades. Outro problema do modelo é o fato de todo processo editorial correr em segredo, pois apenas o editor-chefe e talvez a equipe editorial sabem quem são os envolvidos e o que eles estão escrevendo uns para os outros.

O que muda com a submissão em preprints?

O sistema de preprints surge com a intenção de contornar os problemas do modelo de revisão duplo-cega. Grosso modo, ele opera de formaoposta ao sistema de revisão duplo-cega abrindo as informações de autoria dos textos antes mesmo de sua avaliação. Na DADOS, ele funciona do seguinte modo:

  1. Dupla submissão: ao mesmo tempo em que um autor ou autora submetem um texto à revista, o mesmo pode ser depositado em um servidor de preprints. Existem vários servidores desse tipo, cada um com suas especificidades. Mas todos eles são repositórios de textos acadêmicos preliminares. Os servidores de preprints são totalmente abertos e funcionam como uma rede social, na qual os manuscritos podem ser modificados, comentados e avaliados por qualquer interessado ou interessada.
  2. DOI no início do processo: simultânea a sua disponibilização, o texto também recebe um DOI, o que permitirá que o arquivo seja citado em outras publicações acadêmicas imediatamente. Outra diferença da submissão em preprints é que os autores podem produzir diferentes versões de um mesmo texto e todas ficam públicas e acessíveis.
  3. Revisão cega: embora a avaliação da revista corra em paralelo, ela não se dá mais pelo sistema duplo-cego, pois a identidade de seus autores estará disponível no servidor de preprints. Por isso, esse sistema de avaliação passa a ser somente cego: só os autores não sabem quem são os pareceristas. Portanto, o advento dos preprints faz com que a avaliação de manuscritos científicos tenha um lado que é fechado e secreto e outro que é aberto e transparente.

O sistema de preprints apresenta muitos potenciais em comparação ao modelo tradicional de avaliação duplo-cega. A principal delas é, sem dúvida, a imediata disponibilização do manuscrito, que não precisa esperar anos para ser conhecido na comunidade acadêmica e no grande público. A segunda vantagem potencial é a maior abertura e transparência do debate acadêmico ao público. Qualquer interessado ou interessada pode comentar  ou divulgar o conteúdo do paper. A terceira vantagem tem a ver com a possibilidade de registrar múltiplas versões de um manuscrito em uma mesmo espaço. Tais versões registram a evolução do texto frente aos comentários que recebeu, ou mesmo em relação ao desenrolar da pesquisa.

No entanto, o sistema de preprints também apresenta riscos. O principal deles tem a ver com os efeitos, ainda nebulosos, da substituição da avaliação anônima. Embora autores permaneçam sem conhecer a identidade de seus avaliadores, estes poderão agora acessar a autoria do trabalho avaliado. Não sabemos, portanto, se essa avaliação atenderá parâmetros mínimos de ética científica ou se ela afetará a imparcialidade da avaliação. É possível que autores e autoras de grupos subalternos, por exemplo, sejam avaliados de modo discriminatório com a enunciação de suas identidades. A abertura ao grande público de manuscritos não revisados também pode levar à divulgação de resultados equivocados de pesquisa, algo que vem acontecendo, por exemplo, em relação a textos que tratam da COVID-19.

É por isso que DADOS optou por não fechar um compromisso com um ou outro sistema de avaliação, relegando essa escolha aos autores e autoras. São estes que devem manifestar, no momento da submissão, se querem submeter pelo sistema duplo-cego de avaliação ou apenas cego simultâneo a disponibilização em preprints. De todo modo, DADOS incentiva a comunidade de autores e autoras a experimentar a submissão via preprints, sem inviabilizar as submissões pelo sistema tradicional para pôr a teste os potenciais e limites supracitados. As instruções completas para submissão podem ser lidas aqui. A revista e nossa equipe editorial está completamente aberta para tirar qualquer dúvida sobre essas mudanças.

Como citar este post

CAMPOS, Luiz Augusto. O que são preprints?, Blog DADOS, 2021 [published 10 May 2021]. Available from: http://dados.iesp.uerj.br/o-que-sao-preprints/

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