Mulheres participam de quase metade dos artigos publicados em DADOS nos últimos anos


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Giovanna Monteiro-Macedo (IESP, Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e Marcia Rangel Candido (CIES, Instituto Universitário de Lisboa)

Embora mulheres tenham participado desde a primeira edição de DADOS, publicada em 1966, a sua aparição entre autores de artigos variou expressivamente nas últimas décadas, ficando entre a casa dos 20% e dos 50%. Um dos melhores resultados que constatamos ocorreu em 2024, quando pelo menos metade dos textos divulgados na revista tinham no mínimo uma mulher assinando a autoria. Sabemos que nossa forma de apresentar os indicadores, contudo, é otimista. Dizer que metade dos artigos publicados em nossa revista tiveram participação de mulheres não é o mesmo que afirmar que a maioria dos autores da revista é deste grupo ou que as mulheres lideram as pesquisas, dois problemas que ainda são candentes na ciência global. A maior participação de homens na produção científica e o predomínio deles nos postos de maior poder do mundo acadêmico ainda são características profundas das desigualdades de gênero. 

Como já fizemos em diversas outras ocasiões, neste texto especial para o 8 de Março, convidamos o público leitor(a) a acessar as informações de DADOS sobre a presença de mulheres na autoria dos artigos da revista. Este tipo de exposição de indicadores segue diretrizes internacionais sobre a questão de gênero na ciência aberta, que sugerem a transparência e o monitoramento das desigualdades nos processos editoriais. Além de frequentemente divulgarmos evidências da autoria de manuscritos publicados e submetidos à revista, nossa editoria de replicabilidade tem coletado tendências de gênero na partilha de bases de dados, que vem indicando leve vantagem para as mulheres (Schaefer, et al., 2026). 

A presença de mulheres na Revista DADOS acompanha, em grande medida, as transformações da própria institucionalização das Ciências Sociais no Brasil. Desde sua primeira edição, em 1966, a revista contou com autoras entre seus colaboradores. Já nesse momento inicial aparecem nomes de grande relevância intelectual, como Maria da Conceição Tavares e Eli Diniz, indicando que, embora minoritária, a participação feminina estava presente desde o início do projeto editorial.

Na década de 1970, DADOS publicou trabalhos de algumas das pesquisadoras que se tornaram referências na consolidação da Sociologia, da Ciência Política e das Relações Internacionais no país. Nesse período, aparecem textos de Eli Diniz (com quatro artigos publicados), Maria Regina Soares de Lima (um artigo), Elisa Reis (um artigo), Argelina Figueiredo (um artigo) e Neuma Aguiar (cinco artigos). Apesar da importância dessas contribuições, a presença feminina ainda era relativamente restrita, com apenas 29% das publicações da década tendo alguma mulher assinando autoria. 

Nos anos 1980 observa-se um crescimento dessa participação. A proporção de artigos escritos com participação de mulheres chega a 37%, indicando uma ampliação gradual da presença feminina na produção acadêmica publicada pela revista. Esse avanço, no entanto, não se mantém na década seguinte. Entre 1990 e 1999, o percentual de autoras caiu cerca de 10 pontos percentuais, atingindo 27% das publicações.

Nos anos 2000 há uma leve recuperação. Entre 2000 e 2009, as mulheres respondem por  participação em 33% dos artigos publicados. Ainda assim, a proporção permanece abaixo da registrada na década de 1980, sugerindo que a ampliação da inserção feminina não ocorreu de forma linear.

A década de 2010 marca uma mudança mais significativa nesse quadro. Entre 2010 e 2019, a proporção de mulheres que participaram em textos publicados na revista alcança 42%, refletindo um cenário mais equilibrado em termos de inclusão em pesquisas e acompanhando transformações mais amplas na composição da comunidade acadêmica.

Os anos mais recentes mostram, contudo, que essa trajetória continua sujeita a oscilações. Em 2020, a participação feminina cai para 29%. Em 2021, há uma recuperação, com 43% dos textos com nomes de mulheres entre os autores. Nos anos subsequentes, os números permanecem relativamente estáveis, embora abaixo desse patamar, com 33% em 2022 e 36% em 2023.

Um marco importante ocorre em 2024, quando, pela primeira vez na história da revista, as mulheres aparecem em pelo menos 50% das pesquisas publicadas, alcançando paridade de gênero nas edições. No ano seguinte, 2025, esse percentual recuou para 40%, indicando que, embora avanços importantes tenham sido conquistados, a presença feminina na publicação acadêmica ainda apresenta variações ao longo do tempo. Diante desse cenário, a Revista DADOS tem buscado adotar medidas institucionais voltadas à promoção da diversidade. Entre elas, destacam-se: a produção e divulgação sistemática de indicadores de gênero sobre autoria e submissões, ampliando a transparência sobre possíveis desigualdades no fluxo editorial; mudanças nas normas da revista, que passaram a explicitar o compromisso com a diversidade de gênero e raça e a solicitar a autodeclaração dessas informações no momento da submissão; a adoção de critérios de diversidade na organização de eventos acadêmicos vinculados à revista; e a busca por maior equilíbrio de gênero no convite a pareceristas, sempre que possível, no processo de avaliação por pares. Essas iniciativas procuram enfrentar de forma mais estrutural as assimetrias ainda presentes na produção e circulação do conhecimento científico.

Enquanto a igualdade não for alcançada, e estabilizada, é tarefa da comunidade científica que preza por uma ciência inclusiva e potencialmente inovadora, seguir monitorando os problemas de diversidade. Em um contexto marcado tanto pelo aumento da pressão por produtividade quanto por preocupações crescentes com a saúde mental de pesquisadores, torna-se necessário refletir sobre os arranjos institucionais que moldam a carreira acadêmica. A promoção da equidade de gênero dificilmente resultará de escolhas individuais, mas de transformações estruturais nas políticas científicas e nas instituições de pesquisa. Nesse sentido, iniciativas como programas de financiamento direcionados a mulheres cientistas, mecanismos de reconhecimento mais equitativos da produção acadêmica e ações afirmativas na distribuição de oportunidades podem desempenhar papel importante para reduzir assimetrias persistentes e ampliar a diversidade na ciência.

Referências

Schaefer, Bruno et al. “Editorial: Transparência, Replicabilidade e Reprodutibilidade em DADOS”. DADOS, 2026, no prelo.

Textos no Blog de DADOS sobre gênero e ciência 

Meninas e mulheres na ciência aberta: quatro desafios à editoria científica

Especial 8 de março: Dia Internacional da Mulher

O que podemos aprender sobre desigualdade de gênero a partir de 9.757 propostas submetidas ao edital Universal 10/2023 do CNPQ?

Dia Internacional das Mulheres: 4 ações em prol da diversidade em DADOS

Breve história da autoria de mulheres em DADOS

O 8M na DADOS: um guia das publicações sobre gênero na revista

O conservadorismo mata as mulheres?

A segregação de gênero no ensino superior brasileiro, 2002-2016

Um tempo só para si: gênero, pandemia e uma política científica feminista

Pandemia reduz submissões de artigos acadêmicos assinados por mulheres

Mães não ganham menos porque têm filhos

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Linha do tempo das mulheres em DADOS.

1966: Desde sua primeira edição, há mulheres entre os autores, com intelectuais renomadas como Maria da Conceição Tavares.

1970-1979: Na década de 1970, os textos de grandes fundadoras das Ciências Sociais e da Ciência Política foram publicados em DADOS. Entre eles temos textos importantes de Eli Diniz (4 artigos no período), Maria Regina Soares de Lima (1), Elisa Reis (1), Argelina Figueiredo (1) e Neuma Aguiar (5). Somente 29% das publicações do período são de mulheres.

1980-1989: A porcentagem de mulheres ublicando na revista sobe para 37% no período.

1990-1999: O número de mulheres publicadas cai 10 pontos percentuais, chegando a 27%

2000-2009:Há um pequeno aumento no período, para 33%, mas ainda inferior à década de 1980.

2010-2019: Nos anos 2010, há um aumento considerável, chegando a 42% de mulheres publicadas na Revista.

2020: 29% de mulheres publicadas, representando uma queda considerável, provavelmente como resultado da pandemia.

2021: 43% de mulheres publicadas.

2022: 33% de mulheres publicadas.

2023: 36% de mulheres publicadas.

2024: Pela primeira vez chegamos a 50% de mulheres publicadas.

2025: O valor cai novamente para 40% de mulheres publicadas.

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