{"id":2799,"date":"2026-03-20T17:11:17","date_gmt":"2026-03-20T17:11:17","guid":{"rendered":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=2799"},"modified":"2026-03-20T17:32:44","modified_gmt":"2026-03-20T17:32:44","slug":"por-ocasiao-da-morte-de-jurgen-habermas-ele-defendeu-a-razao-mesmo-contra-todas-as-evidencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/por-ocasiao-da-morte-de-jurgen-habermas-ele-defendeu-a-razao-mesmo-contra-todas-as-evidencias\/","title":{"rendered":"Por ocasi\u00e3o da morte de J\u00fcrgen Habermas: ele defendeu a raz\u00e3o \u2013 mesmo contra todas as evid\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-es\">Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2799\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Portugu\u00e9s De Brasil<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Escrito por Regina Kreide<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o por Guilherme Leite Gon\u00e7alves\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A morte de J\u00fcrgen Habermas, em 14 de mar\u00e7o, foi seguida por homenagens e reflex\u00f5es que t\u00eam resgatado a centralidade de sua obra e de seu legado para o pensamento social. Nesse esp\u00edrito, <em>Dados<\/em> traz a suas leitoras e leitores um artigo publicado no jornal alem\u00e3o <em>Tagesspiegel<\/em> no mesmo dia de seu falecimento. A autora, Regina Kreide, \u00e9 cientista pol\u00edtica e professora de Teoria Pol\u00edtica e Hist\u00f3ria das Ideias na Justus-Liebig-Universit\u00e4t Gie\u00dfen, Alemanha. Estudou na Goethe-Universit\u00e4t Frankfurt, e \u00e9 coorganizadora de <em>The Habermas Handbook<\/em> (Columbia University Press, 2017). Possui ampla produ\u00e7\u00e3o internacional e tem contribu\u00eddo de forma significativa para o desenvolvimento da teoria cr\u00edtica. No Brasil, mant\u00e9m estreita colabora\u00e7\u00e3o com o IESP-UERJ, tendo participado de semin\u00e1rios e obras coletivas no \u00e2mbito do NETSAL. O texto foi traduzido do alem\u00e3o por Guilherme Leite Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por ocasi\u00e3o da morte de J\u00fcrgen Habermas: ele defendeu a raz\u00e3o \u2013 mesmo contra todas as evid\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A toupeira tem uma presen\u00e7a surpreendente na hist\u00f3ria das ideias. Kant ainda desconfiava que ela cavaria \u00e0s cegas e em v\u00e3o \u00e0 procura dos tesouros da raz\u00e3o. Em Hegel, ao contr\u00e1rio, ela promove o progresso; em Marx, traz \u00e0 luz a revolu\u00e7\u00e3o. E, finalmente, em Habermas, ela \u00e9 o animal \u201c\u00fatil\u201d que \u201cdestr\u00f3i o belo gramado\u201d.<\/p>\n<p>Embora Habermas tivesse em mente o intelectual e cineasta Alexander Kluge ao formular essa reviravolta bem-humorada da met\u00e1fora da toupeira, essa caracteriza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se aplica a ele pr\u00f3prio e \u00e0 sua obra monumental, que compreende nada menos do que quarenta e tr\u00eas monografias e colet\u00e2neas de ensaios. N\u00e3o h\u00e1 praticamente nenhum campo da teoria filos\u00f3fica e da teoria social que ele n\u00e3o tenha abordado, para o qual n\u00e3o tenha desenvolvido uma teoria pr\u00f3pria; praticamente n\u00e3o h\u00e1 tema socialmente relevante sobre o qual n\u00e3o tenha se manifestado de maneira combativa, mas sempre discursiva, at\u00e9 que nenhum gramado \u2013 para permanecer na imagem \u2013 continuasse intacto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Festejado como um pop-star<\/strong><\/p>\n<p>Habermas foi um fil\u00f3sofo e intelectual excepcional, conhecido e homenageado mundialmente. Recebeu os mais prestigiados pr\u00eamios no campo das ci\u00eancias humanas e, pouco depois de se aposentar, foi celebrado como um popstar de Frankfurt \u00e0 China. Mas jamais se comportou como tal.<\/p>\n<p>Desde cedo, Habermas come\u00e7ou a intervir no debate p\u00fablico. Ainda como estudante, durante seu doutoramento em Bonn, em 1954, publicou um texto no jornal <em>Frankfurter Allgemeinen Zeitung<\/em> que mostrava a proximidade pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m filos\u00f3fica de Martin Heidegger com o nazismo.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo gerado n\u00e3o decorreu apenas do fato de ter sido exposto o silenciamento coletivo da cumplicidade durante o per\u00edodo nazista, mas tamb\u00e9m gerou grande repercuss\u00e3o por se tratar de uma argumenta\u00e7\u00e3o menos filos\u00f3fica do que pol\u00edtica. Ap\u00f3s o fim da guerra, Heidegger suavizou um curso que ministrara nos anos 1930 de tal modo que suas afirma\u00e7\u00f5es podiam ser relidas como uma forma de absolvi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Contra a nega\u00e7\u00e3o do Holocausto<\/strong><\/p>\n<p>Apesar das diferen\u00e7as de perspectiva, n\u00e3o se pode subestimar a import\u00e2ncia de tr\u00eas experi\u00eancias decisivas para Habermas e seus contempor\u00e2neos, entre eles, Niklas Luhmann, Hans Magnus Enzensberger e Ralf Dahrendorf: a inf\u00e2ncia e os primeiros anos da juventude durante a guerra, o colapso da m\u00e1quina estatal de exterm\u00ednio e a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federal da Alemanha.<\/p>\n<p>Eram ainda demasiado jovens para, tal como a gera\u00e7\u00e3o mais velha de c\u00famplices e seguidores, se manterem agarrados a cargos, mas tinham idade suficiente para reconhecer claramente a continuidade de pessoas e ideias na oculta\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o dos crimes de guerra e do Holocausto. Os julgamentos de Auschwitz em Frankfurt,<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> assim como o <em>Spiegel affair<\/em> de 1962, em que colaboradores da revista foram acusados de trai\u00e7\u00e3o por terem posto em d\u00favida a capacidade de defesa da jovem Rep\u00fablica Federal,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> foram acontecimentos-chave que fizeram do nacional-socialismo um \u00abpassado presente\u00bb (Brunkhorst).<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por acaso que Habermas interveio na chamada <em>controv\u00e9rsia dos historiadores<\/em>, na qual historiadores de gera\u00e7\u00f5es anteriores defendiam a comparabilidade dos crimes nazistas com as formas stalinistas de domina\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria. Para ele, essa posi\u00e7\u00e3o era uma das muitas estrat\u00e9gias que obscureciam a pr\u00f3pria responsabilidade pelos crimes nazistas e perpetuavam ativamente o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estudos com Adorno<\/strong><\/p>\n<p>Seus estudos com Theodor Adorno e, mais tarde, as discuss\u00f5es com Wolfgang Abendroth, que orientou sua tese de livre-doc\u00eancia, transformaram o heideggeriano de esquerda em um neomarxista pouco ortodoxo. A opini\u00e3o que se tornou quase senso comum, segundo a qual Habermas desde cedo se afastou do marxismo e se converteu completamente em um kantiano, \u00e9 um grande equ\u00edvoco. \u00c9 verdade que Kant e, em medida semelhante, Hegel passaram a desempenhar um papel cada vez mais importante a partir do final dos anos 1980, mas o pensamento de Marx, interpretado de forma original, percorreu como um fio condutor em toda a obra de Habermas. Assim como Marx, Habermas sempre procurou construir uma \u201cteoria cr\u00edtica da sociedade\u201d e articul\u00e1-la com a filosofia em um interc\u00e2mbio rec\u00edproco, ao contr\u00e1rio de Kant, Hegel e tamb\u00e9m John Rawls.<\/p>\n<p>Na sua obra <em>Conhecimento e Interesse<\/em>, publicada em 1968, Habermas resume o seu programa de investiga\u00e7\u00e3o: a cr\u00edtica radical do conhecimento s\u00f3 pode ser pensada como cr\u00edtica da sociedade. Sem a an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es sociais, a reflex\u00e3o filos\u00f3fica permanece alheia ao mundo; mas, sem a pressuposi\u00e7\u00e3o de uma raz\u00e3o que escava incansavelmente os abismos da sociedade, n\u00e3o seria poss\u00edvel desmascarar as distor\u00e7\u00f5es sociais como injustas.<\/p>\n<p>Habermas nunca foi apenas fil\u00f3sofo, mas tamb\u00e9m nunca foi apenas soci\u00f3logo, nem simplesmente fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo em uma pessoa s\u00f3. Ele integrou essas duas perspectivas por meio de um m\u00e9todo verdadeiramente interdisciplinar, que se compreende como cr\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es existentes. Essa articula\u00e7\u00e3o entre an\u00e1lise social e cr\u00edtica normativa levou Habermas a criar conceitos, muitos dos quais passaram a fazer parte do uso p\u00fablico. Um conceito particularmente conhecido \u00e9 o de \u201cpatriotismo constitucional\u201d, formulado nos anos 1990, que Habermas tomou de Dolf Sternberger e o ressignificou: o que impediria que os cidad\u00e3os \u201cse afastassem do Ocidente\u201d n\u00e3o seria a identidade nacional, mas sim uma compreens\u00e3o universalmente partilhada da constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Muito antes ele j\u00e1 havia desenvolvido o conceito de esfera p\u00fablica, que desempenha papel central em sua tese de livre-doc\u00eancia <em>Mudan\u00e7a estrutural da esfera p\u00fablica<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esfera p\u00fablica como cora\u00e7\u00e3o da democracia<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto elo entre o sistema econ\u00f4mico e o parlamento, a esfera p\u00fablica constitui, para Habermas, o cora\u00e7\u00e3o da democracia. Sem processos de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o, debates, protestos e cr\u00edticas, n\u00e3o h\u00e1 procedimentos democr\u00e1ticos leg\u00edtimos \u2013 nem democracia. Ao mesmo tempo, cabe \u00e0 esfera p\u00fablica a tarefa pr\u00e1tica de exercer uma cr\u00edtica vigilante, que deve tamb\u00e9m detectar os primeiros sinais de desdemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a \u00e0 democracia volta a ser um tema atual. J\u00e1 nos anos 1960, Habermas defendia que a ainda jovem democracia deveria ser estendida \u00e0 sociedade como um todo. Tal reivindica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi assumida pelo movimento estudantil. Essa euforia dissipou-se rapidamente, mas Habermas nunca se cansou de denunciar reiteradamente a amea\u00e7a \u00e0 democracia representada pelo consumismo e por processos tecnocr\u00e1ticos, tanto no plano nacional quanto no europeu.<\/p>\n<p>Em conson\u00e2ncia com o fil\u00f3sofo americano John Dewey, que defendia enfrentar a crise da democracia com mais democracia, Habermas ampliou, em meados dos anos 1990, em <em>A constela\u00e7\u00e3o p\u00f3s-nacional<\/em>, a democratiza\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade mundial. Isso levou tamb\u00e9m ao conceito igualmente sugestivo de \u201cpol\u00edtica interna mundial\u201d. Trata-se de uma pol\u00edtica que se adapta \u00e0s novas circunst\u00e2ncias: j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as fronteiras dos Estados-na\u00e7\u00e3o e uma pol\u00edtica orientada por interesses que definem o quadro das negocia\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, os grandes problemas do mundo \u2013 da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica \u00e0 guerra, passando pelas manipula\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em seres humanos, pela digitaliza\u00e7\u00e3o e pela intelig\u00eancia artificial, at\u00e9 \u00e0s viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos \u2013 podem e devem ser enfrentados de forma cooperativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um reformista radical<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, apesar de toda a proximidade com o neomarxismo, torna-se evidente uma diferen\u00e7a: a revolu\u00e7\u00e3o lhe era distante, para descontentamento tamb\u00e9m do movimento estudantil de 1968. Habermas defendia um reformismo radical que, embora devesse limitar o capitalismo na maior medida poss\u00edvel, permanecia sempre no \u00e2mbito do Estado constitucional democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em <em>Problemas de legitima\u00e7\u00e3o no capitalismo tardio<\/em>, Habermas descreveu \u2013 de modo semelhante e, quase ao mesmo tempo, a Claus Offe \u2013 como a pol\u00edtica reformista social-democrata amea\u00e7ava fracassar diante da enorme capacidade de adapta\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas. A pol\u00edtica tornar-se-ia, assim, impotente e deslizaria para uma crise de legitima\u00e7\u00e3o aguda. Foi o per\u00edodo das \u201cnovas intranspar\u00eancias\u201d, mais um conceito amplamente difundido. Seguiu-se, sem grande surpresa, uma an\u00e1lise minuciosa daquilo que a sociedade corre o risco de perder sob condi\u00e7\u00f5es do capitalismo.<\/p>\n<p>Na obra em dois volumes, amplamente recepcionada em diversas disciplinas, <em>Teoria da a\u00e7\u00e3o comunicativa<\/em>, Habermas mostra, em um percurso exeg\u00e9tico pela hist\u00f3ria da sociologia, como imperativos econ\u00f4micos e administrativos submetem a conviv\u00eancia social \u00e0 sua pr\u00f3pria l\u00f3gica destrutiva. Trata-se de mudan\u00e7as patol\u00f3gicas, hoje mais evidentes do que nunca, que se manifestam, no plano individual, em estados de esgotamento, na aliena\u00e7\u00e3o do trabalho, da casa e do cotidiano, bem como no empobrecimento cultural e social; e, no plano sist\u00eamico, na mercantiliza\u00e7\u00e3o de todos os bens essenciais \u00e0 vida, da \u00e1gua ao genoma humano, passando pela moradia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A toupeira escava mais fundo<\/strong><\/p>\n<p>A an\u00e1lise n\u00e3o termina aqui; a toupeira escava mais fundo. E chega \u00e0 conclus\u00e3o de que, com essas mudan\u00e7as, se destr\u00f3i de modo profundo a pr\u00f3pria forma como podemos compreender o estado da nossa sociedade. Quando a a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca dotada de sentido \u2013 nas palavras de Habermas, a a\u00e7\u00e3o orientada ao entendimento \u2013 \u00e9 corrompida pelo poder e pelo dinheiro, torna-se dif\u00edcil sequer identificar uma alternativa.<\/p>\n<p>Ao longo de toda a sua vida, Habermas trabalhou na defesa da raz\u00e3o, apesar de, ou talvez justamente porque, isso por vezes parecesse quase em v\u00e3o. Como intelectual, durante a guerra do Kosovo, depositou sua esperan\u00e7a na capacidade de efetiva\u00e7\u00e3o do direito internacional, inclusive por meios militares; criticou a Uni\u00e3o Europeia como tecnocr\u00e1tica, mas a defendeu apaixonadamente como um projeto \u00fanico no mundo de garantia da democracia e da liberdade. Op\u00f4s-se com igual veem\u00eancia \u00e0 arrog\u00e2ncia da clonagem humana, \u00e0 desigualdade social e \u00e0s democracias elitistas, e advertiu para que, na guerra da Ucr\u00e2nia, n\u00e3o se perdesse de vista a pondera\u00e7\u00e3o entre riscos e ganhos de liberdade.<\/p>\n<p>Enquanto fil\u00f3sofo, publicou j\u00e1 com noventa anos uma obra em dois volumes, com cerca de 1400 p\u00e1ginas, intitulada <em>Auch eine Geschichte der Philosophie<\/em> (\u201cTamb\u00e9m uma Hist\u00f3ria da Filosofia\u201d), que colocou aos leitores alguns enigmas e, ao mesmo tempo, formulou uma nova concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da raz\u00e3o humana, a qual, com a ajuda decisiva da filosofia \u2014 tal qual a toupeira \u2014, segue em busca de seus vest\u00edgios. Ao percorrer a hist\u00f3ria da religi\u00e3o e da filosofia, Habermas revela ind\u00edcios de raz\u00e3o e de progresso moral em um mundo moderno marcado pela mis\u00e9ria, pelo sofrimento, pela guerra e por outras formas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O brilhante ensa\u00edsta, polemista talentoso, soci\u00f3logo profundamente atento ao contexto e fil\u00f3sofo de aguda perspic\u00e1cia nunca deixou de escavar, nos corredores da escurid\u00e3o, apesar de todas as resist\u00eancias, em busca do raio de luz da raz\u00e3o. Nisso, foi um realista. Com a morte de Habermas, aos noventa e seis anos, a Alemanha p\u00f3s-reunifica\u00e7\u00e3o, a Europa e muitas outras regi\u00f5es do mundo perderam uma voz cr\u00edtica e, ao mesmo tempo, esperan\u00e7osa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> NT: O julgamento de Auschwitz em Frankfurt am Main transcorreu entre 1963 e 1965. Diferentemente de Nuremberg, os vinte e dois r\u00e9us (ex-guardas do campo de concentra\u00e7\u00e3o) foram julgados com base no direito penal alem\u00e3o. Tinham entre quarenta e cinquenta anos, o que indicava sua inser\u00e7\u00e3o na gera\u00e7\u00e3o que participou da constru\u00e7\u00e3o da Alemanha Ocidental e revelava a persist\u00eancia de elementos nazistas na vida social e no sistema democr\u00e1tico. Embora a maioria dos r\u00e9us tenha sido punida, em alguns casos, com pris\u00e3o perp\u00e9tua, tr\u00eas foram absolvidos, intensificando o debate em torno da rela\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federal com o nacional-socialismo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Trata-se de um esc\u00e2ndalo envolvendo a revista semanal <em>Der Spiegel<\/em> e o governo da Alemanha Ocidental, no qual um artigo publicado na revista detalhava o desempenho das for\u00e7as armadas em um exerc\u00edcio da OTAN e as considerava pouco preparadas para defender o pa\u00eds. A rea\u00e7\u00e3o das autoridades federais, particularmente do ent\u00e3o ministro da Defesa, Franz Josef Strauss, foi extremamente violenta, com deten\u00e7\u00f5es sob a alega\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o ao Estado, al\u00e9m de invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o dos escrit\u00f3rios da revista. O epis\u00f3dio provocou protestos e intensos debates sobre liberdade de opini\u00e3o e de imprensa. Como consequ\u00eancia, o governo de Konrad Adenauer foi abalado, sendo obrigado a formar um novo governo de coaliz\u00e3o sem Strauss, que teve de renunciar. Strauss ainda apareceria na cena pol\u00edtica alem\u00e3 em 1980, como candidato a chanceler pela democracia crist\u00e3, mas foi derrotado.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en Portugu\u00e9s De Brasil. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language. 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