{"id":2301,"date":"2022-09-15T09:33:25","date_gmt":"2022-09-15T09:33:25","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=2301"},"modified":"2022-09-19T14:03:00","modified_gmt":"2022-09-19T14:03:00","slug":"estetica-design-dados-anos-1960","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/estetica-design-dados-anos-1960\/","title":{"rendered":"\u201cCultura e Pol\u00edtica\u201d: est\u00e9tica e design nas capas de Dados nos anos 1960"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-es\">Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2301\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Portugu\u00e9s De Brasil<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A despeito da enxurrada de repress\u00e3o p\u00f3s-1964, a esquerda predominou esteticamente ao longo dos anos 1960<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. \u00c9 esta uma das ideias principais defendidas por Roberto Schwarz em \u201cCultura e Pol\u00edtica, 1964-1969\u201d. N\u00e3o \u00e9 nosso intuito entrar aqui na pol\u00eamica sobre a \u2018hegemonia cultural\u2019 da esquerda, tal como dizia o cr\u00edtico liter\u00e1rio, cuja argumenta\u00e7\u00e3o levava de rold\u00e3o o Partido Comunista, o populismo, o nacionalismo, o \u201cpovo\u201d e tantos outros. Em sentido oposto ao de an\u00e1lises que tendem a encapsular a hist\u00f3ria de nossas ci\u00eancias sociais brasileiras em campos autonomizados, queremos sugerir que as tens\u00f5es entre cultura e pol\u00edtica <em>\u00e0 la<\/em> Schwarz s\u00e3o relevantes para a compreens\u00e3o dessa hist\u00f3ria. Mais especificamente, e de modo an\u00e1logo ao esbo\u00e7o de hist\u00f3ria da Sociologia e da Ci\u00eancia Pol\u00edtica uspianas (Szwako 2012; Szwako e Ara\u00fajo, 2019), propomos aqui uma agenda na qual as diferentes publica\u00e7\u00f5es, tanto do ponto de vista cient\u00edfico como est\u00e9tico, entrela\u00e7am-se na hist\u00f3ria intelectual dessas disciplinas. Para tal, tomamos a g\u00eanese de <em>Dados &#8211; Revista de Ci\u00eancias Sociais<\/em> (doravante <em>Dados<\/em>) como caso ilustrativo desse entrela\u00e7amento entre ci\u00eancia e est\u00e9tica, pol\u00edtica e cultura. N\u00e3o se trata, contudo, de uma an\u00e1lise estrita da trajet\u00f3ria est\u00e9tica de <em>Dados<\/em> \u2013 tarefa j\u00e1 sugerida a poss\u00edveis interessados. Trata-se antes de notar que a compreens\u00e3o desse peri\u00f3dico, como de outros, passa pelas configura\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-intelectuais (sempre est\u00e9ticas) nas quais institui\u00e7\u00f5es, grupos e escolas de pensamento fizeram e fazem suas apostas pol\u00edtico-te\u00f3ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pouca gente sabe, mas o projeto gr\u00e1fico da capa das primeiras edi\u00e7\u00f5es de <em>Dados<\/em>, lan\u00e7ada originalmente em 1966, foi idealizado e executado por Rog\u00e9rio Duarte (1939-2016). Dif\u00edcil definir essa figura num s\u00f3 substantivo: \u201cPoeta, letrista, artista pl\u00e1stico. Pensador. M\u00fasico. Matem\u00e1tico. Ator.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> \u2013 \u00e9 sua melhor e mais ampla caricatura. No mundo da agita\u00e7\u00e3o cultural, Duarte \u00e9 conhecido e reconhecido por sua inser\u00e7\u00e3o e peso junto aos chamados tropicalistas, tendo atuado n\u00e3o apenas como capista e designer, mas tamb\u00e9m como um de seus formuladores te\u00f3ricos. Na falta de r\u00f3tulos apropriados \u00e0 extensa gama de suas interven\u00e7\u00f5es, a hist\u00f3ria pr\u00e9 e p\u00f3s-1964 pode nos dizer algo sobre o perfil de Rogerio Duarte.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Antes do golpe, Duarte atuava <em>Revista Movimento,<\/em> ent\u00e3o publicada pela Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE). Ao lado dele, na UNE, tamb\u00e9m estava parte dos soci\u00f3logos da gera\u00e7\u00e3o j\u00fanior do antigo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), dentre eles, Carlos Estevam Martins, Wanderley Guilherme dos Santos e Cesar Guimar\u00e3es, que, no segundo volume de 1962, publicaram na <em>Movimento<\/em> reflex\u00f5es sobre arte popular revolucion\u00e1ria, direitas e universidades brasileiras, respectivamente. Em 1962 o pa\u00eds estava, como disse Schwarz, irreconhecivelmente inteligente. No entanto, a aproxima\u00e7\u00e3o de Rog\u00e9rio Duarte com a UNE e seu Centro Popular de Cultura foi fundamentalmente tensa, pois era ele visto como \u201cporra-louca, caos, etc\u201d (Duarte 2003: 13). E, malgrado a representa\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio Duarte fazia (por raz\u00f5es diversas daquelas que boa parte da literatura uspiana, de Chaui a Schwarz, fez) do CPC, estava longe de ser simples e simplesmente \u201cpopulista\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> o jogo das tens\u00f5es est\u00e9tico-ideol\u00f3gicas internas \u00e0 UNE e dela com o <em>Partid\u00e3o<\/em> (cf. Garcia 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 1<\/strong>: Capas de <em>Revista Movimento <\/em>(1962, 1963)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2302\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture1.jpg\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"582\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture1.jpg 578w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture1-231x300.jpg 231w\" sizes=\"(max-width: 449px) 100vw, 449px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Fonte<\/strong>: Fuchs et al. (2017, s\/p).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim, considerado apenas o intervalo entre 1962 e 1966, entre a <em>Movimento<\/em> e a cria\u00e7\u00e3o de <em>Dados<\/em>, veem-se as disputas travadas por uma parte das organiza\u00e7\u00f5es, intelectuais e correntes de esquerda tanto na cultura como na pol\u00edtica brasileiras &#8211; PC, ISEB, UNE, CPC, dentre outros. Foi naquela configura\u00e7\u00e3o depois desmobilizada e repaginada pelo golpe e pela crescente repress\u00e3o e, portanto, como herdeiro indireto, n\u00e3o s\u00f3 do ISEB, mas dessa trama mais ampla de elabora\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, est\u00e9ticas e ideol\u00f3gicas, que nasceu o Instituto Universit\u00e1rio de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o intelectual substantiva, as mudan\u00e7as observadas na produ\u00e7\u00e3o de Carlos Estevam e Wanderley Guilherme, ent\u00e3o publicada em <em>Dados<\/em>, d\u00e3o exemplo de como as formula\u00e7\u00f5es e pretens\u00f5es revolucion\u00e1rias do ISEB, em especial as de Estevam, deram vez a uma reflex\u00e3o centrada na \u201cconstru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Ou, para diz\u00ea-lo de outro modo, o conte\u00fado publicado em <em>Dados<\/em> estava relativamente distante tanto daquele dos <em>Cadernos do Povo brasileiro <\/em>quanto dos<em> Cadernos do Nosso Tempo<\/em>.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Se, no plano das ideias, o Iuperj trazia uma novidade antecipando uma tend\u00eancia de desradicaliza\u00e7\u00e3o, no plano est\u00e9tico o Instituto estava inserido em meio \u00e0quelas siglas e redes intelectuais dos anos 1960. Assim, distinguida por suas cores saturadas, <em>Dados<\/em> nasceu <em>\u2013 <\/em>figura 2 \u2013 seguindo \u201co estilo cl\u00e1ssico do <em>journal<\/em> acad\u00eamico, reproduziu o sum\u00e1rio na primeira capa, a diagrama\u00e7\u00e3o do miolo em duas colunas\u201d (Pessanha, 2017, p.608). A associa\u00e7\u00e3o, projetada por Rog\u00e9rio Duarte, entre a sobriedade da organiza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e as capas coloridas remetia tanto \u00e0 proposta de cientificismo, que distinguia o peri\u00f3dico do Iuperj de outros, quanto \u00e0 articula\u00e7\u00e3o com os movimentos de inova\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que fervilhavam nos anos 1960, demarcando o car\u00e1ter inovador da proposta. Na esteira da pista de Pessanha sobre o estilo academicista da diagrama\u00e7\u00e3o da revista, podemos nos perguntar pela composi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fico-est\u00e9tica de <em>Dados<\/em> e por suas rela\u00e7\u00f5es, sejam de distanciamentos ou continuidades, com outras revistas quer pret\u00e9ritas ou contempor\u00e2neas a ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 2<\/strong>: Capas de <em>Dados\u00a0<\/em><\/p>\n<table class=\" aligncenter\" style=\"width: 705px; height: 336px;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"width: 222.945px;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2313 size-full\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_3.jpg\" alt=\"\" width=\"1348\" height=\"1916\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_3.jpg 1348w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_3-211x300.jpg 211w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_3-768x1092.jpg 768w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_3-720x1024.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 1348px) 100vw, 1348px\" \/><\/td>\n<td style=\"width: 223.852px;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-2312 size-full\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_2.png\" alt=\"\" width=\"1311\" height=\"1872\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_2.png 1311w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_2-210x300.png 210w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_2-768x1097.png 768w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_2-717x1024.png 717w\" sizes=\"(max-width: 1311px) 100vw, 1311px\" \/><\/td>\n<td style=\"width: 226.594px;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2311 size-full\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_1.png\" alt=\"\" width=\"1317\" height=\"1876\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_1.png 1317w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_1-211x300.png 211w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_1-768x1094.png 768w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/1_1-719x1024.png 719w\" sizes=\"(max-width: 1317px) 100vw, 1317px\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Fonte<\/strong>: Biblioteca WGS\/IESP\/UERJ.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O cotejo com outros peri\u00f3dicos nos permitir\u00e1 notar, contudo, que a pista do sum\u00e1rio \u00e0 capa n\u00e3o foi uma novidade gr\u00e1fica de <em>Dados<\/em>. <em>Sociologia \u2013 Revista Did\u00e1tica e Cient\u00edfica<\/em>, peri\u00f3dico pioneiro da Escola Livre de Sociologia e Pol\u00edtica tamb\u00e9m trazia, desde suas primeiras edi\u00e7\u00f5es nos anos 1940 at\u00e9 meados dos 1960, capa com sum\u00e1rio. Em outra linha editorial, os <em>Cadernos do Nosso Tempo<\/em> do IBESP tamb\u00e9m vinham com conte\u00fado indexado \u00e0 frente. E, considerando-se um espa\u00e7o de disputa intelectual e cultural mais amplo e mais longevo, revistas como, por exemplo, a paulistana <em>Anhembi<\/em> tamb\u00e9m traziam essa mesma escolha gr\u00e1fica \u2013 figura 3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 3<\/strong>: Facs\u00edmile de<em> Sociologia \u2013 Revista Did\u00e1tica e Cient\u00edfica<\/em> (1941); facs\u00edmile de <em>Cadernos do Nosso Tempo<\/em> (1954);<em> Anhembi <\/em>(1950) \u2013 respectivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2306 size-large\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Figura3-1024x514.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Figura3-1024x514.png 1024w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Figura3-300x150.png 300w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Figura3-768x385.png 768w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Figura3.png 2010w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>Fonte<\/strong>: Silva e Almeida (2015) p.241; Biblioteca WGS\/IESP\/UERJ.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Como se v\u00ea, no plano que vai do conte\u00fado impresso \u00e0 capa se d\u00e1 uma continuidade entre a revista do Iuperj e suas antecessoras. No entanto, tal como as capas de <em>Movimento<\/em>, tamb\u00e9m projetada por Duarte, o <em>design<\/em> gr\u00e1fico implicado na escolha das cores e da textura lustrosa de <em>Dados<\/em> pertence a uma outra \u00e9poca do design brasileiro: os anos 1960. \u00c9 nesse momento que surge, seguindo argumento desenvolvido por Rafael Cardoso (2005, p. 7), \u201ca consci\u00eancia do <em>design<\/em> como conceito, profiss\u00e3o e ideologia\u201d. Esta consci\u00eancia do design se estabelece no momento de r\u00e1pida moderniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, sendo a funda\u00e7\u00e3o da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), no Rio de Janeiro, em 1962, um marco.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E foram aqueles anos vertiginosos, para usar o adjetivo de Homem de Mello (2006), que revolucionaram nossa linguagem visual. Hoje, contudo, nos \u00e9 pouco intelig\u00edvel a dimens\u00e3o e o tamanho da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-cultural transcorrida \u00e0quela d\u00e9cada. Para termos alguma impress\u00e3o do que foi aquela transforma\u00e7\u00e3o, vale retomar a s\u00edntese proposta por Homem de Mello em sua compara\u00e7\u00e3o entre duas propagandas de Coca-Cola \u2013 figura 4:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 4<\/strong>: A ruptura dos anos 60<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2303 size-full\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/4.jpg\" alt=\"\" width=\"498\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/4.jpg 498w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/4-300x195.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Fonte<\/strong>: Homem de Mello, 2006, p.26-27.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apenas separados por uma d\u00e9cada, h\u00e1 entre esses reclames um mundo cultural \u2013 um mundo, diga-se de passagem, cada vez mais aferrado \u00e0 visualidade &#8211; ent\u00e3o em ebuli\u00e7\u00e3o. A ruptura ent\u00e3o ocorrida \u00e9 tal que n\u00e3o dispomos de formas classificat\u00f3rias est\u00e9ticas adequadas para situar em qual d\u00e9cada ou \u00e9poca do s\u00e9culo XX se situa o primeiro encarte. Ao mesmo tempo em que fatores demogr\u00e1ficos, pol\u00edticos e culturais, tais como a emerg\u00eancia de movimentos contraculturais e, no caso brasileiro, o golpe de 1964, estiveram na raiz dessa ruptura, as mudan\u00e7as ocorridas tiveram igualmente sua tradu\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da linguagem visual e do design. <em>Pari passu<\/em> \u00e0s artes pl\u00e1sticas, tais mudan\u00e7as ficaram, por sua vez, estampadas em capas de discos, de livros, em revistas comerciais, na prolifera\u00e7\u00e3o de identidades visuais e, como estamos argumentando, nas capas de peri\u00f3dicos cient\u00edficos, como a <em>Dados<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na esteira de trabalhos ic\u00f4nicos para o design editorial brasileiro, como as capas estonteantes da editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira projetadas pelo designer austr\u00edaco Eug\u00eanio Hirsch, a linguagem gr\u00e1fica passou a ser pe\u00e7a central na elabora\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o. E aqui voltamos a Rog\u00e9rio Duarte: embora ele seja atualmente mais reconhecido por suas capas e teoriza\u00e7\u00f5es tropicalistas, isso n\u00e3o precisa obliterar outras camadas em que Duarte esteve implicado nas transforma\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas e est\u00e9ticas de ent\u00e3o. Al\u00e9m de ter refletido sobre os desafios impostos ao design brasileiro (Duarte, 1965), ele foi, nessa mesma d\u00e9cada, diretor de arte da editora Vozes, tendo ainda feito, com Rog\u00e9rio Gomes, o hoje cl\u00e1ssico encarte de <em>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/em> (para ficarmos restrito a este filme) \u2013 figuras 5.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Figuras 5<\/strong>: Projetos gr\u00e1ficos de Rog\u00e9rio Duarte<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2304 aligncenter\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture5-297x300.png\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture5-297x300.png 297w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture5.png 396w\" sizes=\"(max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Capa do disco de Gilberto Gil.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2305 aligncenter\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture52-201x300.jpg\" alt=\"\" width=\"201\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture52-201x300.jpg 201w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Picture52.jpg 368w\" sizes=\"(max-width: 201px) 100vw, 201px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">P\u00f4ster do filme de Glauber Rocha, <em>Deus e o Diabo na Terra do Sol<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A imagem com Corisco (Othon Bastos) \u00e9, hoje, muito mais que um cartaz de filme, \u00e9 um \u00edcone de nossa cultura visual. Se, a seu tempo, em pleno ano de 1964, ele atualizava as vanguardas e correntes ent\u00e3o em jogo, hoje segue sendo objeto de disputa, atualiza\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o para variadas audi\u00eancias, dentre as quais est\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es e revistas cient\u00edficas. Desse modo, como queremos deixar sugerido a outras poss\u00edveis pesquisas, a hist\u00f3ria intelectual de nossas ci\u00eancias n\u00e3o se resume a uma exegese de textos e argumentos, n\u00e3o se encerra em nossas institui\u00e7\u00f5es e bio-bibliografias; nossa hist\u00f3ria intelectual \u00e9 aquela das apostas que, atravessadas pelas tens\u00f5es entre cultura e pol\u00edtica, n\u00e3o s\u00e3o meramente \u201cte\u00f3ricas\u201d. S\u00e3o apostas desde o seu in\u00edcio est\u00e9ticas, editoriais e ideol\u00f3gicas por meio das quais os grupos e institui\u00e7\u00f5es metaf\u00f3rica e literalmente se imprimem no mundo. Mais que mero suporte ou adorno superficial, o projeto gr\u00e1fico diz muito sobre a concep\u00e7\u00e3o daquilo que se apresenta e daqueles que ali se representam.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A <em>Dados<\/em>, por meio do projeto de Rog\u00e9rio Duarte, demarcava posi\u00e7\u00e3o ao empunhar a bandeira da cientificidade, em um cen\u00e1rio de crescente repress\u00e3o pol\u00edtica, e dialogava com as inova\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-est\u00e9ticas da \u00e9poca de forma ao mesmo tempo s\u00f3bria e moderna. Materializava-se, dessa forma, uma das revistas mais importantes na forma\u00e7\u00e3o de diversas gera\u00e7\u00f5es de cientistas sociais no Brasil. A <em>Dados<\/em>, n\u00e3o somente como suporte para ideias inovadoras, mas como objeto material a ser lido, riscado, compartilhado e colecionado, inevitavelmente viria a fazer parte da vida de estudantes e pesquisadores nas d\u00e9cadas seguintes. A sua forma gr\u00e1fica, longe de ser um mero detalhe, foi parte constitutiva do jogo de ideias que se fez materializar na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">DUARTE, Rog\u00e9rio. (2003).\u00a0<em>Tropicaos<\/em>. Rio: Azougue.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">DUARTE, Rog\u00e9rio. (1965). \u00abNotas sobre o Desenho Industrial\u00bb. <em>Revista Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em> n. 4, p. 227-247.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">FUCHS, Isabela; ALMEIDA, Fernando dos Santos; FIALHO, Francisco. (2017) \u00abRog\u00e9rio Duarte e a Revista Movimento (1962)\u00bb. <em>Revista<\/em> <em>Tr\u00edades<\/em>. V.6, n.2. <a href=\"https:\/\/triades.emnuvens.com.br\/triades\/article\/view\/90\/52\">https:\/\/triades.emnuvens.com.br\/triades\/article\/view\/90\/52<\/a>, s\/p<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">GARCIA, Miliandre. (2004). \u00abA quest\u00e3o da cultura popular: as pol\u00edticas culturais do centro popular de cultura da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes\u00bb. <em>Revista Brasileira de Hist\u00f3ria<\/em> v. 24, n.47, p.127-16<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (1992) <em>Impress\u00f5es de viagem<\/em>. Rio: Rocco.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">HOLLANDA, Cristina Buarque de. (2012) \u201cOs Cadernos do Nosso Tempo e o interesse nacional\u201d. <em>Dados<\/em>, v. 55, n.3, p.607-640.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">MELLO, Chico Homem. (2006). <em>O Design Gr\u00e1fico Brasileiro \u2013 Anos 60<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">PESSANHA, Charles. (2017). \u00ab50 Anos de DADOS\u00bb.\u00a0\u00a0<em>Dados<\/em> v. 60, n. 3, pp. 605-622.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">SCHWARZ, Roberto. (1978). \u00abCultura e pol\u00edtica, 1964-1969\u00bb. In:\u00a0<i>O pai de fam\u00edlia e outros estudos. <\/i>Rio de Janeiro:\u00a0Paz e Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Agradecemos a Mari Chaguri, Aicha Barat, Vinicius de Morais, Luiz Augusto Campos e Marcia Candido pelas cr\u00edticas e reservas, apesar de sabermos que estamos aqu\u00e9m delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Cf. https:\/\/dicionariompb.com.br\/artista\/rogerio-duarte\/<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Se Caio N. Toledo se imbuiu da tarefa de diminuir o papel do ISEB como fabrica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, coube \u00e0 cr\u00edtica de Heloisa Buarque de Hollanda &#8211; de m\u00e3os dadas com Weffort<em>, <\/em>Schwarz e um Jabor ressentido no Pasquim &#8211; reduzir o CPC a mero paternalismo (cf. Hollanda, 1992).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Martins, Carlos. (1966). \u00abConstru\u00e7\u00e3o de teoria em Ci\u00eancias Sociais\u00bb. <em>Dados, <\/em>n.1.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u00a0<em>Cadernos do Povo Brasileiro<\/em>\u00a0\u00e9 o nome da cole\u00e7\u00e3o de livros publicada entre 1962 e 1964 pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira em parceria com o finado ISEB. J\u00e1 o peri\u00f3dico <em>Cadernos do Nosso Tempo<\/em> foi editado entre 1953 e 1956 pelo o Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Pol\u00edtica, conhecido pela sigla IBESP, antecessor do ISEB.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>SZWAKO, Jos\u00e9; NOBREGA, Leonardo. \u201cCultura e Pol\u00edtica\u201d: est\u00e9tica e design nas capas de Dados nos anos 1960.\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2022 [published 15 Sept. 2022]. 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A despeito da enxurrada de repress\u00e3o p\u00f3s-1964, a esquerda predominou esteticamente ao longo dos anos 1960[1]. \u00c9 esta uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":2334,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[7],"tags":[85,84,66,83],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2301"}],"collection":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2301"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2301\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2321,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2301\/revisions\/2321"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2301"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2301"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2301"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}