{"id":2033,"date":"2021-03-04T18:45:45","date_gmt":"2021-03-04T18:45:45","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=2033"},"modified":"2021-03-04T21:05:49","modified_gmt":"2021-03-04T21:05:49","slug":"conservadorismo-mata-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/conservadorismo-mata-mulheres\/","title":{"rendered":"O conservadorismo mata as mulheres?"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-es\">Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2033\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Portugu\u00e9s De Brasil<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>Uma consequ\u00eancia normativamente esperada em democracias representativas \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o entre as demandas do eleitorado e as pol\u00edticas p\u00fablicas implementadas por aqueles eleitos para governar (Lax and Phillips 2012). O mecanismo que explicaria isso \u00e9 simples: uma vez eleitos, os representantes teriam interesse em maximizar o bem-estar dos representados em troca de votos nas elei\u00e7\u00f5es seguintes. Por isso, em democracias, espera-se que os pol\u00edticos adotem um programa de governo que se aproxime da prefer\u00eancia majorit\u00e1ria do eleitorado.<\/p>\n<p>Mas o que acontece quando o anseio da maior parte dos eleitores coloca em risco a vida de minoriais (e.g., Ind\u00edgenas e LGBTQ+) ou maiorias minorizadas (Mulheres e Negros)? Por exemplo, imagine um cen\u00e1rio em que a maior parte dos eleitores \u00e9 conservadora e contr\u00e1ria \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher. Neste cen\u00e1rio, a decis\u00e3o de implementar pol\u00edticas p\u00fablicas seria orientada exclusivamente por um c\u00e1lculo eleitoral ou seria a demanda da maioria sobrestada pela necessidade de proteger um grupo vulner\u00e1vel? \u00c9 essa pergunta que tentamos responder no artigo \u00ab<a href=\"https:\/\/advance.sagepub.com\/articles\/preprint\/Can_conservatism_make_women_more_vulnerable_to_violence_\/13960661\">Can conservatism make women more vulnerable\u00bb<\/a>, recentemente aceito para publica\u00e7\u00e3o no peri\u00f3dico acad\u00eamico <em>Comparative Political Studies<\/em> (CPS).<\/p>\n<p>No mundo, cerca de 35% das mulheres j\u00e1 foram v\u00edtimas de viol\u00eancia praticada por seus parceiros (Garc\u00eda-Moreno et al, 2013). No Brasil, uma mulher \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia a cada quatro minutos (Cerqueira et al, 2019).<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros alarmantes t\u00eam levado muitos pa\u00edses ao redor do mundo a adotar legisla\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. Em 2020, mais de 155 pa\u00edses j\u00e1 contavam com alguma lei ou medida de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres (World Bank, 2020). No Brasil, alguns esfor\u00e7os nesse sentido come\u00e7aram j\u00e1 na d\u00e9cada de 1980, mas ganharam abrang\u00eancia e se materializaram em 2006, quando o Projeto de Lei 11.340 foi aprovado. Al\u00e9m de reconhecer e tipificar diferentes formas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, a Lei Maria da Penha identificou mecanismos de justi\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o e recomendou a ado\u00e7\u00e3o de tais instrumentos pelos munic\u00edpios brasileiros.<\/p>\n<p>A <strong>Tabela 1<\/strong> lista esses instrumentos e a frequ\u00eancia com que s\u00e3o adotados no n\u00edvel local. Como pode ser visto, muitos munic\u00edpios optam por n\u00e3o implementar os mecanismos de justi\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o recomendados pela Lei Maria da Penha. Mais de 70% dos munic\u00edpios n\u00e3o adotam sequer um instrumento de prote\u00e7\u00e3o (e.g., Servi\u00e7os especializados de atendimento \u00e0 viol\u00eancia sexual). Do mesmo modo, n\u00e3o existem instrumentos de justi\u00e7a (e.g., Delegacia Especializada de Atendimento \u00e0s Mulheres) em cerca de 90% dos munic\u00edpios brasileiros. O que explica essa op\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos locais por n\u00e3o implementarem pol\u00edticas que possam prevenir e\/ou lidar com a viol\u00eancia contra as mulheres?<\/p>\n<p><strong>Tabela 1<\/strong>: Instrumentos de combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher no Brasil<\/p>\n<table width=\"705\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"65\">Tipo<\/td>\n<td width=\"512\">Descri\u00e7\u00e3o do instrumento<\/td>\n<td width=\"64\">N<\/td>\n<td width=\"64\">%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"512\">Conselho Municipal de Direitos da Mulher<\/td>\n<td width=\"64\">1313<\/td>\n<td width=\"64\">23.58<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"512\">Centro Especializado de Atendimento \u00e0 Mulher<\/td>\n<td width=\"64\">385<\/td>\n<td width=\"64\">6.91<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"512\">Casas-Abrigo<\/td>\n<td width=\"64\">134<\/td>\n<td width=\"64\">2.41<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"512\">Servi\u00e7os Especializados de Atendimento \u00e0 Viol\u00eancia Sexual<\/td>\n<td width=\"64\">540<\/td>\n<td width=\"64\">9.7<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"512\">Delegacia Especializada de Atendimento \u00e0s Mulheres<\/td>\n<td width=\"64\">460<\/td>\n<td width=\"64\">8.26<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"512\">Juizado ou Vara Especial de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar contra a Mulher<\/td>\n<td width=\"64\">250<\/td>\n<td width=\"64\">4.49<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"512\">Promotorias Especializadas\/N\u00facleos de G\u00eanero do Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/td>\n<td width=\"64\">188<\/td>\n<td width=\"64\">3.38<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"512\">Defensorias da Mulher ou N\u00facleo Especial de Defesa dos Direitos da Mulher<\/td>\n<td width=\"64\">87<\/td>\n<td width=\"64\">1.56<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"512\">Patrulha Maria da Penha<\/td>\n<td width=\"64\">182<\/td>\n<td width=\"64\">3.27<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\">Justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"512\">Servi\u00e7o de Responsabiliza\u00e7\u00e3o do Agressor<\/td>\n<td width=\"64\">113<\/td>\n<td width=\"64\">2.03<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\"><\/td>\n<td width=\"64\"><\/td>\n<td width=\"64\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios sem nenhum instrumento de prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"64\">3901<\/td>\n<td width=\"64\">70.06<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com 1 instrumento de prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"64\">1174<\/td>\n<td width=\"64\">21.08<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com 2 instrumentos de prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"64\">328<\/td>\n<td width=\"64\">5.89<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com 3 instrumentos de prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"64\">119<\/td>\n<td width=\"64\">2.14<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com mais de 3 instrumentos de prote\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"64\">46<\/td>\n<td width=\"64\">0.83<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios sem nenhum instrumento de justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"64\">4902<\/td>\n<td width=\"64\">88.04<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com 1 instrumento de justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"64\">349<\/td>\n<td width=\"64\">6.27<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com 2 instrumentos de justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"64\">163<\/td>\n<td width=\"64\">2.93<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com 3 instrumentos de justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"64\">71<\/td>\n<td width=\"64\">1.28<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"65\"><\/td>\n<td width=\"512\">Munic\u00edpios com mais de 3 instrumentos de justi\u00e7a<\/td>\n<td width=\"64\">83<\/td>\n<td width=\"64\">1.49<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Fonte: elaborado pelos autores com base nos dados do MUNIC (IBGE, 2018).<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Partindo do pressuposto de que pol\u00edticos desejam ganhar elei\u00e7\u00f5es e que, para tanto, buscam adotar um programa de governo que seja responsivo aos seus eleitores, testamos a hip\u00f3tese de que pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres s\u00e3o menos prov\u00e1veis em munic\u00edpios com um eleitorado mais conservador. Nesse caso, assumimos que os eleitores conservadores, aqueles que tendem a votar em candidatos e partidos \u00e0 direita do espectro ideol\u00f3gico, s\u00e3o mais resistentes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. E por esse motivo, nos munic\u00edpios onde os eleitores conservadores s\u00e3o maioria, os pol\u00edticos locais teriam poucos incentivos para implementar a Lei Maria da Penha em sua integralidade.<\/p>\n<p>Testamos essa hip\u00f3tese de duas formas. Em primeiro lugar, usamos dados de n\u00edvel municipal para examinar se existe alguma correla\u00e7\u00e3o entre o n\u00edvel de conservadorismo do eleitorado e o n\u00famero de instrumentos implementados para combater a viol\u00eancia contra as mulheres. Para tanto, utilizamos o \u00edndice de conservadorismo eleitoral constru\u00eddo por Power e Rodrigues (2019). Os instrumentos listados na <strong>Tabela 1<\/strong> foram utilizados para a constru\u00e7\u00e3o de um \u00edndice que varia de 0 a 10; onde 0 significa que nenhuma pol\u00edtica de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres foi adotada e 10 significa que todas foram implementadas em um dado munic\u00edpio.<\/p>\n<p>A <strong>Figura 1<\/strong> apresenta nossos resultados principais. Mesmo quando controlamos pelas caracter\u00edsticas dos pol\u00edticos locais e por diversos outros fatores de n\u00edvel municipal, nossos modelos estat\u00edsticos sugerem que prefeitos eleitos por eleitorados conservadores optam por implementar um n\u00famero menor de instrumentos de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres. Esse resultado \u00e9 especialmente forte no caso dos instrumentos de prote\u00e7\u00e3o (<strong>Painel B<\/strong>), pol\u00edticas fundamentais para garantir a prote\u00e7\u00e3o e a integridade das sobreviventes de viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Figura 1:<\/strong> Rela\u00e7\u00e3o entre o n\u00famero de instrumentos de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres e o n\u00edvel de conservadorismo do eleitorado nos munic\u00edpios brasileiros<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2037 size-large\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-1-1024x683.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-1-1024x683.png 1024w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-1-300x200.png 300w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-1-768x512.png 768w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h6>Nota: A unidade de an\u00e1lise \u00e9 o munic\u00edpio (N = 5.540). \u00a0O \u00edndice conservadorsimo varia entre -1 (se nenhum eleitor \u00e9 conservador) e 1 (se todos os eleitores s\u00e3o conservadores). Os resultados reportados na Figura 1 s\u00e3o derivados de modelos de m\u00ednimos quadrados ordin\u00e1rios com erros clusterizados no n\u00edvel do munic\u00edpio. Os seguintes controles foram inclu\u00eddos nos modelos: taxa de feminic\u00eddio, % de mulheres na popula\u00e7\u00e3o, % da popula\u00e7\u00e3o vivendo em \u00e1reas urbanas, % da popula\u00e7\u00e3o autodeclarada evang\u00e9lica, log do tamanho da popula\u00e7\u00e3o, \u00edndice de desenvolvimento humano, qualifica\u00e7\u00e3o da burocracia, g\u00eanero, ideologia e religi\u00e3o dos prefeitos e vereadores eleitos entre 2004 e 2016. Mais detalhes sobre a operacionaliza\u00e7\u00e3o das vari\u00e1veis est\u00e3o dispon\u00edveis na publica\u00e7\u00e3o original. O painel A considera todos os instrumentos apresentados na Tabela 1. O painel B considera apenas os instrumentos de prote\u00e7\u00e3o, enquanto o painel C considera os instrumentos de justi\u00e7a.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas como saber se o conservadorismo do eleitorado se traduz de fato em menor suporte \u00e0s pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres? Um pressuposto dos testes discutidos acima \u00e9 que eleitores conservadores tendem a se opor \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres. No entanto, os eleitores frequentemente s\u00e3o conservadores em uma dimens\u00e3o e progressistas em outras. Por exemplo, um dado eleitor pode ser conservador em dimens\u00f5es socioculturais e, ao mesmo tempo, ser progressista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia. Neste caso, importa saber se os indiv\u00edduos mais conservadores s\u00e3o, de fato, menos propensos a apoiar pol\u00edticas de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres.<\/p>\n<p>Como dados agregados n\u00e3o permitem responder de forma adequada essa quest\u00e3o, utilizamos uma pesquisa de opini\u00e3o, realizada em abril de 2019, e que entrevistou 2.086 indiv\u00edduos em todos os estados brasileiros. De posse desses dados, criamos um \u00edndice de conservadorismo individual baseado nas seguintes perguntas:<\/p>\n<p>1) Voc\u00ea se considera feminista e\/ou apoia o feminismo?<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">2) Voc\u00ea \u00e9 a favor ou contra que o Brasil receba refugiados da Venezuela?<\/span><\/p>\n<p>3) Quanto mais pessoas presas, mais segura estar\u00e1 a sociedade?<\/p>\n<p>O \u00edndice varia entre 0 e 3. Foram classificados como zero (i.e., n\u00e3o s\u00e3o considerados conservadores) em nosso \u00edndice aqueles indiv\u00edduos que apoiam o feminismo, que s\u00e3o a favor do acolhimento de refugiados da Venezuela no Brasil e que s\u00e3o contra uma pol\u00edtica de encarceramento em massa.<\/p>\n<p>Em nosso estudo, investigamos se o modo como os indiv\u00edduos s\u00e3o classificados nesse \u00edndice afeta a opini\u00e3o dos mesmos sobre os seguintes temas relacionados \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres:<\/p>\n<p>1) A viol\u00eancia contra a mulher aumentou no Brasil no \u00faltimo ano.<\/p>\n<p>2) As leis no Brasil s\u00e3o adequadas para proteger as mulheres.<\/p>\n<p>3) A imprensa exagera na exposi\u00e7\u00e3o dos casos de viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n<p>A <strong>Figura 2<\/strong> reporta os principais resultados dos nossos modelos estat\u00edsticos. Os indiv\u00edduos mais conservadores, aqueles que receberam valores maiores no nosso \u00edndice de conservadorismo, s\u00e3o mais propensos a acreditar que as leis existentes s\u00e3o suficientes para proteger as mulheres. Na mesma dire\u00e7\u00e3o, os mais conservadores s\u00e3o tamb\u00e9m mais propensos a acreditar que a imprensa exagera na exposi\u00e7\u00e3o dos casos de viol\u00eancia contra a mulher. Esses resultados sugerem que o conservadorismo reduz o apoio \u00e0s pol\u00edticas de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres. Esses achados tamb\u00e9m refor\u00e7am a validade das nossas evid\u00eancias de n\u00edvel municipal. Em geral, os pol\u00edticos locais, antecipando que a prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres \u00e9 uma pauta impopular entre os eleitores, adotam uma estrat\u00e9gia deliberada de n\u00e3o implementar medidas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p><strong>Figura 2:<\/strong> Rela\u00e7\u00e3o entre conservadorismo e percep\u00e7\u00f5es sobre viol\u00eancia contra as mulheres<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2038 size-large\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-2-1024x683.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-2-1024x683.png 1024w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-2-300x200.png 300w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Malu-2-768x512.png 768w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h6>Nota: A unidade de an\u00e1lise \u00e9 o indiv\u00edduo (N = 1949). Os resultados reportados na Figura 2 s\u00e3o derivados de modelos de regress\u00e3o log\u00edstica com erros clusterizados no n\u00edvel do indiv\u00edduo. Aqueles que disseram concordar muito ou concordar em parte com cada uma dessas afirma\u00e7\u00f5es (painel A, B e C) foram classificados como 1 em nosso banco de dados, e caso contr\u00e1rio como 0 (zero). Os seguintes controles foram inclu\u00eddos nos modelos: g\u00eanero, ra\u00e7a, escolaridade, renda, religi\u00e3o, prefer\u00eancia partid\u00e1ria e tamanho do munic\u00edpio de moradia do respondente para ajustar os modelos estat\u00edsticos.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pesquisas anteriores sugerem que a ideologia dos pol\u00edticos importa pouco para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres (e.g., Beer, 2017). Isso ocorreria porque esse \u00e9 um tema que suscita acordos m\u00ednimos, fazendo com que mesmo partidos de direita e com plataformas eleitorais conservadoras n\u00e3o se oponham ao avan\u00e7o da legisla\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea (Htun e Weldon, 2017). No entanto, nossos resultados sugerem que o conservadorismo pode reduzir substanticialmente os incentivos para uma efetiva implementa\u00e7\u00e3o das legisla\u00e7\u00f5es existentes.<\/p>\n<p>Por meio de an\u00e1lises adicionais que interagem o nosso \u00edndice de conservadorismo com o g\u00eanero do respondente, tamb\u00e9m encontramos que esses resultados s\u00e3o puxados pelos homens: na nossa amostra, os homens s\u00e3o mais conservadores que as mulheres e, consequentemente, mais propensos a concordar que as leis existentes s\u00e3o suficientes para proteger as mulheres. Em contrapartida, quando o assunto \u00e9 viol\u00eancia contra as mulheres, as atitudes das mulheres conservadoras se aproximam mais das prefer\u00eancias das mulheres progressistas do que dos homens conservadores. Esses resultados indicam que a n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o no n\u00edvel local de instrumentos de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9, em grande medida, uma resposta \u00e0s prefer\u00eancias dos eleitores homens.<\/p>\n<p>Nossos achados contribuem para um importante debate em curso sobre o impacto potencial do aumento do conservadorismo sobre os direitos das mulheres em todo o mundo (e.g., Biroli e Caminotti, 2020). Da mesma forma que o Brasil, outros pa\u00edses &#8211; incluindo Argentina, Fran\u00e7a, Alemanha, \u00cdndia, M\u00e9xico, Pol\u00f4nia, Su\u00ed\u00e7a e os Estados Unidos &#8211; tamb\u00e9m oferecem contextos onde os governos locais podem ter altos n\u00edveis de discricionariedade sobre a formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas (Ladner et al., 2016) e onde o aumento do conservadorismo pode se traduzir no aumento do n\u00famero de mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BEER, Caroline. (2017), \u00abLeft parties and violence against women legislation in Mexico.Social Politics:International Studies in Gender\u00bb. <em>State &amp; Society<\/em>, vol.24, n.4, p.511\u2013537.<\/p>\n<p>BIROLI, Fl\u00e1via; CAMINOTTI, Mariana. (2020). \u00abThe conservative backlash against gender in latin america\u00bb.<em>Politics &amp; Gender<\/em>, vol.16, n.1.<\/p>\n<p>CERQUEIRA, Daniel. et al. (2019), <em>Atlas da viol\u00eancia<\/em>\u00a02019. Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA).<\/p>\n<p>GARCIA-MORENO, Claudia. et al. (2013), <em>Global and regional estimates of violence against women<\/em>: Prevalence and health effects of intimatepartner violence and non-partner sexual violence. World Health Organization.<\/p>\n<p>HTUN,\u00a0 Mala; WELDON,\u00a0 S. Lauren. (2010), \u00abWhen do governments promote women\u2019s rights?\u00a0\u00a0 Aframework\u00a0 for\u00a0 the\u00a0 comparative\u00a0 analysis\u00a0 of\u00a0 sex\u00a0 equality\u00a0 policy\u00bb. <em>Perspectives \u00a0on\u00a0 Politics<\/em>,vol.8, n.1, p.207\u2013216<\/p>\n<p>LAX, Jeffrey R.; PHILLIPS, Justin. H. (2012), \u00abThe democratic deficit in the states\u00bb.\u00a0<em>American Journal of Political Science<\/em>, vol.56, n.1, p.148-166.<\/p>\n<p>LADNER, Andreas; KEUFFER, Nicolas, BALDERSHEIM, Harald. (2016), \u00abMeasuring local autonomy in 39 countries(1990\u20132014)\u00bb. <em>Regional &amp; Federal Studies<\/em>, vol.26, n.3, p.321\u2013357.<\/p>\n<p>POWER, Timothy J.; RODRIGUES-SILVEIRA, Rodrigo. (2019),\u00a0 \u00abMapping ideological preferences in Brazilianelections, 1994-2018: A municipal-level study\u00bb. <em>Brazilian Political Science Review<\/em>, vol.13, n.1.<\/p>\n<p>THE WORLD BANK. (2020), <em>Women, business and the law<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Como citar esse post<\/h3>\n<p>ARA\u00daJO, Victor; GATTO, Malu. O conservadorismo mata as mulheres?.\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2021 [published 4 march 2021]. Available from:\u00a0<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/conservadorismo-mata-mulheres\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/conservadorismo-mata-mulheres\/<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en Portugu\u00e9s De Brasil. 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