{"id":1957,"date":"2020-10-08T17:56:10","date_gmt":"2020-10-08T17:56:10","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1957"},"modified":"2020-10-08T20:27:56","modified_gmt":"2020-10-08T20:27:56","slug":"politica-livro-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/politica-livro-brasil\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica do livro no Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-es\">Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1957\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Portugu\u00e9s De Brasil<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>O apelo ao consumo consciente de livros tem surgido ao longo dos \u00faltimos anos em setores vinculados ao mercado editorial brasileiro acompanhado de cr\u00edticas ao modo de funcionamento das grandes redes varejistas. Trata-se, muitas vezes, de um est\u00edmulo a compra em pequenas livrarias como forma de resolver problemas decorrentes de mudan\u00e7as estruturais j\u00e1 bastante consolidadas em todo o mundo. O tamanho e a import\u00e2ncia da quest\u00e3o exigem, entretanto, medidas coletivas e institucionalmente lastreadas. Campanhas que apelam ao voluntarismo do leitor podem servir para dar uma aura rom\u00e2ntica e de resili\u00eancia aos que se dizem apaixonados pela leitura, mas est\u00e3o longe de apontar solu\u00e7\u00f5es duradouras para um setor t\u00e3o carente de medidas eficientes.<\/p>\n<p>A recente mobiliza\u00e7\u00e3o de diversos segmentos vinculados aos livros e \u00e0 leitura no Brasil contra a proposta do governo federal de cria\u00e7\u00e3o da Contribui\u00e7\u00e3o Social sobre Opera\u00e7\u00f5es com Bens e Servi\u00e7os (CBS) chama a aten\u00e7\u00e3o para uma din\u00e2mica estrutural de primeira ordem: o livro \u00e9 fruto de uma cadeia complexa que envolve atores muito diversos e deve, portanto, ser pensado de forma sist\u00eamica. Pela proposta do governo, os livros &#8211; que, al\u00e9m de serem isentos de impostos desde a constitui\u00e7\u00e3o de 1946, obtiveram nulidade de PIS e Cofins em 2004 &#8211; passariam a contribuir com a nova al\u00edquota de 12%. Se a repercuss\u00e3o da discuss\u00e3o p\u00fablica sobre a estrutura da ind\u00fastria editorial no pa\u00eds foi uma surpresa positiva, a instabilidade estrutural do mercado editorial n\u00e3o tem nada de novo. O Brasil vive um per\u00edodo bastante longo de retra\u00e7\u00e3o. O encolhimento experimentado no com\u00e9rcio de livros entre 2006 e 2019 chegou a 20%, como <a href=\"https:\/\/snel.org.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/S%C3%89RIE_HIST%C3%93RICA_PCR2019_Final.pdf\">indicado pela pesquisa realizada pela Nielsen Book<\/a>. O movimento \u00e9 agravado pelo fechamento de editoras e livrarias. Por que, ent\u00e3o, grande parte das campanhas insistem em jogar a solu\u00e7\u00e3o para as m\u00e3os dos consumidores?<\/p>\n<p>O voluntarismo, utilizado como ferramenta de mobiliza\u00e7\u00e3o em campanhas de marketing realizadas por atores do mercado editorial brasileiro, deixa de fora da discuss\u00e3o p\u00fablica elementos estruturais que s\u00e3o fundamentais para um funcionamento saud\u00e1vel do setor \u2013 embora se mantenha na mira de entidades especializadas e em f\u00f3runs de discuss\u00e3o bastante restritos. Por tr\u00e1s desse expediente est\u00e1 a ideia de que a salva\u00e7\u00e3o do mercado depende da boa vontade do leitor. Como vem mostrando a hist\u00f3ria do livro no pa\u00eds, entretanto, os resultados mais efetivos est\u00e3o relacionados a decis\u00f5es coletivas, como as press\u00f5es de entidades organizadas, a formula\u00e7\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Entidades livreiras v\u00eam propondo linhas de cr\u00e9dito subsidiadas, isen\u00e7\u00e3o de IPTU, programas governamentais de compras de livros, dentre outros mecanismos que, de fato, se implementados, t\u00eam a capacidade de fazer o livro circular e chegar nas m\u00e3os dos leitores. \u00c9 preciso, entretanto, jogar para o p\u00fablico, de forma ampla, a discuss\u00e3o sobre os livros no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O supl\u00edcio do Papai Noel<\/strong><\/p>\n<p>O natal de 1951, na Fran\u00e7a, teve uma discuss\u00e3o interessante sobre a paganiza\u00e7\u00e3o promovida pela exalta\u00e7\u00e3o da figura do Papai Noel. A imagem do velhinho barbudo estaria, como narra o antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss (2008, p. 5), \u201cdesviando o esp\u00edrito p\u00fablico do sentido propriamente crist\u00e3o dessa comemora\u00e7\u00e3o, em favor de um mito sem valor religioso\u201d. Em um ato simb\u00f3lico de protesto, a queima de uma imagem do Papai Noel foi realizada na cidade de Dijon.<\/p>\n<p>Diversos acontecimentos recentes no mercado editorial brasileiro parecem retomar esse ritual cat\u00e1rtico. De formas distintas, acabam reafirmando a superioridade moral t\u00edpica das carreiras art\u00edsticas, como bem notou Pierre Bourdieu (1996), identificadas na nega\u00e7\u00e3o do discurso econ\u00f4mico. Uma linguagem permeada de eufemismos exclui do campo art\u00edstico palavras de cunho econ\u00f4mico. Esta \u201crecusa\u201d est\u00e1 de tal forma arraigada no universo editorial que, como afirma Gabriel Zaid (2004: 45), \u201co sucesso comercial pode ser contraproducente, provocando uma perda de credibilidade nos melhores c\u00edrculos. Queremos que os livros sejam objetos democr\u00e1ticos, para ser lidos por todos, estar acess\u00edveis em todos os lugares, mas tamb\u00e9m queremos que continuem sendo sagrados\u201d.<\/p>\n<p>Essa sacralidade est\u00e1 presente no texto de Luiz Schwarcz que circulou no final de 2018. No dia 27 de novembro de 2018, o presidente da editora Companhia das Letras publicou, no jornal <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, um texto intitulado <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/11\/o-livro-no-brasil-vive-seus-dias-mais-dificeis-diz-editor-luiz-schwarcz.shtml\">\u201cCartas de amor aos livros\u201d<\/a>. Partindo do diagn\u00f3stico de que, naquele momento, \u201co livro no Brasil viv[ia] seus dias mais dif\u00edceis\u201d, referindo-se, sobretudo, ao pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial emitido pelas livrarias Saraiva e Cultura, o editor vislumbrava um futuro catastr\u00f3fico com o potencial corte em at\u00e9 40% dos rendimentos das editoras e o fechamento de livrarias por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Dizendo-se um gestor idealista e com um \u201cprofundo senso de prote\u00e7\u00e3o para com os (&#8230;) autores e leitores\u201d, Schwarcz justificou, com pesar, a demiss\u00e3o de funcion\u00e1rios da empresa e pediu, quase como um ato desesperado de amparo, uni\u00e3o entre editores, livreiros e autores para que espalhassem mensagens de amor aos livros acompanhadas do mote que virou campanha: \u201cNeste natal, d\u00ea livro de presente\u201d. A campanha ganhou grande repercuss\u00e3o nas redes sociais e a ader\u00eancia de diversos nomes conhecidos da cultura nacional. O sucesso, entretanto, n\u00e3o impediu que o mercado editorial amargasse mais um ano de queda no n\u00famero de exemplares vendidos.<\/p>\n<p>Outro caso mais recente trata de jogar para os consumidores a responsabilidade por salvaguardar as pequenas e m\u00e9dias livrarias durante a pandemia de Covid-19. Os slogans \u201cadote uma livraria de bairro\u201d ou \u201cadote uma pequena livraria\u201d s\u00e3o, nesse sentido, relevadores: tanto rejeitam a configura\u00e7\u00e3o comercial das grandes empresas varejistas quanto prop\u00f5em uma forma de racioc\u00ednio que deslegitima o c\u00e1lculo economicista do leitor. Ao se realizar uma <em>ado\u00e7\u00e3o<\/em>, estabelece-se uma rela\u00e7\u00e3o familiar, excluindo, portanto, as considera\u00e7\u00f5es de tipo pecuni\u00e1ria. Deve-se ajudar o pequeno livreiro do bairro, mesmo que, de forma contradit\u00f3ria, grande parte dos bairros do pa\u00eds n\u00e3o tenham livrarias e que, caso as tenha, vendam provavelmente a pre\u00e7os mais altos que os praticados pelo com\u00e9rcio online.<\/p>\n<p>Tal qual a hist\u00f3ria contada por L\u00e9vi-Strauss, estes sujeitos bem intencionados fogem do universo moral economicista reafirmando seus valores mais nobres. O fazem, esse \u00e9 o discurso, por um idealismo humanista sempre voltado a melhorar o mundo, nunca em busca de seus interesses particulares. Sigamos a proposta do antrop\u00f3logo: \u201cobservemos os ternos cuidados que temos com Papai Noel, as precau\u00e7\u00f5es e os sacrif\u00edcios que aceitamos para manter seu prest\u00edgio intocado junto \u00e0s crian\u00e7as. N\u00e3o ser\u00e1 porque, l\u00e1 no fundo de n\u00f3s, ainda persiste a vontade de acreditar, por pouco que seja, numa generosidade irrestrita, numa gentileza desinteressada, num breve instante em que se suspende qualquer receio, qualquer inveja, qualquer amargura?\u201d (2008, p. 44).<\/p>\n<p>Essa pergunta pode ser replicada ao refletirmos sobre a configura\u00e7\u00e3o atual do nosso mercado editorial. O que de fato se prop\u00f5e ao pedir que leitores ignorem valores monet\u00e1rios? Trata-se de um grito de socorro para a manuten\u00e7\u00e3o de um ambiente livreiro que parece em ru\u00ednas ou \u00e9 o simples deslocamento do \u00f4nus daquilo com o qual n\u00e3o se consegue lidar com as pr\u00f3prias for\u00e7as? Editores e livreiros, claro, sabem muito bem que as solu\u00e7\u00f5es efetivas passam necessariamente por acordos coletivos, mas o recorrente apelo ao leitor-her\u00f3i \u00e9 revelador do qu\u00e3o devastado tem se tornado o setor nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que a hist\u00f3ria nos ensina<\/strong><\/p>\n<p>Um dos frutos do contato estabelecido entre editores e o estado foi a cria\u00e7\u00e3o em 1940 da Associa\u00e7\u00e3o Profissional das Empresas Editoras de Livros e Publica\u00e7\u00f5es Culturais que, em 1959, viria a ser rebatizada de Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), \u00f3rg\u00e3o que at\u00e9 hoje tem atua\u00e7\u00e3o fundamental nas pol\u00edticas relacionadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do livro no Brasil. Desde o in\u00edcio da sua atua\u00e7\u00e3o, o SNEL lan\u00e7ou diversas campanhas visando defender os interesses dos editores, dentre elas \u00e0 de isen\u00e7\u00e3o de impostos para a importa\u00e7\u00e3o de papel e outros materiais gr\u00e1ficos relacionados \u00e0 ind\u00fastria livreira. Em 1946 foi fundada a C\u00e2mara Brasileira do Livro. A cria\u00e7\u00e3o das entidades serviu, antes de mais nada, como demarcador do processo de profissionaliza\u00e7\u00e3o pelo qual passava o mercado editorial brasileiro \u00e0 \u00e9poca, fato que encontrou paralelos em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>O pensamento que embasava a cria\u00e7\u00e3o dessas entidades estava em conson\u00e2ncia com o posicionamento das elites intelectuais de que um processo de moderniza\u00e7\u00e3o passaria, necessariamente, pelo desenvolvimento educacional, no qual o livro deveria cumprir um papel central. O III Congresso de Editores e Livreiros, organizado pelo SNEL e pela CBL ocorrido em novembro de 1956 na sede do minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ou algumas das diretrizes que se tornariam parte do horizonte pol\u00edtico do momento: o livro como instrumento de progresso social.<\/p>\n<p>O discurso proferido por Juscelino Kubitschek ao Congresso Nacional, na abertura da sess\u00e3o legislativa de 1958, foi bastante claro quanto ao papel do estado no est\u00edmulo ao desenvolvimento da ind\u00fastria do livro no pa\u00eds, em conson\u00e2ncia com o que vinham demandando editores e livreiros:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Apesar do recente desenvolvimento de novos processos de difus\u00e3o cultural \u2013 o r\u00e1dio, a televis\u00e3o e o cinema, dotados de enorme capacidade de penetra\u00e7\u00e3o \u2013 o livro continua a ser o ve\u00edculo b\u00e1sico de transmiss\u00e3o de conhecimento. Atrav\u00e9s de livros e peri\u00f3dicos \u00e9 que se criam, perpetuam e difundem todas as formas de saber, desde as de conte\u00fado mais erudito e requintado, at\u00e9 as mais instrumentais, ligadas \u00e0 difus\u00e3o das t\u00e9cnicas. A produ\u00e7\u00e3o de livros e peri\u00f3dicos, em quantidade que a popula\u00e7\u00e3o possa absorver, e com a diversifica\u00e7\u00e3o que reclamam o desenvolvimento equilibrado da cultura nacional, \u00e9 mat\u00e9ria relevante que exige dos Poderes P\u00fablicos a mais zelosa assist\u00eancia e est\u00edmulo. O crescimento da ind\u00fastria editorial brasileira, nos \u00faltimos anos, \u00e9 um dos \u00edndices mais expressivos do nosso avan\u00e7o cultural. Tal incremento se deve, essencialmente, \u00e0 iniciativa privada que se revelou capaz de prover o pa\u00eds de algumas casas editoras cuja produ\u00e7\u00e3o de livros e folhetos j\u00e1 se conta por milh\u00f5es. O est\u00edmulo governamental a esta atividade se vem fazendo principalmente atrav\u00e9s de medidas destinadas a reduzir o pre\u00e7o do papel, e, desse modo, baixar o custo da produ\u00e7\u00e3o livreira. O desenvolvimento a que o Pa\u00eds aspira est\u00e1 a exigir nesse campo, a\u00e7\u00e3o mais en\u00e9rgica, que n\u00e3o confie apenas na capacidade de crescimento espont\u00e2neo, da ind\u00fastria livreira, mas venha prov\u00ea-la dos meios de que carece para atender de pronto \u00e0 crescente necessidade de livros. Imp\u00f5e-se, inicialmente, uma renova\u00e7\u00e3o no parque gr\u00e1fico nacional, em grande parte obsoleto e j\u00e1 incapaz de corresponder \u00e0s exig\u00eancias da produ\u00e7\u00e3o em massa. S\u00f3 essa renova\u00e7\u00e3o propiciar\u00e1 substancial rebaixamento do pre\u00e7o de custo, o que facilitar\u00e1 a difus\u00e3o do livro. Atrav\u00e9s de assist\u00eancia banc\u00e1ria mais ampla, como a de que j\u00e1 disp\u00f5em outros setores da ind\u00fastria, e de melhor articula\u00e7\u00e3o das atividades editoriais e de divulga\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os do Poder P\u00fablico, com os editores e livreiros do Pa\u00eds podem-se encontrar outros meios de incrementar a produ\u00e7\u00e3o de livros (Boletim Bibliogr\u00e1fico Brasileiro, v. 6, n. 2, mar\u00e7o de 1958 apud AZEVEDO, 2018, p. 134).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O discurso de JK, que continua a fazer sentido hoje, mais de sessenta anos depois de proferido, acenou aos livreiros e editores de todo o pa\u00eds ao mostrar que a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica seria uma aliada do desenvolvimento da ind\u00fastria editorial nacional. A sinaliza\u00e7\u00e3o positiva e o apoio do estado em mat\u00e9rias como a redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do papel e linhas de cr\u00e9dito espec\u00edficas para o setor foram fundamentais para que se criasse um ambiente prop\u00edcio aos investimentos editoriais. O ide\u00e1rio nacional-desenvolvimentista, que estabeleceu institui\u00e7\u00f5es que pudessem viabilizar seus projetos \u2013 como se deu com a cria\u00e7\u00e3o do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) em 1952 e da Petrobras em 1953, ambos no governo Vargas, e a Superintend\u00eancia Regional do Nordeste (Sudene), em 1959 na gest\u00e3o de JK \u2013 encontrou respaldo no ambiente cultural e intelectual que se adensava com o desenvolvimento das universidades e institutos de pesquisa.<\/p>\n<p>Essa r\u00e1pida retrospectiva deve ajudar a localizar historicamente as medidas que tiveram de fato impacto sobre o conjunto do setor editorial brasileiro. Se \u00e9 certo que campanhas de est\u00edmulo ao consumo de livros sempre fizeram parte das atividades organizadas pelas entidades que representam o setor, \u00e9 ineg\u00e1vel que o que realmente trouxe transforma\u00e7\u00e3o para a industrial editorial do pa\u00eds foram as medidas articuladas com o estado. A capacidade indutiva da estrutura administrativa sempre foi essencial para o setor. Para crises estruturais, como se d\u00e1 atualmente com o mercado editorial nacional, as solu\u00e7\u00f5es coletivas e coordenadas com o estado s\u00e3o a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Poder e mercado<\/strong><\/p>\n<p>Diante da atual crise em que vive o mercado editorial, a Amazon passa a ser vista por diversos editores e livreiros como o inimigo a ser combatido. Tal qual um urubu que ronda suas presas esperando o momento certo para o abate, a empresa estadunidense \u00e9 apontada como predadora, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/04\/escritor-faz-manifesto-com-sete-razoes-para-ser-contra-a-amazon.shtml\">avessa \u00e0 cultura human\u00edstica<\/a>, acusada de concorr\u00eancia desleal e <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/por-tras-dos-muros-da-fabrica-de-encomendas\/\">maus-tratos direcionados a seus funcion\u00e1rios<\/a>. Nas palavras de Jorge Carri\u00f3n (2020, p. 15), \u201cum monstro cheio de tent\u00e1culos\u201d. Enquanto isso, o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/08\/dono-da-amazon-e-primeiro-no-mundo-a-alcancar-fortuna-de-us-200-bilhoes.shtml\">patrim\u00f4nio declarado do seu dono nunca foi t\u00e3o grande<\/a>. Essa caracteriza\u00e7\u00e3o inspira uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es contestat\u00f3rias e n\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o o receio que a empresa provoca onde quer que venha a se instalar. A diversidade dos livros e a manuten\u00e7\u00e3o de uma din\u00e2mica editorial heterog\u00eanea \u00e9 em tudo contr\u00e1ria \u00e0s pretens\u00f5es monopolistas de Jeff Bezos. Essa din\u00e2mica \u00e9, entretanto, anterior \u00e0 Amazon e seu freio exige conven\u00e7\u00f5es coletivas que possam ir al\u00e9m do velho e enfadado apelo \u00e0 salva\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria editorial pela conscientiza\u00e7\u00e3o do consumo cultural.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o nos setores de produ\u00e7\u00e3o e venda de livros vem se desdobrando desde a segunda metade do s\u00e9culo XX em diversos pa\u00edses. Na Inglaterra, John B. Thompson (2005) observa a exist\u00eancia de duas tend\u00eancias fundamentais a partir dos anos 1980: a forma\u00e7\u00e3o de conglomerados editoriais e a consolida\u00e7\u00e3o de grandes cadeias varejistas, inclu\u00eddo a\u00ed o com\u00e9rcio online. Na Fran\u00e7a, Jean-Yves Mollier (2011) identifica a constitui\u00e7\u00e3o do que chama de dois gigantes do livro, a Matra-Hachette em 1980 e a Groupe de La Cit\u00e9 em 1988, como o momento em que se \u201cmarcaria bem uma ruptura na hist\u00f3ria cultural do pa\u00eds, a velha \u201cna\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria\u201d aderindo, contra a sua vontade (&#8230;), ao modelo de desenvolvimento anunciado pelo grande irm\u00e3o norte-americano\u201d (Mollier, 2011: 62-63). Esta ades\u00e3o \u201cfor\u00e7ada\u201d se daria justamente por conta da concentra\u00e7\u00e3o dos setores envolvidos na produ\u00e7\u00e3o e venda e da \u00e2nsia pelo lucro, fazendo com que a ideia romantizada do editor que cuida com zelo e de forma apaixonada por cada livro d\u00ea espa\u00e7o a decis\u00f5es pragm\u00e1ticas e economicamente orientadas.<\/p>\n<p>De acordo com esse diagn\u00f3stico est\u00e3o os ensaios de dois importantes editores estadunidenses da segunda metade do s\u00e9culo XX. Jason Epstein relata como o crescimento dos conglomerados editorias e das cadeias varejistas impulsionaram o mercado editorial numa dire\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 da sua natureza. O neg\u00f3cio dos livros, argumenta ele, \u201c\u00e9 por natureza pequeno, descentralizado, improvisado, pessoal; mas bem desempenhado por pequenos grupos de pessoas com afinidades, devotadas ao seu of\u00edcio, zelosas de sua autonomia, sens\u00edveis \u00e0s necessidades dos escritores e aos diversos interesses dos leitores\u201d (Epstein, 2002: 19). Andr\u00e9 Schffrin (2006), de forma paralela, observa como a orienta\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria para o lucro tem tomado o lugar dos julgamentos editoriais voltados para a qualidade intelectual e liter\u00e1ria daquilo que deve ou n\u00e3o ser publicado e de como o ser\u00e1 feito. Ambos os relatos refletem uma vis\u00e3o cr\u00edtica referente a atores envolvidos diretamente neste processo das mudan\u00e7as pelas quais passaram o mercado editorial, em que se consolida uma tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de editoras e de livrarias em grandes conglomerados, com a internacionaliza\u00e7\u00e3o destes setores.<\/p>\n<p>No Brasil, desde a sua forma\u00e7\u00e3o, a Liga Brasileira de Editoras (Libre), fundada em 2001, vem demandando uma maior interven\u00e7\u00e3o estatal e defendendo propostas como a da Lei do Pre\u00e7o Fixo, <a href=\"https:\/\/revistaescuta.wordpress.com\/2017\/08\/11\/licao-de-escrita-elementos-para-se-pensar-a-importancia-do-livro-e-da-leitura-no-brasil\/\">mecanismo capaz de dirimir algumas distor\u00e7\u00f5es mercadol\u00f3gicas e dar maior poder competitivo para pequenas livrarias<\/a>, como vem ocorrendo em outros pa\u00edses. Pautada por no\u00e7\u00f5es como as de independ\u00eancia e bibliodiversidade, a entidade vem atuando a partir do interesse de algumas pequenas e m\u00e9dias editoras, nem sempre levadas em considera\u00e7\u00e3o pelas principais entidades livreiras do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A busca por inimigos, apesar de fazer surgir discuss\u00f5es prof\u00edcuas, n\u00e3o parece apresentar solu\u00e7\u00f5es duradouras. Sejam os conglomerados editoriais, as grandes cadeias varejistas especializadas em livros ou a Amazon, a sele\u00e7\u00e3o de um inimigo parece apontar a luz para um foco problem\u00e1tico, mas deixa os outros pontos importantes do mercado editorial \u00e0 sombra, ocultando aquilo que deveria vir a p\u00fablico. \u00c9 uma estrat\u00e9gia at\u00e9 convincente a curto prazo, expurga-se um bode expiat\u00f3rio para que se possa recuperar o sentido comunal de solidariedade. Melhor seria se aqueles realmente dispostos a discutir o livro no Brasil fizessem valer sua capacidade comunicativa para estimular um debate p\u00fablico consistente, sem apelo a atitudes voluntaristas. Tratando o livro n\u00e3o como um objeto transcendente, mas como a mercadoria fundamental que \u00e9. O que o livro precisa \u00e9 de ser discutido politicamente, incluindo necessariamente mudan\u00e7as estruturais. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel chegar a solu\u00e7\u00f5es efetivas e duradouras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>AZEVEDO, Fabiano Cataldo (2018). <em>Editar livros, sonho de livreiros<\/em>: os Zahar e o livro no Brasil (1940-1970). Tese (Doutorado em Hist\u00f3ria) &#8211; Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>BOURDIEU, Pierre. (1996), \u201cA Economia dos Bens Simb\u00f3licos\u201d. In: <em>Raz\u00f5es Pr\u00e1ticas<\/em>: sobre a teoria da a\u00e7\u00e3o. Trad.: Mariza Corr\u00eaa. Campinas, SP: Papirus.<\/p>\n<p>CARRI\u00d3N, Jorge. (2000), <em>Contra Amazon<\/em>. S\u00e3o Paulo: Elefante.<\/p>\n<p>EPSTEIN, Jason. (2002), <em>O Neg\u00f3cio do Livro<\/em>: passado, presente e futuro do mercado editorial. Rio de Janeiro: Record.<\/p>\n<p>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. (2008), <em>O supl\u00edcio do Papai Noel<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify.<\/p>\n<p>MOLLIER, Jean-Yves. (2011), \u201cA Evolu\u00e7\u00e3o do Sistema Editorial Franc\u00eas Desde a Enciclop\u00e9dia de Diderot\u201d. Livro \u2013 <em>Revista do N\u00facleo de Estudos do Livro e da Edi\u00e7\u00e3o<\/em>. V. 1. S\u00e3o Paulo: Ateli\u00ea Editorial, pp. 61-74.<\/p>\n<p>SCHIFFRIN, Andr\u00e9.\u00a0 (2006), <em>O neg\u00f3cio dos livros<\/em>: como as grandes corpora\u00e7\u00f5es decidem o que voc\u00ea l\u00ea. Rio de Janeiro: Casa da Palavra.<\/p>\n<p>THOMPSON, John B. (2005),<em> Books in the Digital Age<\/em>: the transforming of academic and higher education publishing in Britain and the United States. Cambridge: Polity, 2005.<\/p>\n<p>ZAID, Gabriel. (2004), <em>Livros Demais<\/em>: sobre ler, escrever e publicar. S\u00e3o Paulo: Summus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>NOBREGA, Leonardo. A pol\u00edtica do livro no Brasil.\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2020 [published 8 October 2020]. Available from:\u00a0<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/politica-livro-brasil\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/politica-livro-brasil\/<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en Portugu\u00e9s De Brasil. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. 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