{"id":1704,"date":"2020-06-04T15:48:51","date_gmt":"2020-06-04T15:48:51","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1704"},"modified":"2020-06-04T15:52:31","modified_gmt":"2020-06-04T15:52:31","slug":"coleta-da-raca-cor-no-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/coleta-da-raca-cor-no-sus\/","title":{"rendered":"\u201cEu n\u00e3o vou parar por causa de uma ra\u00e7a\u201d: a coleta da ra\u00e7a\/cor no SUS"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-es\">Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1704\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Portugu\u00e9s De Brasil<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>No Brasil, a pandemia do novo coronav\u00edrus exp\u00f5e uma demanda pol\u00edtica hist\u00f3rica dos movimentos de mulheres negras h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas: a inser\u00e7\u00e3o do quesito ra\u00e7a\/cor nos reposit\u00f3rios de informa\u00e7\u00e3o do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e a qualifica\u00e7\u00e3o da coleta do dado pelos profissionais de sa\u00fade. A press\u00e3o dos movimentos negros[1] pela divulga\u00e7\u00e3o do dado racial das infec\u00e7\u00f5es e mortes pela Covid-19 chamou aten\u00e7\u00e3o \u00e0 relev\u00e2ncia da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio ressaltar os processos pol\u00edticos e hist\u00f3ricos que propiciaram a atual exist\u00eancia de fichas em papel e sistemas informatizados com categorias raciais no SUS. Isso foi resultado de anos de institucionaliza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de equidade racial pressionadas pelo ativismo do feminismo negro, ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o (CALDWELL, 2017). A luta se materializou em leis. Em 1996, ocorreu a legaliza\u00e7\u00e3o da coleta da ra\u00e7a\/cor para alimentar o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Nascidos Vivos (SINASC) e o Sistema de Informa\u00e7\u00e3o sobre Mortalidade (SIM), sistemas com melhores completudes da informa\u00e7\u00e3o (BRAZ et al, 2013). Para isso, o quesito foi inserido nas Declara\u00e7\u00f5es de Nascidos Vivos (DNV) e Declara\u00e7\u00f5es de \u00d3bito (DO) &#8211; Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 196, de 10\/10\/1996, do Conselho Nacional de Sa\u00fade (CNS).<\/p>\n<p>Em 2005, houve a inser\u00e7\u00e3o da vari\u00e1vel ra\u00e7a\/cor nos sistemas de informa\u00e7\u00e3o do Programa Nacional de DST\/AIDS. Recentemente, em 2017, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (MS) atualizou as disposi\u00e7\u00f5es sobre o preenchimento do quesito, em todos os sistemas de informa\u00e7\u00f5es do SUS, conforme a Portaria N\u00ba 344, de 01\/02\/2017. Ou seja, desde os anos 90, a coleta da ra\u00e7a\/cor \u00e9 normatizada no campo da sa\u00fade p\u00fablica. N\u00e3o \u00e9 novidade para as administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a obrigatoriedade de produ\u00e7\u00e3o estat\u00edstica com a clivagem racial.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o dos dados raciais durante a pandemia visibilizou desigualdades. H\u00e1 maior letalidade do v\u00edrus entre negros, em todas as faixas et\u00e1rias, n\u00edveis de escolaridade e munic\u00edpios com m\u00e9dio e alto \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (NOIS, 2020). Processos anteriores \u00e0 Covid-19 tamb\u00e9m ficaram mais conhecidos, como a subnotifica\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a pelo SUS, as formas de gerir a sa\u00fade de negros (incluso omiss\u00f5es) e os atores pol\u00edticos \u00e0 frente da constru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas afirmativas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O novo coronav\u00edrus conseguiu descortinar uma a\u00e7\u00e3o afirmativa na sa\u00fade p\u00fablica: a Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integral da Popula\u00e7\u00e3o Negra (PNSIPN) &#8211; Portaria N. 992, de 13\/05\/2009, do MS. Esta \u00e9 uma pol\u00edtica de focaliza\u00e7\u00e3o na \u00e1rea, cujo principal objetivo \u00e9 diagnosticar as desigualdades raciais em sa\u00fade. Seu eixo central \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento sobre as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es negras, por meio do quesito de autodeclara\u00e7\u00e3o racial dos usu\u00e1rios do SUS.<\/p>\n<p>Para diagnosticar as desigualdades, as feministas negras constru\u00edram uma tecnologia de governo dentro do Estado, o quesito ra\u00e7a\/cor em fichas e computadores do SUS (SOUZAS, 2010). S\u00e3o esses papeis e telas que permitem \u00e0s burocracias realizarem diagn\u00f3sticos epidemiol\u00f3gicos sobre a situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade entre brancos e n\u00e3o-brancos (pretos, pardos, amarelos e ind\u00edgenas). Com a pandemia, passamos a monitorar as estat\u00edsticas produzidas por fichas estatais em voga: ficha Covid-19, notifica\u00e7\u00e3o de S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (SRAG) e Declara\u00e7\u00e3o de \u00d3bito (DO).<\/p>\n<p>Logo, desafios da coleta de informa\u00e7\u00f5es, pr\u00e9-existentes ou novos, foram expostos. A ficha Covid-19 n\u00e3o possui o dado de ra\u00e7a\/cor. A notifica\u00e7\u00e3o de SRAG n\u00e3o inclui o dado no sistema computacional, apesar de estar na ficha de papel. A depender do estado de sa\u00fade de infectados com o novo coronav\u00edrus, profissionais investem mais tempo em registrar o quadro cl\u00ednico, dedicando menor aten\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es demogr\u00e1ficas. O preenchimento da DO \u00e9 feito por m\u00e9dicos, na impossibilidade da autodeclara\u00e7\u00e3o da v\u00edtima ou da fam\u00edlia (SANTOS, COELHO e ARAUJO, 2013).<\/p>\n<p>Diante da fragilidade dos sistemas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 baixa informa\u00e7\u00e3o sobre a ra\u00e7a\/cor, \u00e9 importante entendermos a produ\u00e7\u00e3o do dado por dentro do Estado. Sabe-se que o Estado exerce a governamentalidade de popula\u00e7\u00f5es por meio das estat\u00edsticas (FOUCAULT, 2008), pois dados quantitativos s\u00e3o instrumentos que criam saber oficial, legitimando tipos de interven\u00e7\u00e3o governamental. No entanto, as estat\u00edsticas promovem interven\u00e7\u00e3o a depender da forma como s\u00e3o coletadas, geridas e como circulam nas burocracias (GUPTA, 2012).<\/p>\n<p>Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, o Estado utiliza as cinco categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) &#8211; branca, preta, amarela, parda e ind\u00edgena &#8211; para a produ\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o de desigualdades. O tema das classifica\u00e7\u00f5es raciais institucionais \u00e9 uma agenda de pesquisa no campo das rela\u00e7\u00f5es raciais (MUNIZ, 2012; BAILEY, FIALHO e LOVEMAN, 2018). Esta analisa como o Estado cria classifica\u00e7\u00f5es, bem como a influ\u00eancia das categorias nas identidades raciais e na mensura\u00e7\u00e3o da desigualdade.<\/p>\n<p>Como lacuna, Roth (2016) enfatiza a necessidade de mais estudos sobre a experi\u00eancia de profissionais do Estado em colocarem usu\u00e1rios dentro das classifica\u00e7\u00f5es raciais institucionais. Neste texto, analiso como din\u00e2micas pr\u00e9vias de coleta do quesito ra\u00e7a\/cor de usu\u00e1rios do SUS podem impactar na gest\u00e3o da pandemia \u00e0s popula\u00e7\u00f5es negras. Tomo como caso as \u201cburocracias do guich\u00ea\u201d (DUBOIS, 2010), conhecidas como Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS), no munic\u00edpio do Rio de Janeiro, a partir de recentes dados da minha pesquisa etnogr\u00e1fica sobre a implementa\u00e7\u00e3o local da PNSIPN (MILANEZI, 2019).<\/p>\n<p>Esclare\u00e7o que analiso a realidade de indiv\u00edduos da Estrat\u00e9gia Sa\u00fade da Fam\u00edlia (ESF), majoritariamente de mulheres, negras e pobres. Nesse sentido, tratam-se de grupos que j\u00e1 acessam os cuidados prim\u00e1rios em sa\u00fade (preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o) ao se transformarem na categoria estatal de <em>cadastrados. <\/em>Por isso, eles possuem registros diversos dentro do SUS, vivem os cuidados em seus territ\u00f3rios de moradia e naquelas burocracias. Eles adentram ao SUS por fluxos definidos: de doen\u00e7as (hipertensos, diab\u00e9ticos etc.), ciclos de vida (crian\u00e7a, idosos etc.) ou linhas de cuidados (sa\u00fade da mulher). Em s\u00edntese, reflito sobre din\u00e2micas de coleta entre popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis que j\u00e1 acessam o SUS.<\/p>\n<p>Outro destaque \u00e9 a multidisciplinaridade dos profissionais da ESF. No cotidiano das UBS, os cadastrados interagem com Agentes Comunit\u00e1rios de Sa\u00fade (ACS), t\u00e9cnicos administrativos e de enfermagem, enfermeiros, psic\u00f3logos, assistentes sociais, m\u00e9dicos de fam\u00edlia, dentre outros. Todos esses profissionais podem coletar a ra\u00e7a\/cor. Desde 2017, a gest\u00e3o do prefeito Marcelo Crivella escolheu desinvestir no quadro da ESF. Naquele ano, um <em>jingle <\/em>pol\u00edtico cantado em protestos de profissionais contra o desmonte era: \u201cei, Crivella, n\u00e3o tira a sa\u00fade de dentro da favela\u201d. De l\u00e1 para c\u00e1, Unidades foram fechadas, psic\u00f3logos e assistentes sociais se tornaram profissionais opcionais, enfermeiros e m\u00e9dicos tiveram sal\u00e1rios reduzidos e agentes de sa\u00fade continuaram em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho.<\/p>\n<p>\u201cVale apostar na Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria \u00e0 Sa\u00fade contra a Covid-19?\u201d, analisam Schattan et al. (2020) para o caso paulista. Como argumentam as autoras, a ESF \u00e9 pol\u00edtica central. Ela teria todos os elementos para gerir a pandemia de forma preventiva e adequada \u00e0s \u00e1reas de alta vulnerabilidade social: testagem em massa territorialmente, monitoramento local das infec\u00e7\u00f5es pelos agentes, cuidados de casos leves e articulados com os tratamentos j\u00e1 em curso de doen\u00e7as cr\u00f4nicas, aux\u00edlio psicol\u00f3gico e social \u00e0s fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Como no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, a ESF carioca precisa de investimento em sua capacidade de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia. No acompanhamento que realizo \u00e0 dist\u00e2ncia dos profissionais cariocas, esses interlocutores j\u00e1 enunciam cen\u00e1rios pessimistas: \u201cvai devastar\u201d ou \u201ctodos [no territ\u00f3rio] conhecem algu\u00e9m pr\u00f3ximo que j\u00e1 morreu\u201d. Na medida em que a Covid-19 se espalha pelas regi\u00f5es perif\u00e9ricas, a doen\u00e7a encontra uma ESF retra\u00edda em servi\u00e7os, profissionais, or\u00e7amento e pouco articulada com outras \u00e1reas p\u00fablicas para gerir determinantes sociais da sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Modos de coletar a ra\u00e7a\/cor que a pandemia encontra<\/strong><\/p>\n<p>Dentro das UBS, as oportunidades de classifica\u00e7\u00e3o racial dos cadastrados eram v\u00e1rias. Repasso algumas situa\u00e7\u00f5es observadas. Em <em>Visitas Domiciliares<\/em>, se fosse o primeiro contato do cadastrado com a ESF, os ACS preenchiam o dado manualmente, na <em>Ficha A<\/em>. Depois, ao chegarem \u00e0 Unidade, eles repassavam a informa\u00e7\u00e3o para o sistema computacional, utilizado para alimentar o prontu\u00e1rio de atendimento cl\u00ednico. Se o usu\u00e1rio fosse, pela primeira vez, \u00e0 Unidade para fazer o Cart\u00e3o SUS, por exemplo, o preenchimento do quesito j\u00e1 ocorria nesse momento, pelo ACS ou T\u00e9cnico Administrativo. Ao entrar para a consulta com o M\u00e9dico de Fam\u00edlia, ele registrava a ra\u00e7a\/cor no prontu\u00e1rio. Ao ser encaminhado para atividades f\u00edsicas de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, pelo Educador F\u00edsico, o usu\u00e1rio preenchia fichas em papel com o box racial.<\/p>\n<p>Nesse cotidiano, identifiquei quatro modos como os profissionais preenchiam o quesito ra\u00e7a\/cor, em papeis e nos sistemas informatizados: heteroclassifica\u00e7\u00e3o, recusa em preencher, negocia\u00e7\u00e3o com o cadastrado para a escolha do box racial, pergunta ao mesmo via autodeclara\u00e7\u00e3o. Apesar de m\u00faltiplas formas, o comum era uma estrat\u00e9gia silenciosa de coletar o dado, n\u00e3o interagir com o usu\u00e1rio para perguntar, sendo as duas primeiras formas ilustrativas. A heteroclassifica\u00e7\u00e3o se baseava em n\u00e3o perguntar ao usu\u00e1rio e marcar por ele, se fosse obrigat\u00f3rio no sistema. A recusa consistia em deixar o box racial em branco, se n\u00e3o houvesse obrigatoriedade.<\/p>\n<p>No munic\u00edpio do Rio de Janeiro, a Lei n\u00ba 4.930, de 22\/10\/2008, tornou obrigat\u00f3rio o preenchimento da vari\u00e1vel ra\u00e7a\/cor nos formul\u00e1rios de atendimento de todos os servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade. Para incentivar o preenchimento nas UBS, entre 2012 e 2015, a Prefeitura criou o Certificado de Reconhecimento do Cuidado com Qualidade (CRCQ) para estimular as Unidades a alcan\u00e7arem a meta de 80% de preenchimento do quesito ra\u00e7a\/cor. Essa certifica\u00e7\u00e3o revelava que, apesar da obrigatoriedade legal do preenchimento, era necess\u00e1rio investimento sistem\u00e1tico da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica para que a coleta fosse qualificada.<\/p>\n<p>Nas Unidades cariocas, essa obrigatoriedade era indicada, por exemplo, pelo asterisco vermelho, na tela do computador, impedindo que a <em>Ficha A <\/em>continuasse a ser preenchida, se um box racial n\u00e3o fosse escolhido. \u201cEu n\u00e3o vou parar por causa de uma ra\u00e7a\u201d, me revelou um profissional, quando eu o acompanhava, alimentando um sistema \u00a0espec\u00edfico de vacinas com obrigatoriedade da informa\u00e7\u00e3o racial. Ele preenchia este sistema com base numa pilha de fichas em papel, preenchidas pelos profissionais manualmente, durante uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o. Em casos de fichas com a ra\u00e7a\/cor em branco, sua estrat\u00e9gia era verificar o dado em outros sistemas de informa\u00e7\u00e3o da Unidade. Se ele n\u00e3o o conseguisse, perguntava ao ACS que monitorava a \u00e1rea do cadastrado. Se o ACS n\u00e3o soubesse, ele escolhia pardo.<\/p>\n<p>Muitos profissionais faziam quest\u00e3o de rejeitar o dado: nem utilizar, nem perguntar, nem preencher, se o sistema permitisse. Por exemplo, numa reuni\u00e3o entre profissionais que repassavam entre si a forma de preencher certas informa\u00e7\u00f5es, num determinado sistema em fun\u00e7\u00e3o de novas orienta\u00e7\u00f5es da Prefeitura, uma profissional apontou para a necessidade de maior preenchimento do quesito ra\u00e7a\/cor. Ningu\u00e9m deu bola. Outra profissional desencorajou, pois a ra\u00e7a n\u00e3o era obrigat\u00f3ria naquele reposit\u00f3rio \u00a0e existiam outras informa\u00e7\u00f5es que a Prefeitura cobraria como meta.<\/p>\n<p>Independente das formas de preenchimento do quesito ra\u00e7a\/cor, o regular era o inc\u00f4modo: \u201ceu achei um absurdo [perguntar]\u201d, \u201ceu fico sem gra\u00e7a de perguntar\u201d, \u201ceu n\u00e3o sei o quanto \u00e9 ruim falar com uma pessoa [que ela \u00e9 preta]\u201d. O inc\u00f4modo era tanto que apenas encontrei um quadro de campanha municipal, incentivando os profissionais a perguntarem e os usu\u00e1rios se autodeclararem, dentro de uma sala de Raio-X; ningu\u00e9m via.<\/p>\n<p>Outro modo de preenchimento era a negocia\u00e7\u00e3o da escolha das categorias raciais. Nas negocia\u00e7\u00f5es, o inc\u00f4modo dos profissionais era com a classifica\u00e7\u00e3o escolhida pelo cadastrado, n\u00e3o em perguntar. A acusa\u00e7\u00e3o de inconsist\u00eancia classificat\u00f3ria revelava o conhecimento dos profissionais sobre quem \u00e9 socialmente negro e branco no Brasil. \u201cMenina, t\u00fa \u00e9 branca da cabe\u00e7a aos p\u00e9s\u201d, uma profissional interpelou uma cadastrada<em>, <\/em>enquanto esta usu\u00e1ria balbuciava, sem saber o que responder. Em outros casos, profissionais incentivavam os usu\u00e1rios a se pensarem como pretos, mas eles preferiam a categoria parda.<\/p>\n<p>O inc\u00f4modo em preencher o quesito ra\u00e7a\/cor era gerado pelos profissionais considerarem a coleta uma pr\u00e1tica racista do Estado. Este \u00e9 um dado condizente com pesquisas sobre o quesito em outros contextos municipais, a exemplo de Porto Alegre (GRANDI, DIAS e GLIMM, 2013). Minha pesquisa contribui em evidenciar que essa forma de entendimento estava atrelada a um repert\u00f3rio de a\u00e7\u00e3o (SWIDLER, 1986) de resist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica focalizada.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia tinha a rejei\u00e7\u00e3o como forma t\u00edpica de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 PNSIPN. Para explicar desigualdades, esse repert\u00f3rio continha justificativas mais essencialistas sobre as diferen\u00e7as em sa\u00fade, ao associar o agravo a algo inato ao cadastrado. Por fim, a gest\u00e3o das iniquidades raciais ocorria pelo desuso de protocolos locais, a exemplo do quesito. Os profissionais que mais mobilizaram o repert\u00f3rio de resist\u00eancia reconheciam desigualdades entre a sa\u00fade de brancos e negros, mas, gerir a sa\u00fade de negros a partir da focaliza\u00e7\u00e3o era uma a\u00e7\u00e3o tida como racista ao qual eles n\u00e3o aderiam. No per\u00edodo brasileiro recente de institucionaliza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas para diminuir desigualdades raciais, o ato de classificar foi tomado mais como uma pr\u00e1tica discriminat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Apesar da exist\u00eancia do quesito ra\u00e7a\/cor em fichas e computadores, \u201co sistema n\u00e3o puxa naturalmente [a ra\u00e7a]\u201d, me explicava uma profissional, quando eu tentava levantar dados sobre ra\u00e7a em uma das Unidades, a que tinha alto n\u00edvel de preenchimento do quesito. L\u00e1, os profissionais n\u00e3o possu\u00edam conhecimento sobre desigualdades raciais entre seus cadastrados, a partir dos dados que eles mesmos inseriam nos sistemas. Em seus computadores, as desigualdades eram invis\u00edveis. As diversas estat\u00edsticas que eles alimentavam seguiam para os gabinetes da Prefeitura e n\u00e3o retornavam para eles em forma de boletins, cursos ou relat\u00f3rios. Al\u00e9m de sistemas desarticulados, eram os gabinetes do Estado que possu\u00edam o monop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poderia a Covid-19 provocar a coleta para diminuir desigualdades pelas administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e ser menos percebida como pr\u00e1tica discriminat\u00f3ria? Ainda distante das Unidades, eu n\u00e3o consigo evidenciar mudan\u00e7as. Mas, a pandemia gera constrangimentos \u00e0s din\u00e2micas estatais at\u00e9 aqui existentes. O repert\u00f3rio de resist\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas focalizadas dentro do Estado \u00e9 confrontado com a realidade mortal das desigualdades, com a press\u00e3o dos movimentos sociais, com a consequente gest\u00e3o de vidas negras por pr\u00e1ticas banais e rotineiras do Estado, como o n\u00e3o preenchimento da ra\u00e7a em fichas.<\/p>\n<p>Se a doen\u00e7a n\u00e3o modificar a resist\u00eancia dos quadros p\u00fablicos em gerir a sa\u00fade de negros a partir das suas condi\u00e7\u00f5es sociais de vida, ao menos, o sil\u00eancio institucional do SUS sobre focaliza\u00e7\u00e3o foi trincado. As desigualdades raciais em sa\u00fade foram expostas pelo contexto e as gest\u00f5es p\u00fablicas optarem por \u201cn\u00e3o parar por causa de uma ra\u00e7a\u201d ser\u00e1 uma escolha pol\u00edtica de reprodu\u00e7\u00e3o de racismo institucional (FEAGIN, 2006). Longe de perspectivas otimistas, \u00a0haver\u00e1 um p\u00f3s-pandemia desigual aos seus sobreviventes. Para governar a sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es negras para produzir vida com dignidade, o quesito ra\u00e7a\/cor \u00e9 uma tecnologia indispens\u00e1vel. .<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1] <\/strong>Destaco a atua\u00e7\u00e3o da Coaliz\u00e3o Negra por Direitos, Grupo de Trabalho Racismo e Sa\u00fade da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (ABRASCO), do Grupo de Trabalho de Sa\u00fade da Popula\u00e7\u00e3o Negra\u00a0 da Sociedade Brasileira de Medicina de Fam\u00edlia e Comunidade (SBMFC), Instituto Luiz Gama.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BAILEY, Stanley R.; FIALHO, Fabr\u00edcio M.; LOVEMAN, Mara. (2018), \u201cHow States Make Race: New Evidence from Brazil\u201d. Sociological Science, vol.5, nov., pp. 722-751.<\/p>\n<p>BRAZ, Rui Moreira et al. (2013). \u201cAvalia\u00e7\u00e3o da completude da vari\u00e1vel ra\u00e7a\/cor nos sistemas acionais de informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade para aferi\u00e7\u00e3o de equidade \u00e9tnico-racial em indicadores usados pelo \u00cdndice de Desempenho do Sistema \u00danico de Sa\u00fade\u201d. Sa\u00fade em Debate, vol. 37, n. 99, p. 554-562.<\/p>\n<p>CALDWELL, Kimberle. L. (2017), \u201cHealth equity in Brazil: intersections of gender, race and policy\u201d. Champaign: University of Illinois Press.<\/p>\n<p>DUBOIS, Vicent. (2010), \u201cThe bureaucrat and the poor: encounters in French welfare offices\u201d. Londres: Routledge.<\/p>\n<p>FEAGIN, Joe. (2006), \u201cSystemic racism: a theory of oppression\u201d. Nova York: Routledge.<\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel. (2008), \u201cSeguran\u00e7a, territ\u00f3rio, popula\u00e7\u00e3o: curso dado no Coll\u00e8ge de France (1977-1978)\u201d. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/p>\n<p>GRANDI, Jaqueline; DIAS, Miriam Thais Guterres; GLIMM, Simone. (2013), \u201cPercep\u00e7\u00f5es daqueles que perguntam: qual a sua cor?\u201d. Sa\u00fade debate, vol. 37, n. 99, p. 588-596.<\/p>\n<p>GUPTA, Akhil. (2012), \u201cRed Tape: Bureaucracy, structural violence and poverty in India\u201d. Durham and London: Duke University Press.<\/p>\n<p>MILANEZI, Jaciane. (2019), Sil\u00eancios e confrontos: a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra em burocracias do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Tese (Doutorado em Sociologia), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>MUNIZ, Jer\u00f4nimo O. (2012), \u201cPreto no branco?: mensura\u00e7\u00e3o, relev\u00e2ncia e concord\u00e2ncia classificat\u00f3ria no pa\u00eds da incerteza racial\u201d. Dados, vol. 55, n. 1, pp. 251-282.<\/p>\n<p>NOIS &#8211; N\u00facleo de Opera\u00e7\u00f5es e Intelig\u00eancia em Sa\u00fade. (2020), \u201cNota T\u00e9cnica 11 &#8211; An\u00e1lise socioecon\u00f4mica da taxa de letalidade da COVID-19 no Brasil\u201d. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/sites.google.com\/prod\/view\/nois-pucrio\/publica%C3%A7%C3%B5es\">https:\/\/sites.google.com\/prod\/view\/nois-pucrio\/publica%C3%A7%C3%B5es<\/a><\/p>\n<p>ROTH, Wendy D. (2016), \u201cThe multiple dimensions of race\u201d. Ethnic and Racial Studies, vol. 39,\u00a0pp. 1310\u20131338.<\/p>\n<p>SANTOS, Andreia Beatriz Silva dos; COELHO, Thereza Christina Bahia; ARAUJO, Edna Maria de. (2013), \u201cIdentifica\u00e7\u00e3o racial e a produ\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade\u201d.<strong>\u00a0<\/strong>Interface (Botucatu),\u00a0vol. 17,\u00a0n. 45,\u00a0pp. 341-356.<\/p>\n<p>SCHATTAN et al. Vale apostar na Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria \u00e0 Sa\u00fade contra a Covid-19?, <em>Blog Novos Estudos Cebrap, <\/em>2020. Available from:\u00a0<a href=\"http:\/\/novosestudos.uol.com.br\/vale-apostar-na-atencao-primaria-a-saude-contra-a-covid-19\/\">http:\/\/novosestudos.uol.com.br\/vale-apostar-na-atencao-primaria-a-saude-contra-a-covid-19\/<\/a><\/p>\n<p>SOUZAS, Raquel. (2010), \u201cMovimento de mulheres negras e a sa\u00fade: an\u00e1lise documental sobre a reinvidica\u00e7\u00e3o de inclus\u00e3o do \u00abquesito cor\u00bb no sistema de informa\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade\u201d. Sa\u00fade Coletiva, vol. 7, n. 40, pp. 110-115.<\/p>\n<p>SWIDLER, Ann. (1986), \u201cCulture in action<strong>:<\/strong> symbols and strategies\u201d. American Sociological Review, vol. 51, n. 2, p. 273-286.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>MILANEZI, Jaciane. \u201cEu n\u00e3o vou parar por causa de uma ra\u00e7a\u201d: a coleta da ra\u00e7a\/cor no SUS.\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2020 [published 4 June 2020]. Available from:\u00a0<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/coleta-da-raca-cor-no-sus\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/coleta-da-raca-cor-no-sus\/<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en Portugu\u00e9s De Brasil. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.No Brasil, a pandemia do novo coronav\u00edrus exp\u00f5e uma demanda pol\u00edtica hist\u00f3rica dos movimentos de mulheres negras h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":1705,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[11],"tags":[24,12,14,15,13,23,25],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1704"}],"collection":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1704"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1709,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1704\/revisions\/1709"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}