{"id":1652,"date":"2020-05-22T15:03:47","date_gmt":"2020-05-22T15:03:47","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1652"},"modified":"2021-06-06T00:30:02","modified_gmt":"2021-06-06T00:30:02","slug":"pandemia-cientifica-feminista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/pandemia-cientifica-feminista\/","title":{"rendered":"Um tempo s\u00f3 para si: g\u00eanero, pandemia e uma pol\u00edtica cient\u00edfica feminista"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-es\">Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1652\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Portugu\u00e9s De Brasil<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>Ao longo das \u00faltimas semanas, diferentes equipes editoriais de publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas t\u00eam noticiado <a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres\/\">a queda <\/a><a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres\/\">acentuada <\/a><a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres\/\">na quantidade de submiss\u00f5es de<\/a> <a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres\/\">artigos assinados por mulheres<\/a> (seja em autoria individual, ou coletiva) ap\u00f3s a implementa\u00e7\u00e3o de medidas de isolamento social em diversas partes do mundo*. O extraordin\u00e1rio da pandemia do novo coronav\u00edrus nos coloca diante do ordin\u00e1rio das assimetrias das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero tanto na rotina de trabalho nas universidades, quanto na din\u00e2mica da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico. Se cotidianamente, mulheres na ci\u00eancia lidam com ambientes mais ou menos hostis no que se refere ao ass\u00e9dio moral ou sexual, al\u00e9m de enfrentarem <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0011-52582015000300749&amp;script=sci_arttext\">uma sobrecarga de trabalho administrativo em posi\u00e7\u00f5es menos prestigiosas da burocracia universit\u00e1ria, por exemplo<\/a>, as a\u00e7\u00f5es para o enfrentamento da dissemina\u00e7\u00e3o da Covid-19 incidiram exatamente na ambiguidade da posi\u00e7\u00e3o social de mulheres: entre a casa e a universidade; entre o trabalho de cuidado e o trabalho intelectual.<\/p>\n<p>Quando a pr\u00f3pria casa ganha ainda mais centralidade no trabalho acad\u00eamico de mulheres, discuss\u00f5es sobre desigualdades de g\u00eanero frequentemente passam a evocar imagens de situa\u00e7\u00f5es nas quais as atividades da vida dom\u00e9stica se confundem com as demandas e exig\u00eancias do trabalho como docentes e pesquisadoras. Crian\u00e7as, companheiros ou outros membros da fam\u00edlia produzem constantes interrup\u00e7\u00f5es nas rotinas profissionais de mulheres, tornando tarefa imposs\u00edvel a concentra\u00e7\u00e3o duradoura que \u00e9 exigida para a leitura e an\u00e1lise de textos, prepara\u00e7\u00e3o de aulas, levantamento e tratamento de dados, reda\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o de artigos cient\u00edficos, entre tantas outras tarefas.<\/p>\n<p>Se antes, em alguns momentos do dia, a casa poderia ser o ref\u00fagio das acad\u00eamicas para que trabalhassem tranquilas &#8211; algo que o cotidiano dentro do espa\u00e7o f\u00edsico da universidade muitas vezes n\u00e3o possibilita -, ela agora aparece como um espa\u00e7o perturbador ao desenvolvimento e progress\u00e3o da carreira.<\/p>\n<p>A sobrecarga de trabalho para as mulheres que s\u00e3o m\u00e3es \u00e9 evidente e deve ser reconhecida pela comunidade cient\u00edfica &#8211; incluindo as ag\u00eancias de fomento -, o que, no entanto, n\u00e3o diminui a import\u00e2ncia de observar que as associa\u00e7\u00f5es diretas entre g\u00eanero e maternidade acabam por refor\u00e7ar uma leitura naturalista sobre as desigualdades de g\u00eanero na ci\u00eancia. Em <a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/368\/6492\/724.1\">carta dirigida \u00e0 revista <\/a><a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/368\/6492\/724.1\"><em>Science<\/em><\/a><em>, <\/em>colegas correta e corajosamente apontaram para a penaliza\u00e7\u00e3o adicional que as m\u00e3es cientistas est\u00e3o vivenciando neste momento. No entanto, gostar\u00edamos de pontuar que argumentos que fazem equivaler cientistas homens a pares mulheres sem filhos acabam por invisibilizar algumas das inova\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e normativas mais potentes do campo de estudos feministas e de g\u00eanero: as distribui\u00e7\u00f5es desiguais de poder entre homens e mulheres presentes em nossa sociedade n\u00e3o derivam da natureza biol\u00f3gica do homem ou da mulher, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o socialmente constru\u00eddas, o que nos permite pensar na subvers\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o dessas rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>Associar a desigualdade de g\u00eanero unicamente \u00e0 maternidade, tem como efeito social, pol\u00edtico e pr\u00e1tico, a redu\u00e7\u00e3o da multiplicidade de rela\u00e7\u00f5es de poder que constituem a vida social das mulheres, limitando o alcance de reivindica\u00e7\u00e3o pela igualdade de g\u00eanero a somente uma dessas facetas. Em tempos de isolamento social, observamos que ajustes s\u00e3o negociados com as pessoas que se convive em casa: dias e hor\u00e1rios s\u00e3o fixados para cada tarefa dom\u00e9stica, atividades em fam\u00edlia, aten\u00e7\u00e3o \u00e0 aprendizagem de filhos em idade escolar ou tempos de sil\u00eancio absoluto[1]. A organiza\u00e7\u00e3o racional dos usos dos espa\u00e7os e tempos da casa se tornou um imperativo para uma quarentena bem-sucedida, adicionando mais um trabalho \u00e0s mulheres, que ao negociarem\u00a0 constantemente regras de administra\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o dom\u00e9stico, se percebem exaustas.<\/p>\n<p>A sociologia das feministas materialistas francesas ajuda a compreender o que se passa: separa\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o das tarefas entre homens e mulheres, concentra\u00e7\u00e3o das responsabilidades dom\u00e9sticas e do cuidado sobre elas, ac\u00famulo dessas atividades com as do trabalho remunerado, o que Daniele Kergoat e Helena Hirata (2007) definem como divis\u00e3o sexual do trabalho. Para al\u00e9m disso, \u00e9 produtivo pensarmos no debate sobre os tempos sociais. Nos anos 1970, o movimento feminista franc\u00eas denunciava a \u00abdupla jornada\u00bb das mulheres trabalhadoras, que somavam o trabalho produtivo, remunerado, ao reprodutivo, n\u00e3o remunerado. Neste momento, j\u00e1 era comum ouvir a defesa do trabalho em tempo parcial ou em regime de hor\u00e1rios flex\u00edvel como forma de conciliar as duas atividades e garantir a maior participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho[2]. <a href=\"http:\/\/bostonreview.net\/print-issues-gender-sexuality\/silvia-federici-jill-richards-every-woman-working-woman\">Mas seria suficiente assegurar formas de maior participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho para combater as desigualdades de g\u00eanero?<\/a><\/p>\n<p>Em meados dos anos 1980, Monique Haicault cunhou a ideia de \u00abcarga mental\u00bb para descrever o constante cansa\u00e7o sentido pelas mulheres que se inseriam no mundo do trabalho. Haicault teve larga experi\u00eancia de pesquisa com mulheres que trabalhavam a domic\u00edlio na ind\u00fastria t\u00eaxtil, sobrepondo espa\u00e7os e tempos de trabalho. Mas, foi quando ela deslocou seu estudo para outro contexto, o de mulheres trabalhando em f\u00e1bricas, fora de casa, que ela p\u00f4de perceber como a distin\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os sociais era simplesmente de ordem simb\u00f3lica. Quando est\u00e3o nas f\u00e1bricas, as mulheres planejam a vida dom\u00e9stica, pensam sobre as compras da semana e do m\u00eas, as contas a pagar e as tarefas que t\u00eam para cumprir. A casa as acompanha na f\u00e1brica. A carga mental n\u00e3o est\u00e1, portanto, na justaposi\u00e7\u00e3o ou somat\u00f3ria de atividades, mas na sua sincronicidade, na sua simultaneidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>\u00abA carga mental \u00e9 feita, portanto, de ajustes perp\u00e9tuos, da viscosidade do tempo\u00a0 que raramente \u00e9 ritmado e muito mais frequentemente iman\u00eancia, onde se perde o corpo e a cabe\u00e7a para calcular o incalcul\u00e1vel, para recuperar o atraso do tempo com o tempo, para tentar gerenciar com o tempo, o tempo perdido. A carga mental est\u00e1 cheia desses pequenos censores que dizem de maneira simples e t\u00e3o frequente: &#8216;N\u00e3o tenho tempo&#8217; (Haicault, 1984, p. 275, tradu\u00e7\u00e3o livre)\u00bb<\/em><\/p>\n<p>D\u00e9cadas antes, em palestra intitulada \u00abProfiss\u00f5es para mulheres\u00bb realizada em 1931 na <em>London and<\/em> <em>National Society for Women&#8217;s Service<\/em>, Virginia Woolf observava que independentemente de suas respectivas profiss\u00f5es, mulheres precisariam matar o \u201canjo da casa\u201d, uma esp\u00e9cie de faceta da socializa\u00e7\u00e3o feminina \u201c[&#8230;] imensamente compreensiva. [&#8230;] imensamente encantadora. [&#8230;] absolutamente altru\u00edsta. [&#8230;]\u201d (Woolf, [1931] 2019, p.47). Ela reivindicava que as mulheres precisavam de um espa\u00e7o exclusivo para seu pr\u00f3prio trabalho. Adicionaremos que ter um espa\u00e7o s\u00f3 para si \u00e9 o que as permite ter um tempo s\u00f3 para si e, portanto, desenvolver suas habilidades, imaginar e criar &#8211; caracter\u00edsticas chaves da inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o de trabalhos que exigem alta concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o combina com uma rotina de interrup\u00e7\u00f5es. Pesquisas em andamento [3] apontam para as percep\u00e7\u00f5es distintas de produtividade de homens e mulheres que atuam em <em>home office<\/em>: elas avaliam que rendem menos, por serem interrompidas o tempo todo por outras pessoas e responsabilidades; eles avaliam que rendem mais, pois trabalham concentrados e sem interrup\u00e7\u00e3o de outras pessoas e tarefas dom\u00e9sticas. A casa n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7o apenas de rela\u00e7\u00f5es privadas, \u00e9 tamb\u00e9m produtora e reprodutora de normas, regras e valores sociais, bem como hierarquias, disputas e conflitos de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Lendo conjuntamente as contribui\u00e7\u00f5es intelectuais das feministas francesa e inglesa, podemos argumentar que a faceta \u00e0 qual se refere Virg\u00ednia Woolf marca um conjunto de expectativas profissionais sobre as mulheres. No caso das universidades, atravessam tamb\u00e9m as expectativas institucionais sobre as habilidades e compet\u00eancias associadas ao g\u00eanero feminino: a professora emp\u00e1tica; a colega de departamento dispon\u00edvel para cuidar da harmonia do ambiente de trabalho; a chefe cuja autoridade \u00e9 disputada nos seus m\u00ednimos \u2013 e sutis &#8211; detalhes; a especialista em g\u00eanero que recebe e encaminha as den\u00fancias de viol\u00eancia contra mulheres e assim por diante.<\/p>\n<p>Os tempos de isolamento social tornaram perme\u00e1veis as nuances entre o p\u00fablico e o privado que desde o in\u00edcio de suas trajet\u00f3rias como estudantes universit\u00e1rias mulheres cientistas s\u00e3o obrigadas a aprender a negociar. Uma negocia\u00e7\u00e3o de tempos e espa\u00e7os sempre penosa e carregada por um sem n\u00famero de inseguran\u00e7as e frustra\u00e7\u00f5es as quais, num momento como este, s\u00e3o tamb\u00e9m reveladoras das dificuldades para se falar sobre os motores da produ\u00e7\u00e3o da desigualdade baseada em g\u00eanero na ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Gostar\u00edamos, portanto, de deslocar o debate da unidade familiar, para a maneira como essas regras e normas de g\u00eanero que produzem o cuidado como atividade feminina levam \u00e0 viv\u00eancia da sobrecarga mental de mulheres cientistas, casadas ou solteiras, com ou sem filhos. Ao sermos socialmente produzidas para nos preocuparmos com pai e m\u00e3e, amigos e amigas, sobrinhos e sobrinhas, tamb\u00e9m nos dedicamos a pensar em regras e normas de quarentena acad\u00eamicas que sejam sens\u00edveis \u00e0 heterogeneidade de situa\u00e7\u00f5es de nossos\/as colegas e estudantes. Disputamos as regras universalistas da burocracia pontuando essas diferen\u00e7as. E \u00e0 carga mental do cuidado com a fam\u00edlia e afins adiciona-se a do cuidado com o\/a outro\/a no espa\u00e7o de trabalho.<\/p>\n<p>Carreiras cient\u00edficas s\u00e3o alicer\u00e7adas em no\u00e7\u00f5es de m\u00e9rito e no reconhecimento pelos\u00a0 pares. Compreender a din\u00e2mica da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico tamb\u00e9m como a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a baseada em g\u00eanero, implica na desestabiliza\u00e7\u00e3o de tais no\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o deixa de ser inc\u00f4modo para n\u00f3s mesmas. O universalismo da posi\u00e7\u00e3o social dos homens acaba se desdobrando no universalismo tamb\u00e9m de suas ideias, de modo que falar sobre a desigualdade de g\u00eanero na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento parece nos colocar uma quest\u00e3o inc\u00f4moda: ao reconhecer sua diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos pares homens, estariam as mulheres admitindo sua incapacidade para jogar os jogos dentro das mesmas regras meritocr\u00e1ticas e, por extens\u00e3o, estariam reconhecendo o particularismo ou a marginalidade do conhecimento que produzem?<\/p>\n<p>De modo amplo, sustentamos que mulheres cientistas s\u00e3o cotidianamente &#8211; em tempos de pandemia ou n\u00e3o &#8211; empurradas para universos de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento academicamente confinados, enfrentando desconfian\u00e7as ou condescend\u00eancias quanto ao alcance e potencial de suas ideias e inova\u00e7\u00f5es. No extraordin\u00e1rio dos tempos de\u00a0 isolamento social, as dificuldades ordin\u00e1rias se fazem ainda mais presentes e nos tornam incapazes de seguir a penosa negocia\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e privado sobre a qual organizamos nossas carreiras. Como efeito, mulheres cientistas est\u00e3o ainda mais confinadas em suas possibilidades de encontrar tempo e espa\u00e7o para pesquisar, estudar e analisar um fen\u00f4meno cujos impactos em todas as \u00e1reas do conhecimento s\u00e3o not\u00e1veis.<\/p>\n<p>Tais dificuldades, sugerimos, apenas podem ser superadas na medida em que no\u00e7\u00f5es de m\u00e9rito, produtividade e trabalho institucional sejam rearticuladas em termos de uma pol\u00edtica cient\u00edfica feminista, baseada no reconhecimento das injusti\u00e7as de g\u00eanero, assim como daquelas baseadas em ra\u00e7a e sexualidade sobre as quais, ao fim e ao cabo, a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do conhecimento e a rotina administrativa das universidades ao redor do mundo se assentam. Ou seja, as desigualdades de g\u00eanero na ci\u00eancia n\u00e3o podem ser tratadas como uma excepcionalidade dos tempos extraordin\u00e1rios de enfrentamento \u00e0 pandemia, nem como quest\u00e3o restrita \u00e0 maternidade.<\/p>\n<p>Por mais persistentes, competentes ou disciplinadas que as mulheres cientistas sejam, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar que as desigualdades de g\u00eanero que estruturam a produ\u00e7\u00e3o do trabalho cient\u00edfico possam ser superadas por meio da for\u00e7a de vontade ou do comprometimento pr\u00f3prio. As solu\u00e7\u00f5es para o chamado <em>gender gap <\/em>na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o podem ser individualizadas[4], sob a pena de naturalizar a diferen\u00e7a de g\u00eanero e, sobretudo, penalizar ainda mais mulheres sobrecarregadas com seus trabalhos de cuidado, a despeito de seus m\u00e9ritos acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>Argumentamos sobre a necessidade de uma pol\u00edtica cient\u00edfica feminista, baseada na promo\u00e7\u00e3o de um ambiente acad\u00eamico e profissional de respeito \u00e0 diferen\u00e7a que marca a atua\u00e7\u00e3o de mulheres cientistas, no est\u00edmulo \u00e0s suas ideias e inova\u00e7\u00f5es, bem como na necess\u00e1ria e urgente dissocia\u00e7\u00e3o entre trabalho feminino e trabalho de cuidado. Uma pol\u00edtica cient\u00edfica feminista pretende, assim, que mulheres cientistas n\u00e3o sejam lembradas como as pioneiras que estiveram \u00e0 frente de seu tempo, antes, tal pol\u00edtica visa garantir que mulheres existam intelectualmente em seu tempo presente, participando ativamente das controv\u00e9rsias p\u00fablicas e dos imperativos de inova\u00e7\u00e3o intelectual que a sociedade nos demanda a cada momento da hist\u00f3ria. A elas, \u00e9 preciso garantir um tempo s\u00f3 pra si.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* As autoras dedicam essa reflex\u00e3o ao aprendizado cotidiano com Andr\u00e9a Freitas, Andr\u00e9ia Galv\u00e3o, Josianne Cerasoli, Nashieli Loera e Patr\u00edcia Avanci, nossa \u00abbancada feminista\u00bb.<\/p>\n<p>[ Sobre a imagem que ilustra esta publica\u00e7\u00e3o:\u00a0\u00abTranquilidade\u00bb, desenho integrante da s\u00e9rie <em>Sobre Amor &amp; outros peixes<\/em>, de Eva Uviedo.]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Sobre esse tema tratou Arlie R. Hochschild, em <em>The time bind: when work becomes home and home becomes work<\/em>, ao apontar para o que poder\u00edamos traduzir como \u00abtayloriza\u00e7\u00e3o da vida privada\u00bb.<\/p>\n<p>[2] Essa ideia ainda persiste como pol\u00edticas de equidade de g\u00eanero em empresas, como tamb\u00e9m apresenta Hochschild (1997) e seu car\u00e1ter contradit\u00f3rio para as mulheres foi exposto por B\u00e1rbara Castro, em<em> As armadilhas da flexibilidade<\/em>.<\/p>\n<p>[3] Pesquisa de B\u00e1rbara Castro, no \u00e2mbito do projeto \u00abCartografias do trabalho na sociedade contempor\u00e2nea: impactos das pol\u00edticas trabalhistas e sociais neoliberais nas din\u00e2micas de desigualdade de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a\u00bb, desenvolvido no Centro de Sociologia Contempor\u00e2nea do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, na Universidade Estadual de Campinas.<\/p>\n<p>[4] Em que pese a preocupa\u00e7\u00e3o com a visibilidade da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de mulheres, apontamos <u>as cincos sugest\u00f5es formuladas pelos colegas no post <\/u><a href=\"https:\/\/duckofminerva.com\/2020\/05\/journal-submissions-in-times-of-covid-19-is-there-a-gender-gap.html\">\u201cJournal Submissions in Times of COVID-19: Is There A Gender Gap?\u201d<\/a> acabam tendo o efeito de converter desigualdades estruturais em problemas de gest\u00e3o individual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CASTRO, B\u00e1rbara. (2016), <em>As armadilhas da flexibilidade: <\/em>trabalho e g\u00eanero no setor de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Annablume.<\/p>\n<p>HAICAULT, Monique. (1984), \u201cLa gestion ordinaire de la vie en deux . Sociologie du Travail, Elsevier Masson\u201d, 26, <em>Travail des femmes et famille<\/em> (3), p.268-277.<\/p>\n<p>HIRATA, Helena; KERGOAT, Dani\u00e8le. (2007), \u201cNovas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho\u201d. <em>Cad. Pesqui.<\/em>,\u00a0 S\u00e3o Paulo ,\u00a0 v. 37, n. 132, p. 595-609.<\/p>\n<p>HOCHSCHILD, Arlie Russell. (1997), <em>The Time Bind: <\/em>when work becomes home and home becomes work. New York: Metropolitan Books.<\/p>\n<p>WOOLF, Virginia. (2019), \u00abProfiss\u00f5es para mulheres\u00bb In: <em>As mulheres devem <\/em><em>chorar&#8230;ou se unir contra a guerra<\/em>. S\u00e3o Paulo: Aut\u00eantica.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>CASTRO, B\u00e1rbara; CHAGURI, Mariana. Um tempo s\u00f3 para si: g\u00eanero, pandemia e uma pol\u00edtica cient\u00edfica feminista.\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2020 [published 22 May 2020]. Available from:\u00a0<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-cientifica-feminista\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-cientifica-feminista\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tags:<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/tag\/coronavirus\/\" rel=\"tag\">coronav\u00edrus<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/tag\/novo-coronavirus\/\" rel=\"tag\">novo coro<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disculpa, pero esta entrada est\u00e1 disponible s\u00f3lo en Portugu\u00e9s De Brasil. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.Ao longo das \u00faltimas semanas, diferentes equipes editoriais de publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas t\u00eam noticiado a queda acentuada na quantidade de submiss\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":1653,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[11],"tags":[21,14,15,13],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1652"}],"collection":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1652"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1652\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2098,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1652\/revisions\/2098"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}