{"id":1512,"date":"2020-03-30T17:01:50","date_gmt":"2020-03-30T17:01:50","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1512"},"modified":"2020-05-16T19:26:41","modified_gmt":"2020-05-16T19:26:41","slug":"quatro-licoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/quatro-licoes\/","title":{"rendered":"Quatro li\u00e7\u00f5es do coronav\u00edrus para o fomento \u00e0 ci\u00eancia no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Em poucos meses, a r\u00e1pida transmiss\u00e3o dos casos de Covid-19 (ou novo coronav\u00edrus) amea\u00e7a levar ao colapso os sistemas de sa\u00fade de in\u00fameros pa\u00edses e submete um quarto da popula\u00e7\u00e3o mundial a algum tipo de quarentena. Em um mundo que <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41562-019-0632-4\">crescentemente desconfiava das descobertas cient\u00edficas<\/a>, a pandemia recolocou as\/os cientistas no centro do debate p\u00fablico e hoje espera ansiosamente que elas\/eles produzam solu\u00e7\u00f5es para a crise. At\u00e9 mesmo o presidente da maior pot\u00eancia b\u00e9lica e econ\u00f4mica do mundo, <a href=\"https:\/\/science.sciencemag.org\/content\/367\/6483\/1169.full\">Donald Trump, foi obrigado a rever seu negacionismo<\/a>. \u00c9 dif\u00edcil antecipar se a legitimidade da pesquisa acad\u00eamica sair\u00e1 fortalecida dessa crise ou se ela apenas dar\u00e1 mais espa\u00e7o para negacionismo, teorias conspirat\u00f3rias e fake news. Fato \u00e9, contudo, que o fomento \u00e0 ci\u00eancia, \u00e0 sua comunica\u00e7\u00e3o interna e divulga\u00e7\u00e3o para o grande p\u00fablico tornaram-se elemento estrat\u00e9gico central para o enfrentamento do problema.<\/p>\n<p>At\u00e9 o presente momento, grande parte dos pa\u00edses do Sul global, dentre eles o Brasil, vinha tendendo a importar parte dos crit\u00e9rios e pr\u00e1ticas da estrutura estadunidense de fomento \u00e0 ci\u00eancia. A despeito de sua magnitude colossal e de seus in\u00fameros m\u00e9ritos, a pandemia vem revelando a insufici\u00eancia deste modelo. Isso se torna ainda mais evidente quando observamos as estrat\u00e9gias aparentemente bem-sucedidas, empregadas por outras na\u00e7\u00f5es como <a href=\"https:\/\/gisanddata.maps.arcgis.com\/apps\/opsdashboard\/index.html#\/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6\">China e Coreia do Sul<\/a>. Os EUA, por outro lado, talvez tenham sido o pa\u00eds com as maiores dificuldades de articular conhecimento cient\u00edfico e coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na rea\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus. Algo que n\u00e3o se reflete apenas nas decis\u00f5es vol\u00faveis e desastradas do seu principal l\u00edder, mas tamb\u00e9m no funcionamento de um sistema de organiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que se mostrou profundamente in\u00e1bil para dar respostas r\u00e1pidas a uma pandemia a despeito do seu tamanho, complexidade e dos vultosos recursos nele investidos.<\/p>\n<p>Este texto elenca quatro li\u00e7\u00f5es que a pandemia causada pela Covid-19 j\u00e1 deixou para o modo como v\u00ednhamos orientando o fomento \u00e0s ci\u00eancias no mundo e, sobretudo, no Sul global. Em resumo, a crise insta e continuar\u00e1 instando v\u00e1rios pa\u00edses como o Brasil a (1) reverem suas pol\u00edticas de <strong>internacionaliza\u00e7\u00e3o<\/strong> da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, (2) enfrentarem a urg\u00eancia de um <strong>programa de abertura da ci\u00eancia<\/strong> para outras na\u00e7\u00f5es e para o p\u00fablico em geral, (3) constatarem a centralidade de <strong>institui\u00e7\u00f5es estatais<\/strong> de financiamento, coordena\u00e7\u00e3o e pesquisa conectadas ao Estado e (4) perceberem a <strong>indistin\u00e7\u00e3o entre o conhecimento gerado pelas ci\u00eancias exatas e humanas<\/strong> para compreender, explicar e remediar a crise. Levar tais li\u00e7\u00f5es em conta \u00e9 vital n\u00e3o apenas dada a crise, mas urgente haja vista as a\u00e7\u00f5es em curso nas ag\u00eancias de fomento nacionais como CAPES e CNPq, quase todas caminhando na contram\u00e3o desses ensinamentos.<\/p>\n<h2>1) Paradoxos da pol\u00edtica de internacionaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>No que toca \u00e0 sua pol\u00edtica de internacionaliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, o Brasil tem seguido diretrizes que incentivam \u00e0s publica\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas e em peri\u00f3dicos de impacto internacional. \u00c9 evidente que o avan\u00e7o do conhecimento cient\u00edfico \u00e9 catalisado pela sua circula\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos contextos nacionais, o que depende da publica\u00e7\u00e3o na l\u00edngua politicamente dominante no mundo contempor\u00e2neo. No entanto, n\u00e3o se pode perder de vista que a pesquisa acad\u00eamica obedece a especificidades e urg\u00eancias locais, fortemente marcadas pelas fronteiras dos Estados nacionais e suas especificidades lingu\u00edsticas, algo que se tornou patente ainda no in\u00edcio da crise.<\/p>\n<p>Na China, ber\u00e7o da pandemia que at\u00e9 ent\u00e3o dava incentivos pesados \u00e0 publica\u00e7\u00e3o em peri\u00f3dicos estrangeiros, <a href=\"https:\/\/blogs.lse.ac.uk\/impactofsocialsciences\/2020\/03\/05\/the-coronavirus-covid-19-outbreak-highlights-serious-deficiencies-in-scholarly-communication\/\">houve uma reorienta\u00e7\u00e3o do fomento<\/a>. Tr\u00eas foram as raz\u00f5es principais para tal. Primeiro, o enorme tempo de avalia\u00e7\u00e3o dos manuscritos sobre a Covid-19 por parte de peri\u00f3dicos estrangeiros de renome estava atrasando a comunica\u00e7\u00e3o das pesquisas. Segundo, a busca por publica\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas tamb\u00e9m atrasava a divulga\u00e7\u00e3o \u00e0s autoridades e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o locais de orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas b\u00e1sicas sobre como lidar com o v\u00edrus, haja vista a demanda por ineditismo das revistas de alto impacto. Terceiro, a busca por peri\u00f3dicos estrangeiros de renome incentivava os cientistas chineses a se especializar em temas que j\u00e1 possu\u00edam um interesse global pr\u00e9vio, algo que relegou \u00e0 Covid-19 ao segundo plano das editorias cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Por isso, a ag\u00eancia nacional chinesa de fomento \u00e0 ci\u00eancia <a href=\"https:\/\/blogs.lse.ac.uk\/impactofsocialsciences\/2020\/03\/05\/the-coronavirus-covid-19-outbreak-highlights-serious-deficiencies-in-scholarly-communication\/\">optou por modificar suas diretrizes em meio \u00e0 crise<\/a>. Al\u00e9m de reorientar recursos para as pesquisas sobre o v\u00edrus, ela matizou os incentivos para a publica\u00e7\u00e3o em peri\u00f3dicos estrangeiros, substituindo-os pelo fomento \u00e0 r\u00e1pida divulga\u00e7\u00e3o das pesquisas em peri\u00f3dicos locais. N\u00e3o se trata aqui de descartar ou secundarizar a publica\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas, mas de alterar a ordem de prioridades. Orienta\u00e7\u00f5es e solu\u00e7\u00f5es para lidar com a pandemia s\u00f3 emergir\u00e3o de um esfor\u00e7o global combinado, o que depender\u00e1 de uma comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e1gil. No entanto, isso n\u00e3o nos deve cegar para o car\u00e1ter eminentemente local e nacional das express\u00f5es dessa crise. Mais do que submeter os cientistas locais ao tempo e \u00e0s agendas do mundo acad\u00eamico angl\u00f3filo, temos que combinar incentivos \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o com mecanismos nacionais de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento. Hoje, \u00e9 mais importante que uma descoberta sobre o v\u00edrus seja rapidamente comunicada aos pares imediatos e divulgada \u00e0s autoridades e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local do que submetida \u00e0 lenta e onerosa avalia\u00e7\u00e3o de um peri\u00f3dico estrangeiro. Isso nos leva \u00e0 segunda li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>2) A Urg\u00eancia de um Programa de Abertura da Ci\u00eancia<\/h2>\n<p>H\u00e1 mais de um s\u00e9culo, o conhecimento cient\u00edfico \u00e9 produzido e disseminado dentro de um modelo baseado na s<a href=\"https:\/\/blog.scielo.org\/blog\/2015\/03\/27\/avaliacao-por-pares-modalidades-pros-e-contras\/\">ubmiss\u00e3o de artigos acad\u00eamicos \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o duplo-cega por pares e publica\u00e7\u00e3o em peri\u00f3dicos de alto impacto<\/a>. Nesse modelo, resultados cient\u00edficos estruturados s\u00e3o apresentados a peri\u00f3dicos acad\u00eamicos que os submetem \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de dois ou mais pareceristas an\u00f4nimos. O duplo anonimato (de autores e pareceristas) \u00e9 utilizado como expediente para garantir alguma imparcialidade no julgamento dos m\u00e9ritos e do rigor metodol\u00f3gico dos manuscritos, isolando dessa avalia\u00e7\u00e3o as eventuais prefer\u00eancias ou animosidades pessoais dentre os envolvidos.<\/p>\n<p>Apesar de hegem\u00f4nico e em certa medida indispens\u00e1vel, os atuais moldes da avalia\u00e7\u00e3o por pares tornam a comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica lenta e restrita. As revistas acad\u00eamicas podem demorar meses ou anos para atestar a relev\u00e2ncia e o rigor metodol\u00f3gico de um manuscrito, atrasando a sua publiciza\u00e7\u00e3o, debate e teste. A isso se soma o fato de as principais revistas acad\u00eamicas internacionais restringirem o acesso \u00e0s suas plataformas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e indiv\u00edduos que assinam os conte\u00fados das grandes editoras acad\u00eamicas globais como <a href=\"https:\/\/www.elsevier.com\/connect\/coronavirus-initiatives\">Elsevier<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.thomsonreuters.com\/en\/resources\/covid-19.html\">Thomson &amp; Reuters<\/a>.<\/p>\n<p>Uma alternativa a esse modelo \u00e9 o chamado <a href=\"https:\/\/portal.fiocruz.br\/noticia\/entrevista-abel-parker-emergencia-da-ciencia-aberta-e-funcoes-dos-periodicos-na-comunicacao\">Programa da Ci\u00eancia Aberta<\/a>. Nesse conceito guarda-chuva est\u00e3o inclu\u00eddas novas pr\u00e1ticas que priorizam a transpar\u00eancia e a celeridade na comunica\u00e7\u00e3o e na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Embora esse programa abarque in\u00fameras diretrizes, as mais importantes s\u00e3o a disponibiliza\u00e7\u00e3o dos manuscritos e dos dados por eles citados antes mesmo de sua avalia\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/blog.scielo.org\/blog\/2017\/02\/22\/scielo-preprints-a-caminho\/#.XoATaIhKhPY\">pol\u00edtica de preprint<\/a>) e a abertura total dos grandes reposit\u00f3rios de artigos (<a href=\"https:\/\/www.scielo.org\/en\/about-scielo\/open-access-statement\">pol\u00edtica de acesso aberto<\/a>).<\/p>\n<p>Em grande parte por conta de iniciativas como as plataformas <a href=\"https:\/\/www.scielo.org\/en\/about-scielo\/open-access-statement\">SciELO<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.redalyc.org\/info.oa?page=\/acceso-abierto\/declaracionoa.html\">Redalyc<\/a>, os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina foram pioneiros na ado\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de acesso aberto e gratuito em detrimento da cobran\u00e7a de assinaturas. Vale mencionar que as grandes editoras pagas j\u00e1 vinham migrando para esse modelo e, com a pandemia, v\u00eam disponibilizando ao grande p\u00fablico de forma gratuita parte dos seus acervos. Por tr\u00e1s desse debate est\u00e1 tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a nos procedimentos de financiamento das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, que perder\u00e3o os recursos provenientes das assinaturas e ter\u00e3o de ser sustentadas via editais p\u00fablicos. Apesar de essa ser uma tend\u00eancia na Europa, por exemplo, o Brasil vem restringindo substantivamente os recursos para seus peri\u00f3dicos, na contram\u00e3o n\u00e3o apenas de uma onda global, mas tamb\u00e9m de nossas pr\u00f3prias pol\u00edticas pregressas.<\/p>\n<p>Mas a amplia\u00e7\u00e3o do acesso aberto ainda ser\u00e1 insuficiente se o tempo de avalia\u00e7\u00e3o dos manuscritos permanecer alto, o que nos leva \u00e0 import\u00e2ncia dos incentivos a uma pol\u00edtica de <a href=\"https:\/\/blog.scielo.org\/blog\/2017\/02\/22\/scielo-preprints-a-caminho\/#.XoATaIhKhPY\">preprints<\/a> e divulga\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de artigos ainda n\u00e3o avaliados. Nesse modelo, as revistas passariam a aceitar a submiss\u00e3o de textos j\u00e1 dispon\u00edveis em reposit\u00f3rios de preprints, abertos ao p\u00fablico e \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de qualquer especialista interessado. Isso n\u00e3o apenas agiliza o debate acad\u00eamico, mas tamb\u00e9m a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, j\u00e1 que o p\u00fablico leigo tamb\u00e9m passa a ter acesso imediato aos estudos. Note-se que o incentivo ao uso dos reposit\u00f3rios de <a href=\"https:\/\/blog.scielo.org\/blog\/2017\/02\/22\/scielo-preprints-a-caminho\/#.XoATaIhKhPY\">preprints<\/a> n\u00e3o implica o fim da avalia\u00e7\u00e3o por pares, ao contr\u00e1rio: esta se tornar\u00e1 ainda mais importante dada a necessidade de ranquear os artigos abertos ao p\u00fablico de modo a tra\u00e7ar uma fronteira entre a boa e a m\u00e1 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o do modelo aberto de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 o fim da avalia\u00e7\u00e3o duplo-cega haja vista que ao menos os pareceristas ter\u00e3o acesso \u00e0 autoria dos textos submetidos. Contudo, trata-se de um pequeno pre\u00e7o a se pagar em momentos que se torna urgente a circula\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, como no atual. Em tempos \u201cnormais\u201d, dever\u00e1 ficar a cargo dos\/as cientistas a escolha pela submiss\u00e3o tradicional ou pelos servidores de preprint. De todo modo, os incentivos aqui t\u00eam de mudar, j\u00e1 que a maior parte do fomento ainda privilegia a publica\u00e7\u00e3o de artigos em peri\u00f3dicos fechados aos manuscritos oriundos de servidores de preprints.<\/p>\n<h2>3) A Centralidade das Institui\u00e7\u00f5es Estatais<\/h2>\n<p>N\u00e3o existe um consenso quanto ao melhor modelo de financiamento e administra\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es de pesquisa, se p\u00fablico ou privado. Al\u00e9m da enorme zona cinzenta entre esses dois polos, a verdade \u00e9 que a maior parte dos pa\u00edses costuma adotar complexos modelos h\u00edbridos que combinam financiamento e administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e privada. De todo modo, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e governamentais parecem mais fundamentais do que nunca, ao menos no est\u00e1gio atual da crise. Ainda que haja uma corrida global dos laborat\u00f3rios privados em busca de uma vacina ou medicamento para mitigar os efeitos da Covid-19, eles n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de financiar sozinhos tais pesquisas, agir em coopera\u00e7\u00e3o entre si e, sobretudo, fabricar em massa e distribuir suas descobertas. Ademais, embora o EUA contem com um n\u00famero expressivo de laborat\u00f3rios e institutos de pesquisa privados, o pa\u00eds vem sofrendo com a quase inexist\u00eancia de institutos estatais pr\u00f3ximos ao governo, capazes de organizar o conhecimento dispon\u00edvel e, eventualmente, complement\u00e1-lo com pesquisas pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>Um dos maiores gargalos na conten\u00e7\u00e3o da pandemia nos EUA tem sido, por exemplo, a autoriza\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o dos testes. <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/03\/18\/us\/coronavirus-testing-elite.html\">Embora eles venham sendo adquiridos em quantidades expressivas pelas diferentes inst\u00e2ncias do governo, sua aplica\u00e7\u00e3o est\u00e1 quase que totalmente nas m\u00e3os de hospitais privados que tendem a superestimar sua demanda e a distribuir os kits recebidos para seus clientes mais ilustres e abastados.<\/a> A despeito das enormes dificuldades do sistema de pesquisa em sa\u00fade no Brasil, a exist\u00eancia de institutos governamentais como Fiocruz e IPEA, al\u00e9m dos v\u00e1rios departamentos nas universidades p\u00fablicas, sobretudo de Epidemiologia e Sa\u00fade Coletiva, podem contribuir sobremaneira para melhorar a log\u00edstica de autoriza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o desses testes de modo complementar \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos laborat\u00f3rios, hospitais e demais institui\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n<h2>4) A Indistin\u00e7\u00e3o entre Ci\u00eancias Humanas e Exatas<\/h2>\n<p>Para al\u00e9m da letalidade causada pelo novo coronav\u00edrus, \u00e9 importante ressaltar que as pandemias condicionam e s\u00e3o condicionadas por vari\u00e1veis pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas. O que est\u00e1 em jogo no curto prazo \u00e9 evitar o colapso do sistema de sa\u00fade a partir do incentivo ao isolamento f\u00edsico e, no limite, do uso da quarentena. Todas as medidas nesse sentido envolvem a articula\u00e7\u00e3o de diferentes conhecimentos e a interdisciplinaridade.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 gratuito que a pr\u00f3pria Epidemiologia seja hoje considerada uma ci\u00eancia h\u00edbrida ou transdisciplinar. Isso porque a difus\u00e3o do v\u00edrus n\u00e3o \u00e9 causada apenas pelas suas caracter\u00edsticas f\u00edsico-qu\u00edmicas ou pelos suas vias de transmiss\u00e3o e efeitos no corpo. Ela \u00e9 em grande medida influenciada pelos distintos padr\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o social em contextos diversos, pela organiza\u00e7\u00e3o de nossas cidades, pela magnitude das nossas desigualdades socioecon\u00f4micas, pela organiza\u00e7\u00e3o dos mercados, pela hist\u00f3ria social de epidemias pregressas etc. Portanto, as ci\u00eancias sociais e seus m\u00e9todos espec\u00edficos ser\u00e3o de fundamental import\u00e2ncia. Novamente na contram\u00e3o dessa li\u00e7\u00e3o, a CAPES ainda hoje insiste na exclus\u00e3o das ci\u00eancias humanas do rol de \u00e1reas consideradas \u201cestrat\u00e9gicas\u201d para o pa\u00eds, o que s\u00f3 demonstra sua cegueira para as dificuldades do presente.<\/p>\n<p>Mas a articula\u00e7\u00e3o entre cientistas sociais e naturais ser\u00e1 fundamental n\u00e3o apenas para a conten\u00e7\u00e3o imediata da pandemia. Independentemente do grau de pessimismo das proje\u00e7\u00f5es, fato \u00e9 que o coronav\u00edrus far\u00e1 parte de nossas vidas por muitos anos ainda, seja na hip\u00f3tese de ele se tornar uma mem\u00f3ria desagrad\u00e1vel contida no passado, seja na conjectura de que sua difus\u00e3o n\u00e3o se limitar\u00e1 aos meses vindouros. Em ambos os casos, teremos que aprender novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida social, tanto no que concerne ao atendimento de nossas necessidades materiais quanto \u00e0s nossas demandas afetivas, cognitivas e existenciais. Em todos esses casos, o conhecimento produzido pelas ci\u00eancias humanas e pelas humanidades ser\u00e1 t\u00e3o indispens\u00e1vel quanto \u00e0s descobertas m\u00e9dicas.<\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>CAMPOS, Luiz Augusto. Quatro li\u00e7\u00f5es do coronav\u00edrus para o fomento \u00e0 ci\u00eancia no Brasil, <em>Blog DADOS<\/em>, 2020 [published 30 March 2020]. Available from: <a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/quatro-licoes\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/quatro-licoes<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em poucos meses, a r\u00e1pida transmiss\u00e3o dos casos de Covid-19 (ou novo coronav\u00edrus) amea\u00e7a levar ao colapso os sistemas de sa\u00fade de in\u00fameros pa\u00edses e submete um quarto da popula\u00e7\u00e3o mundial a algum tipo de quarentena. 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