{"id":1214,"date":"2019-07-04T00:44:51","date_gmt":"2019-07-04T00:44:51","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1214"},"modified":"2021-03-11T16:25:35","modified_gmt":"2021-03-11T16:25:35","slug":"como-redigir-um-parecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/como-redigir-um-parecer\/","title":{"rendered":"Como redigir um parecer acad\u00eamico?"},"content":{"rendered":"<p>As revistas acad\u00eamicas s\u00e3o hoje o principal pilar dos sistemas de divulga\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e financiamento cient\u00edficos. Elas n\u00e3o apenas servem para divulgar as ideias e descobertas de uma dada pesquisa, mas sobretudo para determinar padr\u00f5es do que vem a ser uma investiga\u00e7\u00e3o acad\u00eamica leg\u00edtima e, portanto, digna de prest\u00edgio e financiamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser curioso, por\u00e9m, que a defini\u00e7\u00e3o do que deve ser ou n\u00e3o publicado por elas dependa em grande medida do trabalho de um grupo an\u00f4nimo e n\u00e3o remunerado de pessoas: os\/as pareceristas. No sistema de avalia\u00e7\u00e3o duplo-cega por pares, ainda hegem\u00f4nico no mundo cient\u00edfico contempor\u00e2neo, s\u00e3o as\/os pareceristas que mais influenciam o destino de um artigo.<\/p>\n<p>Embora avancem modelos alternativos baseados em avalia\u00e7\u00f5es abertas pr\u00e9vias \u00e0 publica\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=preprint&amp;oq=preprint&amp;aqs=chrome..69i57j0l5.1239j0j4&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8\">preprint<\/a>) ou na divulga\u00e7\u00e3o posterior da identidade dos pareceristas, como proposto pela plataforma <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/\">PLOS ONE<\/a>, tudo leva a crer que n\u00e3o se abdicar\u00e1 rapidamente no modelo baseado no anonimato. Vale destacar que, nesse modelo, os pareceres tamb\u00e9m costumam ter sua leitura restrita aos autores do texto avaliado e editores dos peri\u00f3dicos.<\/p>\n<p>Por isso tudo, muitos acad\u00eamicos e acad\u00eamicas, sobretudo em in\u00edcio de carreira, t\u00eam d\u00favidas sobre como redigir um parecer. Sem nenhuma pretens\u00e3o de exaust\u00e3o, o objetivo deste post \u00e9 expor, em linhas gerais, o que um\/a parecerista deve considerar antes de redigir uma avalia\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma s\u00e9rie de normativas consolidadas no decorrer dos anos no fluxo editorial de <a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\"><em>DADOS<\/em> <\/a>e de outras revistas das ci\u00eancias sociais.<\/p>\n<h3>Por que redigir um parecer?<\/h3>\n<p>Por serem an\u00f4nimos e privados, pareceres d\u00e3o pouqu\u00edssimo retorno em termos de reconhecimento acad\u00eamico. Por que, ent\u00e3o, redigi-los? Em primeiro lugar, o parecer \u00e9 o principal instrumento de controle de qualidade da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e dos padr\u00f5es m\u00ednimos dessa atividade. Ao recusar conceder um parecer, estamos terceirizando para outrem tal tarefa, abdicando portanto da possibilidade de garantir certos padr\u00f5es de qualidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, conceder pareceres \u00e9 a melhor forma de se manter atualizado em um determinado campo de pesquisa. Nem todos os acad\u00eamicos frequentam todos os congressos renomados de sua disciplina, mas a maioria deseja ter suas ideias publicadas. \u00c9 comum, tamb\u00e9m, que ne\u00f3fitos em uma \u00e1rea tem\u00e1tica se empenhem em publicar suas pesquisas. Da\u00ed a relev\u00e2ncia do parecer como via de acesso ao que h\u00e1 de mais fresco sobre um tema.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o\/a parecerista de hoje ser\u00e1 o\/a autor\/a de amanh\u00e3 e vice-versa. Isso quer dizer que como autores\/as, temos a expectativa de que nossos pares sejam diligentes em suas avalia\u00e7\u00f5es e, portanto, devemos s\u00ea-lo em reciprocidade. Ademais, \u00e9 comum que editores busquem acompanhar com maior dilig\u00eancia e celeridade os textos de seus pareceristas mais eficientes.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, diversos sistemas de avalia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica t\u00eam incorporado a qualidade e a quantidade de pareceres nas suas m\u00e9tricas. O sistema de gest\u00e3o de fluxo ScholarOne, usado por muitas revistas, j\u00e1 possui um m\u00f3dulo que permite aos editores dar notas aos pareceres \u00e9 ranquear os\/as pareceristas. Algumas \u00e1reas da CAPES tamb\u00e9m consideram a produtividade de pareceres em seus baremas. Sobretudo a partir da constru\u00e7\u00e3o da plataforma <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/\">PLOS ONE<\/a>,\u00a0 base com dados de milhares de pareceres, \u00e9 prov\u00e1vel que essa atividade seja cada vez mais reconhecida e estudada.<\/p>\n<h3>Qual o tempo recomendado para a aceita\u00e7\u00e3o e reda\u00e7\u00e3o de um parecer?<\/h3>\n<p>Em geral, concede-se um m\u00eas para cada parecerista redigir sua avalia\u00e7\u00e3o. Todavia, o importante \u00e9 <strong>informar o mais rapidamente poss\u00edvel os editores de sua disponibilidade<\/strong>, isto \u00e9, n\u00e3o postergar o aceite ou recusa ao convite. Isso porque convites sem resposta permanecem em aberto, deixando editores na d\u00favida sobre a disponibilidade do avaliador e sobre a necessidade de convoca\u00e7\u00e3o de um segundo ou terceiro nome. Portanto, \u00e9 mais recomendado aceitar a tarefa e requisitar mais tempo para sua execu\u00e7\u00e3o do que postergar o aceite indefinidamente.<\/p>\n<h3>E se eu n\u00e3o puder redigir um parecer de jeito nenhum?<\/h3>\n<p>A rotina acad\u00eamica de fato pode ser extenuante e, na maioria dos casos, isto acaba levando a atrasos justamente nas tarefas com recompensas menos palp\u00e1veis. Embora varie o tempo que cada acad\u00eamico dedica a suas distintas atividades, \u00e9 razo\u00e1vel supor que ele conceda, em m\u00e9dia, um parecer a cada dois meses. Mas mesmo nos casos em que de fato \u00e9 imposs\u00edvel atender a um convite para dar um parecer, <strong>os pareceristas podem ser \u00fateis indicando outros colegas e especialistas para a tarefa<\/strong>. Portanto, mesmo que indispon\u00edvel para conceder um parecer, \u00e9 bem vinda a sugest\u00e3o de outros nomes.<\/p>\n<h3>O que faz um bom parecer?<\/h3>\n<p>Um bom parecer \u00e9 aquele capaz de resumir as caracter\u00edsticas, qualidades e defeitos de um dado manuscrito acad\u00eamico levando em conta os par\u00e2metros pr\u00f3prios de um dado peri\u00f3dico, de modo a subsidiar a decis\u00e3o de sua publica\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o pelos editores.<\/p>\n<p>Note-se que os pareceres s\u00e3o subs\u00eddios \u00e0 decis\u00e3o editorial e n\u00e3o a decis\u00e3o em si. Cabe ao editor e seus conselheiros arbitrarem o que fazer com cada texto, sobretudo diante de pareceres conflitantes. <strong>Da\u00ed a import\u00e2ncia de evitar pareceres excessivamente sint\u00e9ticos do tipo \u201co texto est\u00e1 bom e deve ser publicado\u201d ou \u201co texto est\u00e1 p\u00e9ssimo e n\u00e3o deve ser publicado\u201d<\/strong>.\u00a0 Em vez disso, procure discorrer sobre os m\u00e9ritos e defeitos do manuscrito, indicando claramente porque eles s\u00e3o assim julgados e como eles se expressam no texto. Tamb\u00e9m recomenda-se que o\/a parecerista indique caminhos para as melhorias, sugira refer\u00eancias e destaque trechos pouco claros.<\/p>\n<h3>Quais s\u00e3o os pareceres poss\u00edveis e o que eles significam?<\/h3>\n<p>As revistas costumam disponibilizar cinco delibera\u00e7\u00f5es poss\u00edveis em um parecer:<\/p>\n<p><strong>Aprovar: <\/strong>o texto poderia ser publicado como est\u00e1, necessitando no m\u00e1ximo de algumas m\u00ednimas revis\u00f5es ortogr\u00e1ficas e gramaticais, nenhuma de conte\u00fado ou estrutura.<\/p>\n<p><strong>Aprovar com revis\u00f5es menores: <\/strong>o texto demanda apenas poucas revis\u00f5es, que em tese podem ser facilmente realizadas pelos autores. Isso abrange problemas de forma, aus\u00eancia de alguma refer\u00eancia, trecho ou um argumento pouco claro. Apesar disso, entende-se que o texto deva ser publicado. Embora n\u00e3o seja obrigat\u00f3rio, subentende-se tamb\u00e9m que o parecerista est\u00e1 aberto \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o de uma segunda vers\u00e3o do manuscrito caso ele seja reapresentado.<\/p>\n<p><strong>Aprovar com maiores revis\u00f5es:<\/strong> o texto demanda revis\u00f5es mais profundas, mas nada que exija uma reestrutura\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica. Isso abrange problemas de forma mais gerais, aus\u00eancia de v\u00e1rias refer\u00eancias relevante e muitos argumentos pouco claros. De todo modo, entende-se que o texto deva ser publicado e que a pesquisa que ele produziu n\u00e3o precisa ser refeita. Embora n\u00e3o seja obrigat\u00f3rio, subentende-se tamb\u00e9m que o parecerista est\u00e1 aberto \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o de uma segunda vers\u00e3o do manuscrito caso ele seja reapresentado.<\/p>\n<p><strong>Rejeitar e ressubmeter: <\/strong>para que o texto se torne public\u00e1vel e contribua com sua \u00e1rea tem\u00e1tica, seus objetivos e estrutura devem ser substantivamente modificados. Essa decis\u00e3o pressup\u00f5e que o texto demanda mudan\u00e7as profundas, mas que sua inten\u00e7\u00e3o original \u00e9 vi\u00e1vel, leg\u00edtima e pode redundar em contribui\u00e7\u00f5es substantivas no futuro, da\u00ed o incentivo \u00e0 ressubmiss\u00e3o. Embora n\u00e3o seja obrigat\u00f3rio, subentende-se que o parecerista est\u00e1 aberto \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o de uma segunda vers\u00e3o, mas que esta poder\u00e1 ser ressubmetida a novos pareceristas.<\/p>\n<p><strong>Rejeitar:<\/strong> para que o texto se torne public\u00e1vel e contribua com sua \u00e1rea tem\u00e1tica, seus objetivos e estrutura devem ser completamente modificados. Essa decis\u00e3o n\u00e3o pressup\u00f5e que o texto \u201cn\u00e3o tem salva\u00e7\u00e3o\u201d, mas apenas que as mudan\u00e7as necess\u00e1rias s\u00e3o t\u00e3o dr\u00e1sticas que elas redundariam em outro texto se fossem feitas.<\/p>\n<h3>Como proceder quando um texto for reapresentado ou ressubmetido?<\/h3>\n<p>\u00c9 relativamente comum que autores e autoras ressubmetam textos rejeitados ou os reapresentem depois dos pareceres. Nesses casos, a revista pode achar por bem consultar as\/os pareceristas novamente para determinar se as melhorias realizadas foram suficientes. O importante aqui \u00e9 reavaliar o manuscrito com base no primeiro parecer, isto \u00e9, indicar se as modifica\u00e7\u00f5es respondem \u00e0s quest\u00f5es levantadas evitando, assim, condicionar a publica\u00e7\u00e3o \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de problemas do texto original n\u00e3o indicados na primeira avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Ser\u00e1 que eu sou um parecerista excessivamente duro ou leniente?<\/h3>\n<p>A rigor, a grande maioria dos manuscritos submetidos a uma revista de qualidade \u00e9 rejeitada. Por isso, n\u00e3o se puna caso o n\u00famero de textos que voc\u00ea aprova seja irris\u00f3rio ou bem menor que os rejeitados. Lembre-se tamb\u00e9m que sua decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 final, cabendo ao editor ratific\u00e1-la, moder\u00e1-la ou complement\u00e1-la.<\/p>\n<h3>E se eu detectar algum conflito de interesses?<\/h3>\n<p>No mundo ideal da revis\u00e3o cega por pares, os avaliadores n\u00e3o possuem nenhuma pista sobre os autores dos textos que avaliam e vice-versa. Na vida real, contudo, \u00e9 comum que a tem\u00e1tica, estilo e abordagem de um dado texto insinuem ao avaliador a sua autoria. Quando houver esse tipo de suspeita, a\/o parecerista deve avaliar em que medida existe um conflito potencial de interesses, isto \u00e9, quando a motiva\u00e7\u00e3o para um dado julgamento n\u00e3o \u00e9 apenas o interesse de que o conhecimento avance, o que prejudica a objetividade e imparcialidade de sua delibera\u00e7\u00e3o. Nesses casos, o parecerista deve recusar o convite e comunicar sua motiva\u00e7\u00e3o \u00e0 equipe editorial. Mais detalhes sobre potenciais conflitos de interesse e \u00e9tica da avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica podem ser obtidos no <a href=\"http:\/\/www.fapesp.br\/boaspraticas\/FAPESP-Codigo_de_Boas_Praticas_Cientificas_2014.pdf\">C\u00f3digo de Boas Pr\u00e1ticas Cient\u00edficas da FAPESP<\/a>.<\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>CAMPOS, Luiz Augusto. Como redigir um parecer acad\u00eamico?, <em>Blog DADOS<\/em>, 2019 [published 4 July 2019]. Available from: <a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/como-redigir-um-parecer\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/como-redigir-um-parecer\/<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As revistas acad\u00eamicas s\u00e3o hoje o principal pilar dos sistemas de divulga\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e financiamento cient\u00edficos. Elas n\u00e3o apenas servem para divulgar as ideias e descobertas de uma dada pesquisa, mas sobretudo para determinar padr\u00f5es do que vem a ser uma investiga\u00e7\u00e3o acad\u00eamica leg\u00edtima e, portanto, digna de prest\u00edgio e financiamento. N\u00e3o deixa de ser [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":1218,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0},"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1214"}],"collection":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1214"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1214\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2058,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1214\/revisions\/2058"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1214"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1214"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1214"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}