{"id":2760,"date":"2025-10-29T18:05:35","date_gmt":"2025-10-29T18:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=2760"},"modified":"2025-10-29T22:51:05","modified_gmt":"2025-10-29T22:51:05","slug":"seguranca-publica-e-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/en\/seguranca-publica-e-violencia\/","title":{"rendered":"Seguran\u00e7a p\u00fablica e viol\u00eancia urbana em perspectiva: 50 anos de pesquisa nas Ci\u00eancias Sociais"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-en\">Sorry, this entry is only available in <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2760\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Brazilian Portuguese<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Giovanna Monteiro-Macedo (IESP-UERJ)<\/em><\/p>\n<p>No dia 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro viveu a opera\u00e7\u00e3o policial mais letal de sua hist\u00f3ria recente. A megaopera\u00e7\u00e3o nos complexos da Penha e do Alem\u00e3o mobilizou cerca de 2.500 agentes das for\u00e7as de seguran\u00e7a e resultou em dezenas de mortes. Helic\u00f3pteros, blindados e drones transformaram a cidade em cen\u00e1rio de &#8220;guerra&#8221;, com moradores sob fogo cruzado e circula\u00e7\u00e3o interrompida por horas. Mais uma vez, a ret\u00f3rica do combate ao crime foi acompanhada por imagens de destrui\u00e7\u00e3o, medo e desamparo.<\/p>\n<p>As ci\u00eancias sociais brasileiras t\u00eam se debru\u00e7ado sobre a viol\u00eancia urbana h\u00e1 pelo menos meio s\u00e9culo. Desde os anos 1970, a revista DADOS tem sido um espa\u00e7o central desse debate, acompanhando as transforma\u00e7\u00f5es nas formas de exercer e de sofrer a viol\u00eancia no pa\u00eds. A opera\u00e7\u00e3o do dia 28 n\u00e3o \u00e9 apenas um epis\u00f3dio recente. Ela atualiza, em nova escala tecnol\u00f3gica e militar, um tema que atravessa a vida dos brasileiros, assim como a trajet\u00f3ria intelectual da sociologia e da ci\u00eancia pol\u00edtica no pa\u00eds: a persist\u00eancia da viol\u00eancia como modo de gest\u00e3o do espa\u00e7o urbano e das desigualdades sociais.<\/p>\n<p>J\u00e1 no final dos anos 1970, DADOS publicava textos que se tornaram refer\u00eancias fundadoras para a compreens\u00e3o da viol\u00eancia no Brasil. Em \u201c<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1PkotUMgpbiVo22JjzHyPp8KhnoTNphpZ\/edit\">Viol\u00eancia do Estado e classes populares<\/a>\u201d (1979), Paulo S\u00e9rgio Pinheiro apontava a coer\u00e7\u00e3o estatal como uma pol\u00edtica de controle das classes populares. No ano seguinte, Ruben George Oliven, em \u201c<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1Pkqw3XxP0FIlDl9ijTgBuxRQejcKhZ0J\/edit\">A viol\u00eancia como mecanismo de domina\u00e7\u00e3o e como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia<\/a>\u201d, argumentava que a viol\u00eancia n\u00e3o devia ser entendida como patologia social, mas sim como algo que \u00e9 parte da constitui\u00e7\u00e3o da sociedade e do Estado brasileiro. <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1TLQndcYrkhMLyiZzUZpE6ZNPQnrRbnOu\/edit\">Simon Schwartzman<\/a> e <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1f9MhGykaZ_GvGYJHanKNaKZVPfqp5AHb\/edit\">Gilberto Velho<\/a>, na mesma edi\u00e7\u00e3o, relacionavam a viol\u00eancia \u00e0 aus\u00eancia de cidadania e \u00e0 desigualdade na ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano. Esses trabalhos participaram da inaugura\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o de pesquisa que recusa a leitura moral da viol\u00eancia e prop\u00f5e entend\u00ea-la como estrutura social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A partir dos anos 2000, os artigos publicados em DADOS acompanharam o deslocamento do foco anal\u00edtico: da viol\u00eancia como fen\u00f4meno social geral para a an\u00e1lise das institui\u00e7\u00f5es que a produzem e reproduzem. Adriano Oliveira, em \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0011-52582007000400003\">As pe\u00e7as e os mecanismos do crime organizado em sua atividade tr\u00e1fico de drogas<\/a>\u201d (2007), examinou o funcionamento racional das organiza\u00e7\u00f5es criminosas e suas intera\u00e7\u00f5es com o Estado. No ano seguinte, Cl\u00e1udio Beato e colegas, em \u201c<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/dados\/a\/4DHNZKzCRmtC7MXDqfKHhZD\/?format=pdf&amp;lang=pt\">Crime e estrat\u00e9gias de policiamento em espa\u00e7os urbanos<\/a>\u201d (2008), mostraram como o policiamento molda a pr\u00f3pria geografia da viol\u00eancia. Poucos anos depois, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0011-52582010000100006\">Ludmila Ribeiro<\/a> (2010) analisou o \u201cfunil\u201d do sistema de justi\u00e7a criminal, demonstrando a fragmenta\u00e7\u00e3o e a inefici\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es encarregadas de processar crimes de homic\u00eddio em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Nos anos 2010 e 2020, DADOS reuniu pesquisas que articulam a viol\u00eancia \u00e0 economia do tr\u00e1fico e \u00e0 confian\u00e7a nas for\u00e7as de seguran\u00e7a. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/dados.2020.63.4.223\">Lu\u00eds Fl\u00e1vio Sapori<\/a> (2020) comparou Belo Horizonte e Macei\u00f3 para mostrar que o mercado de drogas influencia, mas n\u00e3o explica sozinho, as taxas de homic\u00eddio \u2014 h\u00e1 uma difus\u00e3o mais ampla da viol\u00eancia, relacionada \u00e0 din\u00e2mica urbana e \u00e0 a\u00e7\u00e3o estatal. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/001152582020197\">Thiago Oliveira, Andr\u00e9 Zanetic e Ariadne Natal<\/a> (2020) testaram a teoria da justeza procedimental em S\u00e3o Paulo, concluindo que o respeito \u00e0 lei depende mais da legitimidade percebida da pol\u00edcia do que da coer\u00e7\u00e3o. J\u00e1 <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/001152582019172\">Arthur Trindade Maranh\u00e3o Costa e Marcelo Ottoni Durante<\/a> (2019) analisaram o medo do crime no Distrito Federal, mostrando que a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a \u00e9 moldada pela confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de 28 de outubro de 2025 evidencia a perman\u00eancia dessas quest\u00f5es. Ao longo de quatro d\u00e9cadas, artigos publicados em DADOS tem mostrado que a militariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios populares n\u00e3o reduz o crime, mas intensifica a letalidade e o medo. A promessa de seguran\u00e7a se traduz em desprote\u00e7\u00e3o. Estudos recentes, como o de <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/dados.2025.68.3.379\">Ignacio Cano, Tiago Bartholo, Mariane Koslinski, Rachel Machado e Mariana Siracusa (2025<\/a>), sobre os impactos da guerra \u00e0s drogas na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as das periferias do Rio de Janeiro, demonstram como a pol\u00edtica de confronto produz efeitos profundos e duradouros na vida cotidiana, afetando o aprendizado, a circula\u00e7\u00e3o e o futuro das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A megaopera\u00e7\u00e3o de outubro repete o padr\u00e3o que a literatura sociol\u00f3gica vem descrevendo desde os anos 1980: o uso recorrente da for\u00e7a como resposta \u00e0 desigualdade, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios pobres e a aus\u00eancia de responsabiliza\u00e7\u00e3o pelas mortes resultantes das a\u00e7\u00f5es estatais.<\/p>\n<p>Leia estes e outros artigos na Revista DADOS sobre o tema:<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>CANO, Ignacio; BARTHOLO, Tiago; KOSLINSKI, Mariane; MACHADO, Rachel; SIRACUSA, Mariana.<\/b> <i>O impacto da guerra \u00e0s drogas na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as das periferias do Rio de Janeiro.<\/i> DADOS, v. 68, n. 3, 2025.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>SAPORI, Lu\u00eds Fl\u00e1vio.<\/b> <i>Mercado das drogas il\u00edcitas e homic\u00eddios no Brasil: um estudo comparativo das cidades de Belo Horizonte (MG) e Macei\u00f3 (AL).<\/i> DADOS, v. 63, n. 4, 2020.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>OLIVEIRA, Thiago R.; ZANETIC, Andr\u00e9; NATAL, Ariadne.<\/b> <i>Preditores e impactos da legitimidade policial: testando a teoria da justeza procedimental em S\u00e3o Paulo.<\/i> DADOS, v. 63, n. 1, 2020.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>COSTA, Arthur Trindade Maranh\u00e3o; DURANTE, Marcelo Ottoni.<\/b> <i>A pol\u00edcia e o medo do crime no Distrito Federal.<\/i> DADOS, v. 62, n. 1, 2019.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>RIBEIRO, Ludmila.<\/b> <i>A produ\u00e7\u00e3o decis\u00f3ria do sistema de justi\u00e7a criminal para o crime de homic\u00eddio: an\u00e1lise dos dados do estado de S\u00e3o Paulo entre 1991 e 1998.<\/i> DADOS, v. 53, n. 1, 2010.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>BEATO, Cl\u00e1udio; SILVA, Br\u00e1ulio Figueiredo Alves da; TAVARES, Ricardo.<\/b> <i>Crime e estrat\u00e9gias de policiamento em espa\u00e7os urbanos.<\/i> DADOS, v. 51, n. 3, 2008.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>OLIVEIRA, Adriano.<\/b> <i>As pe\u00e7as e os mecanismos do crime organizado em sua atividade tr\u00e1fico de drogas.<\/i> DADOS, v. 50, n. 4, 2007.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VELHO, Gilberto.<\/b> <i>Viol\u00eancia e cidadania.<\/i> DADOS, v. 23, n. 3, 1980.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>SCHWARTZMAN, Simon.<\/b> <i>Da viol\u00eancia dos nossos dias.<\/i> DADOS, v. 23, n. 3, 1980.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>CAMPOS, Edmundo.<\/b> <i>Sobre soci\u00f3logos, pobreza e crime.<\/i> DADOS, v. 23, n. 3, 1980.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>OLIVEN, Ruben George.<\/b> <i>A viol\u00eancia como mecanismo de domina\u00e7\u00e3o e como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<\/i> DADOS, v. 23, n. 3, 1980.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>PINHEIRO, Paulo S\u00e9rgio.<\/b> <i>Viol\u00eancia do Estado e classes populares.<\/i> DADOS, v. 22, n. 3, 1979.<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorry, this entry is only available in Brazilian Portuguese. 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