{"id":2586,"date":"2023-11-06T14:57:12","date_gmt":"2023-11-06T14:57:12","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=2586"},"modified":"2023-11-06T16:36:00","modified_gmt":"2023-11-06T16:36:00","slug":"desigualdade-de-genero-propostas-cnpq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/en\/desigualdade-de-genero-propostas-cnpq\/","title":{"rendered":"O que podemos aprender sobre desigualdade de g\u00eanero a partir de 9.757 propostas submetidas ao edital Universal 10\/2023 do CNPQ?"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-en\">Sorry, this entry is only available in <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2586\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Brazilian Portuguese<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>No \u00faltimo 24 de outubro, o CNPQ divulgou o resultado preliminar do edital universal 10\/2023. Convidamos voc\u00ea a desbravar as discrep\u00e2ncias de g\u00eanero em rela\u00e7\u00e3o aos valores aprovados. Das 9.757 propostas submetidas, 2.751 foram aprovadas, correspondendo a 28,2% do total. Por g\u00eanero, homens e mulheres apresentaram taxas de sucesso muito semelhantes. Das 5.449 propostas submetidas por homens, 28,5% receberam a aprova\u00e7\u00e3o, ao passo que, de maneira compar\u00e1vel, 28% das 3.970 propostas submetidas por mulheres foram exitosas. Todavia, a equival\u00eancia de resultados n\u00e3o se reflete na aloca\u00e7\u00e3o de recursos. Comparativamente, os homens receberam um montante superior em recursos, com uma m\u00e9dia de R$ 101.831 por projeto, em contraste com os R$ 92.275 destinados \u00e0s mulheres, em m\u00e9dia, por proposta. Essa diferen\u00e7a de R$ 9.556 \u00e9, para usar o jarg\u00e3o cient\u00edfico, estatisticamente significativa e poderia, a t\u00edtulo de exemplo, viabilizar a aquisi\u00e7\u00e3o de tr\u00eas laptops da marca Dell Inspiron 15.<\/p>\n<p>De forma similar, no Diret\u00f3rio de Grupos de Pesquisa do CNPq, de acordo com o censo de 2016, a participa\u00e7\u00e3o de mulheres como pesquisadoras l\u00edderes \u00e9 sempre menor que a dos homens: na faixa et\u00e1ria de 25 a 29 anos \u00e9 de 35,2%, 30 a 34 anos \u00e9 de 41,9%, 35 a 39 anos \u00e9 de 44,3%, 40 a 44 anos \u00e9 de 45,7%, \u00a0e, por fim, h\u00e1 maior aproxima\u00e7\u00e3o da equidade entre 45 a 49 anos, chegando a 49,3%. Percebe-se que as diferen\u00e7as s\u00e3o mais acentuadas nas faixas et\u00e1rias em que as mulheres est\u00e3o em idade reprodutiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguimos identificar o g\u00eanero de 338 projetos cujos proponentes conservam nomes menos populares e que, por isso, n\u00e3o est\u00e3o listados na mem\u00f3ria no pacote <a href=\"https:\/\/cran.r-project.org\/web\/packages\/genderBR\/index.html\">genderBR<\/a>. Classificamos ent\u00e3o o g\u00eanero de 111 proponentes a partir de uma consulta manual no Google. Para uma amostra de 61 homens com nomes pouco convencionais, a m\u00e9dia de recursos aprovada \u00e9 de 117.305. Para uma amostra de 50 mulheres na mesma situa\u00e7\u00e3o, a m\u00e9dia cai para 95.569, a diferen\u00e7a m\u00e9dia chega ent\u00e3o a R$ 21.736, que seria suficiente para financiar uma miss\u00e3o internacional. Em conversas informais com colegas de profiss\u00e3o recebemos algumas obje\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o consideradas a seguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>Obje\u00e7\u00e3o 1:<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cMas \u00e9 importante tamb\u00e9m observar os casos discrepantes, <em>outliers<\/em>. Eles podem prejudicar a compara\u00e7\u00e3o entre os dois grupos\u201d. Para abordar essa hip\u00f3tese recalculamos ent\u00e3o a diferen\u00e7a na quantidade de recursos aprovados para homens e mulheres a partir da m\u00e9dia aparada e da mediana, conforme ilustra a Figura 1.<\/p>\n<p><strong>Figura 1 &#8211; Valores aprovados por g\u00eanero (CNPQ, 2023)<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-2589 size-full\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Grafico-1_dados.png\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Grafico-1_dados.png 624w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Grafico-1_dados-300x158.png 300w\" sizes=\"(max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/p>\n<p>Independente da forma de mensura\u00e7\u00e3o (m\u00e9dia, m\u00e9dia aparada ou mediana), a diferen\u00e7a entre homens e mulheres persiste. Considerando a m\u00e9dia aparada, que desconsidera os valores extremos, a diferen\u00e7a \u00e9 de aproximadamente R$ 9.659.\u00a0 Por sua vez, se a gente olhar a mediana, que \u00e9 o valor que divide a distribui\u00e7\u00e3o em duas partes iguais, a diferen\u00e7a \u00e9 de R$ 9.400. Isso refor\u00e7a a robustez do padr\u00e3o encontrado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>Obje\u00e7\u00e3o 2:<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cMas o mais adequado seria observar o valor solicitado e n\u00e3o o aprovado. O vi\u00e9s pode come\u00e7ar por mulheres pedindo menos recursos\u201d.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, a planilha disponibilizada pelo CNPQ n\u00e3o fornece os montantes das solicita\u00e7\u00f5es originais, limitando-se a expor apenas o que foi aprovado pela ag\u00eancia de fomento. Diante dessa lacuna, examinaremos agora se a disparidade entre os g\u00eaneros pode ser atribu\u00edda a vari\u00e1veis adicionais, como a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos proponentes. A Tabela 1 compara a m\u00e9dia de recursos aprovados por homens e mulheres por regi\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Tabela 1 &#8211; M\u00e9dia de recursos aprovados por homens e mulheres por regi\u00e3o (CNPQ, 2023)<\/strong><\/p>\n<table width=\"624\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"156\"><strong>Regi\u00e3o<\/strong><\/td>\n<td width=\"156\"><strong>Homens<\/strong><\/td>\n<td width=\"156\"><strong>Mulheres<\/strong><\/td>\n<td width=\"156\"><strong>Dif (R$)<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"156\">Norte<\/td>\n<td width=\"156\">93.447<\/td>\n<td width=\"156\">87.491<\/td>\n<td width=\"156\">5.956<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"156\">Nordeste<\/td>\n<td width=\"156\">97.270<\/td>\n<td width=\"156\">89.969<\/td>\n<td width=\"156\">7.301<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"156\">Centro-Oeste<\/td>\n<td width=\"156\">98.213<\/td>\n<td width=\"156\">92.979<\/td>\n<td width=\"156\">5.234<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"156\">Sudeste<\/td>\n<td width=\"156\">104.487<\/td>\n<td width=\"156\">96.251<\/td>\n<td width=\"156\">8.236<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"156\">Sul<\/td>\n<td width=\"156\">104.874<\/td>\n<td width=\"156\">87.426<\/td>\n<td width=\"156\">17.447<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As evid\u00eancias indicam que a desigualdade de g\u00eanero no acesso a recursos de pesquisa tamb\u00e9m persiste por regi\u00e3o. No Norte, os homens ganharam cerca de R$ 6 mil a mais por projeto aprovado, em m\u00e9dia. No Nordeste, a vantagem masculina \u00e9 de pouco mais de R$ 7 mil. No Sul, a diferen\u00e7a m\u00e9dia chegou a R$ 17.447. Essas disparidades regionais destacam a complexidade do problema e podem fornecer insights para a formula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de promo\u00e7\u00e3o da igualdade de g\u00eanero em financiamentos de pesquisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>Obje\u00e7\u00e3o 3:<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cMas isso se deve \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero entre as \u00e1reas. Mulheres tendem a se concentrar em campos que necessitam de menos recursos, como Letras e Educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para avaliar essa conjectura, calculamos ent\u00e3o a m\u00e9dia de recursos aprovados para projetos coordenados por homens e mulheres por \u00e1rea, conforme a defini\u00e7\u00e3o dos Comit\u00eas de Assessoramento (CAs). O Gr\u00e1fico 1 ilustra essas informa\u00e7\u00f5es.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gr\u00e1fico 1 &#8211; Diferen\u00e7a entre homens e mulheres por CA (%)<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-2590 size-full\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Grafico-2-dados.png\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Grafico-2-dados.png 624w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Grafico-2-dados-300x158.png 300w\" sizes=\"(max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/p>\n<p>Em certos campos, como Medicina Veterin\u00e1ria, projetos liderados por homens desfrutam de uma vantagem not\u00e1vel, recebendo, em m\u00e9dia, um acr\u00e9scimo de 77% nos recursos dispon\u00edveis. Na Engenharia Agr\u00edcola, essa disparidade atinge 64%, enquanto na \u00e1rea de Psicologia e Servi\u00e7o Social, a diferen\u00e7a chega a 43%. Por outro lado, \u00e1reas como Administra\u00e7\u00e3o e Economia (3,9%), Medicina (1,6%) e Engenharia Qu\u00edmica (1,2%) s\u00e3o aquelas em que os homens demonstram a menor vantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres no tocante \u00e0 aloca\u00e7\u00e3o de recursos para a condu\u00e7\u00e3o de projetos de pesquisa. Estes achados revelam padr\u00f5es surpreendentes na distribui\u00e7\u00e3o de financiamento por g\u00eanero em diferentes \u00e1reas de pesquisa.<\/p>\n<p>Para estes resultados, uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que mulheres est\u00e3o concentradas em \u00e1reas relativas ao cuidado e em campos relacionados \u00e0 gest\u00e3o, engenharias e finan\u00e7as, prevalecem os homens (VAZ, 2013; BIROLI, 2016). Nas \u00e1reas onde h\u00e1 uma maior diferen\u00e7a dos recursos est\u00e1 inserida a Engenharia Agr\u00edcola e curiosamente Medicina Veterin\u00e1ria, Psicologia e Assist\u00eancia Social, em que normalmente prevalecem mulheres, apresentando-se com maior vantagem para os homens. Este preju\u00edzo feminino pode estar relacionado a fatores de g\u00eanero como a concilia\u00e7\u00e3o da vida pessoal e profissional, incluindo a maternidade (SANTOS MACHADO et.al., 2019; MORGAN et.al., 2021). Estudos j\u00e1 apontam que a maternidade pode significar, entre outras coisas, uma diminui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de mulheres (ICHIKAWA, et. al., 2018). Iniciativas inovadoras, como o <a href=\"https:\/\/www.parentinscience.com\/sobre-o-parent-in-science\">Parent in Science<\/a>, tem contribu\u00eddo para incluir o debate sobre parentalidade na agenda de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Em resumo, o desequil\u00edbrio de g\u00eanero na aloca\u00e7\u00e3o de recursos pelo CNPQ transcende fronteiras geogr\u00e1ficas e \u00e1reas de conhecimento. Na verdade, fizemos este c\u00e1lculo tamb\u00e9m: considerando propostas da mesma regi\u00e3o e do mesmo Comit\u00ea de Assessoramento, projetos coordenados por homens receberam, em m\u00e9dia, R$ 6.469 adicionais em compara\u00e7\u00e3o com uma proposta coordenada por uma mulher. Com este artigo esperamos chamar a aten\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de fomento no sentido de incluir corre\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias espec\u00edficas para projetos coordenados por mulheres e incentivar a elabora\u00e7\u00e3o de editais de pesquisa especificamente voltado para pesquisadoras.<\/p>\n<h4><strong>Nota<\/strong><\/h4>\n<p>Todos os dados e scripts computacionais utilizados para produzir este artigo est\u00e3o publicamente <a href=\"https:\/\/osf.io\/5qyfc\/\">dispon\u00edveis aqui<\/a>.<\/p>\n<h4><strong>Sobre os autores<\/strong><\/h4>\n<p>Dalson Figueiredo (<a href=\"mailto:dalson.figueiredofo@ufpe.br\">dalson.figueiredofo@ufpe.br<\/a>) \u00a0&#8211; Professor Associado do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade Federal\u00a0de\u00a0Pernambuco (UFPE)<\/p>\n<p>Luciana Luz (<a href=\"mailto:luciana.luz@ufpe.br\">luciana.luz@ufpe.br<\/a>) &#8211; Doutoranda em Ci\u00eancia Pol\u00edtica no PPGCP\/UFPE e servidora t\u00e9cnica administrativa na UFPE<\/p>\n<h4><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h4>\n<p>BIROLI, Fl\u00e1via. (2016), &#8220;Divis\u00e3o sexual do trabalho e democracia&#8221;. <em>Dados<\/em>, v.<em>59<\/em>, n.3, p.719-754.<\/p>\n<p>ICHIKAWA, Elisa., YAMAMOTO, Juliana., BONILHA, Ma\u00edra. (2008), &#8220;Ci\u00eancia, tecnologia e g\u00eanero: Desvelando o significado de ser mulher e cientista&#8221;. <em>Servi\u00e7o Social em revista<\/em>, n.<em>11, n.<\/em>1, p.1-15.<\/p>\n<p>LATTES. Diret\u00f3rio dos Grupos de Pesquisa no Brasil. <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/web\/dgp\/por-lideranca-sexo-e-idade\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/web\/dgp\/por-lideranca-sexo-e-idade<\/a>.<\/p>\n<p>MORGAN Allison. et al. (2021), &#8220;The unequal impact of parenthood in academia&#8221;. <em>Science Advances<\/em>,\u00a0<em>7<\/em>(9).<\/p>\n<p>MACHADO, Leticia. et al. (2019), &#8220;Parent in science: The impact of parenthood on the scientific career in Brazil&#8221;. In <em>2019 IEEE\/ACM 2nd International Workshop on Gender Equality in Software Engineering (GE)<\/em>\u00a0(pp. 37-40). IEEE.<\/p>\n<p>VAZ, Daniela. (2013), &#8220;O teto de vidro nas organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas: evid\u00eancias para o Brasil&#8221;. <em>Economia e Sociedade<\/em>, v.<em>22<\/em>, p.765-790.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>FIGUEIREDO, Dalson; LUZ, Luciana. \u201cO que podemos aprender sobre desigualdade de g\u00eanero a partir de 9.757 propostas submetidas ao edital Universal 10\/2023 do CNPQ?\u201d. <em>Blog DADOS<\/em>, 2023 [published 6 Nov. 2023]. Available from: <a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/desigualdade-de-genero-propostas-cnpq\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/desigualdade-de-genero-propostas-cnpq\/<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorry, this entry is only available in Brazilian Portuguese. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. 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