{"id":1686,"date":"2020-05-29T15:18:59","date_gmt":"2020-05-29T15:18:59","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1686"},"modified":"2020-05-29T15:26:01","modified_gmt":"2020-05-29T15:26:01","slug":"estetica-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/en\/estetica-da-pandemia\/","title":{"rendered":"\u201cAchatar a curva\u201d: est\u00e9tica, topografia e moralidade da pandemia"},"content":{"rendered":"<p class=\"qtranxs-available-languages-message qtranxs-available-languages-message-en\">Sorry, this entry is only available in <a href=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1686\" class=\"qtranxs-available-language-link qtranxs-available-language-link-pb\" title=\"Portugu\u00eas do Brasil\">Brazilian Portuguese<\/a>. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.<\/p><p>As not\u00edcias come\u00e7aram a chegar por meio da imprensa de maneira t\u00edmida. Na China, esse lugar distante, uma nova doen\u00e7a come\u00e7ava a se alastrar. Causada por um v\u00edrus desconhecido, se espalhava rapidamente. Sem clareza sobre a gravidade da enfermidade, sua letalidade ou capacidade de transmiss\u00e3o, observ\u00e1vamos, h\u00e1 semanas, com curiosidade e alguma apreens\u00e3o. Hoje, o v\u00edrus toma conta de nossas vidas individuais e coletivas em todos as escalas poss\u00edveis. Se, como agente infeccioso, podemos tentar mant\u00ea-lo longe das nossas mucosas, n\u00e3o h\u00e1 como ficar alheio \u00e0 sua forma mais amplamente difundida: os n\u00fameros e suas apresenta\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Dados estat\u00edsticos que representam a quantidade de infectados e mortos, seu crescimento e as supostas tend\u00eancias de dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, s\u00e3o atualmente os principais objetos de aten\u00e7\u00e3o e debate em torno da pandemia de Covid-19 e de como administr\u00e1-la. As estat\u00edsticas sobre a doen\u00e7a fazem parte do que Theodor Porter chama de \u201cn\u00fameros p\u00fablicos\u201d e o que Alain Desrosi\u00e8res chama de \u201cgrandes n\u00fameros\u201d. Esse tipo de n\u00famero serve, basicamente, para criar <em>problemas<\/em>. Explico. Um monte de indiv\u00edduos enfermos n\u00e3o constitui uma pandemia. \u00c9 preciso que haja um nome para a doen\u00e7a, que existam institui\u00e7\u00f5es e pessoas para classificar os indiv\u00edduos como contaminados, assim como outras que re\u00fanam os dados em quantidade cada vez maior, os interpretem e comuniquem an\u00e1lises. Esses processos \u2013 uma verdadeira \u201ccadeia de transforma\u00e7\u00f5es\u201d, como sugere Laurent Th\u00e9venot \u2013, ocorre por meio de tradu\u00e7\u00f5es, conven\u00e7\u00f5es, codifica\u00e7\u00f5es. As estat\u00edsticas s\u00e3o uma forma de criar novas entidades \u2013 a pandemia, por exemplo \u2013 que passam, assim, a constituir problemas coletivos aos quais podemos nos dirigir. Como v\u00e1rios autores dos estudos sociais da quantifica\u00e7\u00e3o mostram, os n\u00fameros passam a ser uma linguagem comum, nos dois sentidos da palavra: uma forma ordin\u00e1ria e compartilhada de se falar.<\/p>\n<p>Com isso n\u00e3o quero dizer que a doen\u00e7a n\u00e3o exista de fato, ou que n\u00e3o seja uma realidade precedente a qualquer constru\u00e7\u00e3o estat\u00edstica conceitual. Mas para que ela se tornasse uma quest\u00e3o que nos mobiliza coletivamente, todo esse trabalho de quantifica\u00e7\u00e3o precisou ser feito, e o que se chama de pandemia \u00e9 um exemplo de uma \u201cnova entidade\u201d. Retomo Theodor Porter, que tamb\u00e9m mostra que a estat\u00edstica \u00e9 uma forma de \u201cfalar \u00e0 dist\u00e2ncia\u201d, ou seja, trazer para aten\u00e7\u00e3o das pessoas realidades \u00e0s quais elas n\u00e3o t\u00eam acesso por meio da observa\u00e7\u00e3o direta. \u00c9 nessa transforma\u00e7\u00e3o, de realidades difusas e experimentadas apenas por aqueles diretamente afetados por elas em quest\u00f5es p\u00fablicas e problemas coletivos, que as estat\u00edsticas se constituem como um trabalho criativo.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de n\u00fameros \u00e9 imensa, mas o que me chama mais aten\u00e7\u00e3o durante essa crise \u00e9 o gr\u00e1fico no qual se baseia a ideia de \u201cachatar a curva\u201d como o principal objetivo a ser perseguido por governos e pessoas e usado comumente na defesa do isolamento social como estrat\u00e9gia eficiente de enfrentamento \u00e0 doen\u00e7a. \u00c9 uma das imagens mais difundidas na internet e, certamente, quem estiver conectado, seguindo minimamente as not\u00edcias, j\u00e1 a viu diversas vezes e em distintas vers\u00f5es. Ele se tornou n\u00e3o apenas uma imagem comum, mas tamb\u00e9m a forma privilegiada de se falar sobre e durante a pandemia. Mas como e por qu\u00ea um gr\u00e1fico atinge essa capacidade meton\u00edmica t\u00e3o poderosa? Vamos a algumas ideias, mas antes, uma descri\u00e7\u00e3o r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Veja o gr\u00e1fico abaixo. Ele mostra duas curvas. Elas s\u00e3o desenhadas tendo como refer\u00eancia o eixo vertical, correspondente ao n\u00famero de pessoas infectadas e o eixo horizontal, relativo ao tempo. As duas curvas representam um mesmo n\u00famero de casos, mas distribu\u00eddos de maneira distinta ao longo dos dias. O fundamental \u00e9 a linha horizontal tra\u00e7ada a partir de um certo n\u00famero de casos, que representaria a capacidade dos servi\u00e7os de sa\u00fade de oferecerem leitos para tratamento intensivo, que, no caso dos doentes graves de Covid-19, pode durar muitos dias. Uma das curvas em formato de sino, bem mais alta e estreita, ultrapassa em muito a linha reta que representa a capacidade dos hospitais e a outra, bem mais larga e baixa, fica abaixo dela. A rela\u00e7\u00e3o mostrada, portanto, \u00e9 entre o n\u00famero de doentes, o tempo e a quantidade de casos que os servi\u00e7os de sa\u00fade s\u00e3o capazes de atender.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1689 size-large\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/World-in-Data_Flatten-the-curve-1024x717.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/World-in-Data_Flatten-the-curve-1024x717.png 1024w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/World-in-Data_Flatten-the-curve-300x210.png 300w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/World-in-Data_Flatten-the-curve-768x538.png 768w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 um relativo consenso \u2013 com exce\u00e7\u00f5es com que, infelizmente, os brasileiros precisam conviver \u2013 de que a doen\u00e7a causada pelo novo coronav\u00edrus \u00e9 uma realidade objetiva, cuja exist\u00eancia independe de interpreta\u00e7\u00f5es pessoais e opini\u00f5es pr\u00f3prias. O negacionismo extremo \u2013 a ideia de que a Covid-19 \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9, sem d\u00favida, uma posi\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria. Pode-se dizer, portanto, que o v\u00edrus existe, que se espalha segundo mecanismos naturais e as consequ\u00eancias para os infectados se d\u00e3o sobre seus corpos biol\u00f3gicos. Por se tratar de uma realidade desse tipo, \u00e9 no campo da ci\u00eancia que a doen\u00e7a e suas consequ\u00eancias devem ser tratadas. As estat\u00edsticas, sejam elas usadas nos laborat\u00f3rios biom\u00e9dicos ou nas institui\u00e7\u00f5es estatais de produ\u00e7\u00e3o de n\u00fameros p\u00fablicos, s\u00e3o consideradas a linguagem leg\u00edtima para se abordar tais fen\u00f4menos e acionam a interven\u00e7\u00e3o de grupos espec\u00edficos de especialistas, como os epidemiologistas e m\u00e9dicos. Os gr\u00e1ficos, portanto, s\u00e3o ao mesmo tempo consequ\u00eancia e parte da constru\u00e7\u00e3o da pandemia como objeto do conhecimento cient\u00edfico e demandante de interven\u00e7\u00e3o racional e calculada.<\/p>\n<p>Entre as diversas formas de uso das estat\u00edsticas, os gr\u00e1ficos s\u00e3o os que se beneficiam diretamente de aspectos est\u00e9ticos para comunicar rela\u00e7\u00f5es entendidas como relevantes. A apreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre vari\u00e1veis que as opera\u00e7\u00f5es de quantifica\u00e7\u00e3o produzem, convertidas em desenhos, \u00e9 mais imediata e, dependendo dos pr\u00f3prios dados e das escolhas formais na sua constru\u00e7\u00e3o, conduzem mais facilmente a certas leituras. Os gr\u00e1ficos podem prescindir, inclusive, das informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que seriam exigidas, por exemplo, em trabalhos acad\u00eamicos. Em muitas vers\u00f5es que circulam do gr\u00e1fico espec\u00edfico de que estou tratando, n\u00e3o constam escalas ou fontes das informa\u00e7\u00f5es. O aspecto est\u00e9tico desse gr\u00e1fico \u00e9 t\u00e3o relevante na argumenta\u00e7\u00e3o sobre a necessidade de isolamento social, que em muitos casos ele n\u00e3o apresenta qualquer dos elementos de um artefato t\u00e9cnico. Em outros, \u00e9 emprestado apenas como refer\u00eancia, que s\u00f3 poderia ser efetiva supondo-se que as pessoas conhecem a imagem \u201coriginal\u201d e o que ela comunica. A capacidade de transmitir de forma clara e r\u00e1pida um argumento e acionar associa\u00e7\u00f5es complexas de maneira simples tornou esse gr\u00e1fico a imagem mais expressiva das \u00faltimas semanas, fornecendo uns dos principais elementos para o que proponho chamar de est\u00e9tica da pandemia.<\/p>\n<p>Diversas apresenta\u00e7\u00f5es do gr\u00e1fico o mostram tamb\u00e9m como participante de uma moraliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es frente \u00e0 pandemia, ou seja, como um recurso de defesa daquilo que seria correto fazer. Essa moraliza\u00e7\u00e3o em torno dos comportamentos vai desde as pol\u00edticas p\u00fablicas nacionais, com imagens sendo fornecidas como justificativas para a\u00e7\u00f5es governamentais, at\u00e9 a escala individual. Isso se expressa de maneira simples, como o uso de cores ou apresenta\u00e7\u00e3o de figuras mais elaboradas. Em v\u00e1rios casos a \u00e1rea formada pela curva mais alta \u00e9 pintada de vermelho e a \u00e1rea da curva mais baixa de azul ou verde. Um <em>gif<\/em> que circulou muito e cujas legendas foram traduzidas em diversas l\u00ednguas mostra abaixo das curvas duas figuras humanas. A que corresponde \u00e0 curva mais alta mostra um homem de bra\u00e7os abertos e express\u00e3o de desd\u00e9m. As legendas variam, mas numa delas ele diz \u201c\u00c9 s\u00f3 uma gripezinha\u201d. \u00a0Sob a curva mais baixa h\u00e1 a imagem de uma mulher, com as m\u00e3os ensaboadas e a legenda mostra frases como \u201cPrecisamos nos cuidar\u201d. Outro caso comum de uso da curva \u00e9 o seu acompanhamento com frases dirigidas aos indiv\u00edduos, por exemplo, \u201cAjude achatar a curva. Fique em casa\u201d.<\/p>\n<p>A capacidade de n\u00fameros e suas representa\u00e7\u00f5es de produzirem simplifica\u00e7\u00f5es eficientes (e aqui n\u00e3o h\u00e1 nenhuma cr\u00edtica a isso) \u00e9 t\u00e3o grande que esses acabam por tomar o lugar dos fatos e rela\u00e7\u00f5es prim\u00e1rios que pretendem apresentar \u2013 nesse caso, a doen\u00e7a, sua dissemina\u00e7\u00e3o material \u2013 e tornam-se eles mesmos os objetos da a\u00e7\u00e3o. A preocupa\u00e7\u00e3o em desacelerar a velocidade de contamina\u00e7\u00e3o e assim garantir que haja leitos, profissionais e equipamentos hospitalares suficientes para atender os doentes graves e, assim, diminuir o n\u00famero de mortes, pode ser formulada, simplesmente, assim: \u201ctemos que achatar a curva\u201d. Esse n\u00e3o \u00e9 apenas um recurso discursivo, uma mera meton\u00edmia. De fato, as pr\u00f3prias estat\u00edsticas passam a ser o objeto de preocupa\u00e7\u00e3o, especialmente dos gestores p\u00fablicos, j\u00e1 que as mortes em si s\u00f3 podem ser experimentadas pelas pessoas pr\u00f3ximas ao finados.<\/p>\n<p>Pelo pouco tempo em que esteve em debate, o chamado \u201cisolamento vertical\u201d fez coincidir esteticamente esse tipo de proposta com a topografia sugerida pela imagem do gr\u00e1fico: a verticalidade da curva \u201cruim\u201d podia ser facilmente associada \u00e0 sugest\u00e3o de que apenas as pessoas do chamado \u201cgrupo de risco\u201d devessem evitar contato com outros indiv\u00edduos e permanecer em casa. Embora a express\u00e3o \u201cvertical\u201d n\u00e3o tivesse nada a ver com o eixo do gr\u00e1fico que mostrava o n\u00famero de doentes, o argumento substantivo tinha e as formas e vocabul\u00e1rio produzidos por meio da quantifica\u00e7\u00e3o foram, em mais esse caso, transportados de maneira indireta para compor novos significados.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante desse gr\u00e1fico \u00e9 seu horizonte temporal de maneira mais ampla e, especialmente, sua pretens\u00e3o preditiva. Por meio de uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas e segundo modelos epidemiol\u00f3gicos, seria poss\u00edvel desenhar (literalmente, nesse caso) futuros poss\u00edveis e, mais precisamente, duas vers\u00f5es dele, segundo o uso, ou n\u00e3o, de medidas de distanciamento. Por mais que a curva mais estreita e alta nos revele a possibilidade de um futuro catastr\u00f3fico com o \u201ccolapso do sistema de sa\u00fade\u201d, ainda assim, apresenta um horizonte poss\u00edvel. Caso haja medidas de isolamento, o futuro pode n\u00e3o ser t\u00e3o ruim. Ao oferecer a ideia de previsibilidade e, ao mesmo tempo, de possiblidade de algum controle sobre a pandemia, o gr\u00e1fico tamb\u00e9m fornece algum al\u00edvio diante de toda incerteza da situa\u00e7\u00e3o. Minha hip\u00f3tese \u00e9 de que esse gr\u00e1fico \u00e9 sedutor, tamb\u00e9m, porque nos oferece um artefato visual que constr\u00f3i a pandemia como algo que, assim como teve um come\u00e7o, ter\u00e1 tamb\u00e9m um fim (as duas curvas descendem at\u00e9 o ponto zero do eixo vertical), embora, ausente a m\u00e9trica no eixo referente ao tempo, n\u00e3o saibamos quando ser\u00e1.<\/p>\n<p>Hoje a grande quest\u00e3o no Brasil \u00e9 quando atingiremos \u201co topo da curva\u201d. Nesse caso tamb\u00e9m a topografia \u00e9 expressiva da expectativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 temporalidade da pandemia de maneira mais direta e serve como forma de tematizar a possibilidade de \u201cafrouxamento\u201d das medidas de isolamento. O \u00e1pice da \u201cnossa\u201d curva \u00e9 o pior momento, mas s\u00f3 saberemos retrospectivamente que ele ocorreu, porque s\u00f3 ficar\u00e1 claro quando estivermos \u201cdescendo\u201d.<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas e seus modelos preditivos s\u00e3o muito eficientes em proporcionar uma certa seguran\u00e7a \u2013 previsibilidade, circunscri\u00e7\u00e3o temporal \u2013 e esse \u00e9 um dos motivos pelos quais se tornam t\u00e3o importantes em tempos de crise. Mas talvez haja uma certa op\u00e7\u00e3o p\u00fablica pelo gr\u00e1fico \u201cachatar a curva\u201d em detrimento de outras imagens e contas mais assustadores que mostram, por exemplo, que as curvas de contamina\u00e7\u00e3o e mortes em uma pandemia, em geral, s\u00e3o mais sinuosas, apresentando subidas e descidas, n\u00e3o havendo um \u00fanico ponto culminante a partir do qual tudo s\u00f3 melhora.<\/p>\n<p>A imagem do gr\u00e1fico das duas curvas se tornou t\u00e3o difundida que ultrapassou a tematiza\u00e7\u00e3o da pandemia. J\u00e1 h\u00e1 vers\u00f5es, por exemplo, que substituem o eixo que representa os contaminados pelo suposto consumo de recursos naturais e mostra a linha, n\u00e3o correspondente \u00e0 limita\u00e7\u00e3o de casos que os hospitais podem tratar, mas ao limite ambiental de recursos n\u00e3o renov\u00e1veis. A mensagem que acompanha a imagem \u00e9 \u201cvamos achatar essa curva tamb\u00e9m\u201d. H\u00e1, ainda, piadas com refer\u00eancia \u00e0 imagem circulando nas redes sociais: \u201cComo fa\u00e7o para achatar a curva do meu mau humor?\u201d.<\/p>\n<p>A enorme difus\u00e3o do gr\u00e1fico das duas curvas como refer\u00eancia est\u00e9tica, moral e discursiva durante a pandemia demonstra a grande capacidade das estat\u00edsticas e seus usos de produzirem artefatos capazes de circularem de maneira incrivelmente r\u00e1pida e eficiente. Isso acontece por sua capacidade redutora e simplificadora por meio de uma enorme condensa\u00e7\u00e3o de sentidos, muitos deles compreens\u00edveis em termos de seus antecedentes hist\u00f3ricos, mas outros completamente inovadores e in\u00e9ditos.<\/p>\n<p>Afirmar o car\u00e1ter de constru\u00e7\u00e3o social ou apontar para o que chamei de \u201csimplifica\u00e7\u00f5es\u201d n\u00e3o s\u00e3o formas de criticar e, muito menos, uma tentativa de denunciar as estat\u00edsticas ou seus usos como \u201cfalsos\u201d ou enganosos. Pelo contr\u00e1rio. O que tentei demostrar aponta para esses artefatos e a linguagem dos n\u00fameros como uma forma de criar e perpetuar no\u00e7\u00f5es de coletividade e compartilhamento. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que governos autorit\u00e1rios hoje se voltem contra todos os esfor\u00e7os, inclu\u00eddas as ci\u00eancias, da afirma\u00e7\u00e3o da nossa humanidade e naturezas comuns. Toda linguagem \u201csimplifica\u201d, no sentido de que todo significado \u00e9 uma \u201csimplifica\u00e7\u00e3o\u201d, a constru\u00e7\u00e3o de um ponto comum, a \u201credu\u00e7\u00e3o\u201d de m\u00faltiplas experi\u00eancias individuais em termos que nos permitam comunic\u00e1-las e, assim, reconhecer bases compartilhadas de exist\u00eancia para que sejam poss\u00edveis as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cAchatar a curva\u201d vai ser, provavelmente, uma express\u00e3o duradoura, parte da mem\u00f3ria da pandemia a ser incorporada na forma como enxergamos a nossa rela\u00e7\u00e3o com for\u00e7as incontrol\u00e1veis e com limita\u00e7\u00f5es da capacidade humana de lidar com suas consequ\u00eancias. Esse pode ser o sentido filos\u00f3fico de fundo que o gr\u00e1fico carrega e talvez seja, tamb\u00e9m por isso, que ele nos sensibilize tanto.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da express\u00e3o \u201cachatar a curva\u201d e de sua centralidade durante a pandemia de Covid-19 demonstra n\u00e3o apenas a estat\u00edstica como uma linguagem comum, como muitos cientistas sociais e historiados da quantifica\u00e7\u00e3o j\u00e1 argumentaram sobre os grandes n\u00fameros, mas tamb\u00e9m como a compreens\u00e3o da vida social dessa tal curva pode ser uma das maneiras pelas quais se pode refletir sobre a pandemia como experi\u00eancia humana. Caber\u00e1, no futuro, uma investiga\u00e7\u00e3o minuciosa sobre a difus\u00e3o de suas diversas apresenta\u00e7\u00f5es e apropria\u00e7\u00f5es como parte da an\u00e1lise sobre esse momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>MOTTA, Eug\u00eania. \u201cAchatar a curva\u201d: est\u00e9tica, topografia e moralidade da pandemia.\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2020 [published 29 May 2020]. Available from:\u00a0<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/estetica-da-pandemia\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/estetica-da-pandemia\/<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sorry, this entry is only available in Brazilian Portuguese. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.As not\u00edcias come\u00e7aram a chegar por meio da imprensa de maneira t\u00edmida. 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