{"id":1637,"date":"2020-05-20T16:39:20","date_gmt":"2020-05-20T16:39:20","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1637"},"modified":"2020-05-21T22:32:49","modified_gmt":"2020-05-21T22:32:49","slug":"saude-publica-e-estatisticas-genero-raca-na-serra-leoa-e-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/en\/saude-publica-e-estatisticas-genero-raca-na-serra-leoa-e-no-brasil\/","title":{"rendered":"\u201cEu n\u00e3o acredito em dados!\u201d: Breve reflex\u00e3o sobre crises de sa\u00fade p\u00fablica e a produ\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas de g\u00eanero e ra\u00e7a na Serra Leoa e no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cDepois que uma pessoa morre&#8230; eles n\u00e3o se importam se \u00e9 \u2018ele\u2019 ou \u2018ela\u2019\u201d[2]<\/strong><\/p>\n<p>Em 20 de abril deste ano, data que nos parece t\u00e3o distante, principalmente porque agora contabilizamos dias atrav\u00e9s da quantidade de \u00f3bitos, a <a href=\"https:\/\/almapreta.com\/editorias\/realidade\/movimento-negro-exige-da-prefeitura-de-sp-dados-de-covid-19-por-raca-cor\">Coaliz\u00e3o Negra por Direitos exigiu que a Prefeitura de S\u00e3o Paulo<\/a> disponibilizasse estat\u00edsticas sobre o novo coronav\u00edrus com recortes de ra\u00e7a e g\u00eanero. Naquele momento, o Brasil somava 2.462 mortos e 38.654 contaminados pela Covid-19. Com base na Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, o documento da Coaliz\u00e3o, assinado por 150 institui\u00e7\u00f5es, alegava que esses dados eram imprescind\u00edveis para o entendimento de quais grupos sociais seriam os mais afetados em consequ\u00eancia da atual pandemia.<\/p>\n<p>Hoje, 17.983 mortos e 271.885 contaminados depois[1], lembro-me das minhas idas ao National Ebola Response Centre (NERC), no ano de 2015, durante meu trabalho de campo na Serra Leoa, pa\u00eds do Oeste Africano, que atravessava uma epidemia de ebola. Andava \u00e0s voltas com a \u201cfalta\u201d. Eu que nunca havia sido metodologicamente norteada por dados num\u00e9ricos, talvez por ser uma antrop\u00f3loga de longos campos em comunidades pequenas e muito mais interessada nos modos de viver e morrer das pessoas, intriguei-me n\u00e3o pelos informes que mostravam a maior mortandade de mulheres, mas sim pela \u201cfalta\u201d. Caso, durante a epidemia do ebola dos anos 2013-2016, as estat\u00edsticas tivessem detalhado g\u00eanero, faixa et\u00e1ria e classe social dos mais atingidos, eu certamente n\u00e3o teria me voltado para os n\u00fameros, ou melhor, para a escassez deles.<\/p>\n<p>Existiam as estat\u00edsticas, mas nada comparado aos depoimentos relatados pela pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o serra-leonense. Desta forma, passei a acompanhar com frequ\u00eancia o site da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) e, apesar dos relat\u00f3rios serem di\u00e1rios, na maioria das vezes apresentavam excessos de lacunas e falta de dados sobre g\u00eanero e faixa et\u00e1ria \u2013 jamais encontrei qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 classe social. Por\u00e9m, n\u00e3o faltavam os n\u00fameros amalgamados e homogeneizadores de mortos e contaminados como se fossem todos desprovidos de marcadores sociais de diferen\u00e7a. A \u00fanica certeza era a de que se tratava de uma maioria de pessoas negras na medida em que a Serra Leoa \u00e9 um pa\u00eds de maioria negra. Os doentes e enterrados ali eram, de modo geral, negros serra-leonenses, visto que agentes de sa\u00fade brancos estrangeiros quando enfermos ou falecidos eram encaminhados para seus pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p>No entanto, durante uma crise de sa\u00fade p\u00fablica, como a epidemia do ebola na Serra Leoa ou a pandemia do novo coronav\u00edrus, dados sobre g\u00eanero, classe, ra\u00e7a e faixa et\u00e1ria s\u00e3o indispens\u00e1veis para auxiliar a arquitetura de pol\u00edticas p\u00fablicas emergenciais. A aus\u00eancia dessas informa\u00e7\u00f5es pode nos dar a impress\u00e3o equivocada que as viroses e doen\u00e7as s\u00e3o \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d, amea\u00e7ando e afetando a todos da mesma maneira. Creio que n\u00f3s, membros da sociedade civil brasileira, em tempos de dissemina\u00e7\u00e3o da Covid-19, n\u00e3o dever\u00edamos nos assegurar que caix\u00f5es estivessem ou n\u00e3o vazios de corpos, ao contr\u00e1rio, dever\u00edamos exigir que mortos e contaminados se materializassem em estat\u00edsticas detalhadas.<\/p>\n<p>Na Serra Leoa, em 2014, ano do pico da epidemia do ebola, os primeiros t\u00famulos, encontrados nos chamados \u201ccemit\u00e9rios do ebola\u201d, n\u00e3o tinham nome e os n\u00fameros de mortos n\u00e3o tinham g\u00eanero, o que era uma discrep\u00e2ncia com o fato relevante da maior percep\u00e7\u00e3o de mortandade de mulheres, em rela\u00e7\u00e3o ao falecimento de homens, de acordo com a popula\u00e7\u00e3o local. Assim como no Brasil neste momento, na Serra Leoa, no ano de 2014, morriam-se tantas pessoas ao mesmo tempo que foram necess\u00e1rias a abertura de uma imensa quantidade de covas, tantas que, em 2017, muitas delas, que n\u00e3o foram usadas para os mortos do ebola, j\u00e1 estavam prontas para receberem os corpos do grande deslizamento de terra, que matou mais de 600 pessoas, ocorrido na cidade de Freetown, no per\u00edodo das chuvas.<\/p>\n<p>Certa vez, ao constatar minha ang\u00fastia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de cuidado com os dados de g\u00eanero no que tangia \u00e0s estat\u00edsticas da epidemia do ebola, Aisha Fofana Ibrahim, professora da Universidade de Serra Leoa e minha supervisora de pesquisa, me disse \u201cdepois que uma pessoa morre&#8230; eles n\u00e3o se importam se \u00e9 \u2018ele\u2019 ou \u2018ela\u2019\u201d. Para Ibrahim, especialista na \u00e1rea dos estudos de g\u00eanero, era gritante o descaso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coleta e produ\u00e7\u00e3o deste tipo de informa\u00e7\u00e3o. No Brasil, por sua vez, pa\u00eds que se divide predominantemente entre brancos e negros e cujo o \u00faltimo grupo \u00e9 majorit\u00e1rio na popula\u00e7\u00e3o, a afirma\u00e7\u00e3o reverbera ainda mais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o racial. Para al\u00e9m de faixa et\u00e1ria\/grupo de risco, sabemos que toda crise de sa\u00fade p\u00fablica tem ra\u00e7a, g\u00eanero e classe social.<\/p>\n<pre><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1640 alignleft\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem2-225x300.png\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem2-225x300.png 225w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem2.png 381w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\nCovas abertas no \u201cCemit\u00e9rio do Ebola\u201d.\r\nAcervo Pessoal, Waterloo, Serra Leoa, 2017.<\/pre>\n<p><strong>\u201cEu n\u00e3o acredito em dados!\u201d[3]<\/strong><\/p>\n<p>Em 2017, mais de um ano e meio ap\u00f3s o fim da epidemia do ebola, retornei ao campo no pa\u00eds africano. T\u00e3o logo coloquei os p\u00e9s na capital da Serra Leoa, Freetown, encaminhei-me para o \u00f3rg\u00e3o nacional de resposta ao ebola, o NERC. Tinha a expectativa de encontrar uma maior quantidade de estat\u00edsticas de g\u00eanero relativas \u00e0 doen\u00e7a, pois esperava que o tempo tivesse sido suficiente para acumular informa\u00e7\u00f5es mais densas do que aquelas encontrados no <em>site<\/em> da OMS e do pr\u00f3prio NERC. Logo na entrada do pr\u00e9dio, percebi que muita coisa mudara, n\u00e3o havia mais movimento de cientistas e de soldados do ex\u00e9rcito. Em frente \u00e0 portaria, tr\u00eas homens conversavam para gastar o tempo tedioso de \u201cguardar\u201d um edif\u00edcio que n\u00e3o mais tinha fun\u00e7\u00e3o. Fui informada que os computadores e dados do NERC estavam sendo encaminhados para Njala University e l\u00e1 seriam expostos no Ebola Museum.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de amigos que estudavam sa\u00fade p\u00fablica em Njala, soube que o museu estava fechado e que n\u00e3o havia nada dentro da casa destinada a ele. Talvez, outro tipo de pesquisador daria por findada a busca, por\u00e9m, como antrop\u00f3loga, essa escolha n\u00e3o me parecia poss\u00edvel. Tomei sozinha um \u00f4nibus para um lugar em que nunca havia estado, percorri sete horas cruzando o pa\u00eds em um transporte apertado e barulhento, j\u00e1 desfeita das expectativas de encontrar qualquer elabora\u00e7\u00e3o sofisticada de dados da epidemia. Naquela altura, o que me movia n\u00e3o era mais saber se as estat\u00edsticas existiam, mas o que restava em Njala que justificava a perman\u00eancia de um pr\u00e9dio vazio durante tanto tempo. Vazio, mas \u00e0 espera de algo.<\/p>\n<p>Fiquei uma semana na enorme universidade rural de Njala at\u00e9 conseguir que pessoas do museu pudessem conversar comigo. O campus estava vazio, os alunos se preparavam para as provas, muitos deles em suas pr\u00f3prias comunidades. Depois de alguns dias, encontrei-me com <em>Doctor<\/em> e Daniel, ambos da \u00e1rea de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, membros de um grupo de pesquisa coordenado por um antrop\u00f3logo. Diferentemente de tudo que eu esperava, eles trabalhavam tratando os dados de uma longa pesquisa de campo realizada em in\u00fameras comunidades da Serra Leoa. Em seus computadores n\u00e3o havia \u201cdados oficiais\u201d, ao contr\u00e1rio, acumulavam-se \u201cdados de colch\u00f5es\u201d, coletados em milhares de comunidades, registrados em pequenos cadernos escolares, com capas de jogadores de futebol, dentre estes, alguns brasileiros. Nos caderninhos estavam nome e sobrenome, idade, dia da interna\u00e7\u00e3o e dia da morte por ebola. Al\u00e9m disso, atrav\u00e9s das datas e nomes era poss\u00edvel estabelecer redes de parentesco, cuidado, perigo e transmiss\u00e3o. O delicado e volunt\u00e1rio trabalho era feito por enfermeiras, professores e anci\u00e3os que tinham o dom\u00ednio da escrita, ou seja, uma minoria nessas vilas e habita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando perguntei a <em>Doctor<\/em>, que assim era chamado pois acabava de retornar de seu doutorado em tecnologia da informa\u00e7\u00e3o na Holanda, sobre as lacunas dos dados da OMS, surpreendi-me com a resposta que vinha em formato de uma ir\u00f4nica pergunta sobre se eu acreditava nos dados divulgados pela OMS. <em>Doctor<\/em> ainda completou: \u201cEu n\u00e3o acredito em dados\u201d. Apesar daquelas frases parecerem absurdas, justamente porque se tratava de um rec\u00e9m-doutor em tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, ou seja, uma ci\u00eancia de dados; as falas de <em>Doctor<\/em> n\u00e3o poderiam soar mais pertinentes e esclarecedoras. <em>Doctor<\/em> discorreu sobre subnotifica\u00e7\u00e3o e apressada coletada de n\u00fameros, acrescentando que as equipes da OMS e de outras tantas organiza\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas nunca estiveram nas comunidades e n\u00e3o conheceram suas realidades. Para <em>Doctor<\/em>, as informa\u00e7\u00f5es que poderiam propiciar melhor densidade anal\u00edtica das redes de transmiss\u00e3o estavam no dom\u00ednio das mulheres e homens das pequenas vilas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o revelador encontro com <em>Doctor <\/em>e Daniel, segui para Komende-Luyama, <em>locus <\/em>central da minha pesquisa de campo. Retornaria pela segunda vez \u00e0 comunidade da etnia mende e voltaria a morar no min\u00fasculo posto de sa\u00fade\/maternidade (sem luz ou sistema de saneamento b\u00e1sico) junto \u00e0s enfermeiras serra-leonenses Benita e Doris, esta \u00faltima, uma minuciosa coletora de dados da epidemia do ebola e uma \u201carquivista de colch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>As guardi\u00e3s (e guardi\u00f5es) dos dados<\/strong><\/p>\n<p>Antes mesmo do contato com <em>Doctor<\/em> e Daniel, ainda no retorno ao Brasil ap\u00f3s\u00a0 a minha primeira estada em campo na Serra Leoa, escrevi sobre Benita e Doris, ou \u201cO g\u00eanero da sobreviv\u00eancia: por detr\u00e1s do ebola\u201d. A partir dos <em>Subaltern Studies<\/em> (Estudos Subalternos), decidi fazer uma densa an\u00e1lise sobre a fragilidade dos ditos dados oficiais da OMS e a potencialidade dos dados guardados \u201cembaixo dos colch\u00f5es\u201d nas milhares de pequenas comunidades daquele pa\u00eds. Com Doris e Benita, enfermeiras de Komende, vivi durante bastante tempo, acompanhando os atendimentos a lactantes, gr\u00e1vidas, e tamb\u00e9m o incans\u00e1vel trabalho de ajudar diversas mulheres a parirem sem luz ou \u00e1gua tratada, em um espa\u00e7o extremamente limitado. Muitas vezes, eram mais de dois partos por dia e outros atravessando a madrugada. E, religiosamente, no dia seguinte, as enfermeiras se sentavam para preencher um grande bloco de informa\u00e7\u00f5es com nome da m\u00e3e e comunidade natal desta, data, hora do nascimento e sexo da crian\u00e7a. Eram mais de seis anos de dados detalhados, registrados diariamente. As enfermeiras serra-leonenses, de origem mende,\u00a0 se orgulhavam de nunca ter ocorrido por ali, desde que assumiram o posto de sa\u00fade, mortalidade materna e neonatal.<\/p>\n<pre><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1641 alignleft\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem3-204x300.png\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem3-204x300.png 204w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem3.png 385w\" sizes=\"(max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\nEnfermeiras Benita e Doris.\r\nAcervo pessoal, Komende-Luyama, Serra Leoa, 2017.<\/pre>\n<p>Doris, que possu\u00eda in\u00fameros cadernos com dados da epidemia do ebola na comunidade, sempre dizia: \u201cTenho tudo aqui, um dia vou escrever um livro\u201d. O delicado e sofisticado trabalho da enfermeira na coleta e organiza\u00e7\u00e3o dos dados, fez-me entender que a discuss\u00e3o sobre <em>Big Data<\/em> e <em>Open Data<\/em> ultrapassava o muro das universidades, ou seja, era imposs\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de um grande sistema aberto de dados sem inserir em sua rede de produ\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de mulheres como Doris, Benita e tantas outras parteiras, enfermeiras e professoras da zona rural da Serra Leoa.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma batalha entre os \u201cdados de colch\u00e3o\u201d e a <em>big<\/em> <em>data<\/em>, pois os primeiros acabam sendo as fontes prim\u00e1rias para a constru\u00e7\u00e3o de um grande sistema de dados. Stefaan Verhust e Andrew Young (2016) mostram em um estudo de caso sobre a situa\u00e7\u00e3o do ebola na Serra Leoa que o compartilhamento de dados tem car\u00e1ter indispens\u00e1vel na produ\u00e7\u00e3o de uma boa resposta \u00e0 crise. Os autores pontuam que mais de 99% dos agentes que atuaram na linha de frente no combate \u00e0 doen\u00e7a eram serra-leonenses. Isso nos elucida que a coleta dos primeiros dados foi feita por pessoas como Doris e Benita, ou seja, moradores de pequenas comunidades. Apenas em um segundo momento tais informa\u00e7\u00f5es eram enviadas para as ag\u00eancias do governo e as organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias que atuavam no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Verhust e Young salientam tamb\u00e9m os desafios na circula\u00e7\u00e3o de dados das comunidades locais, pois muitas vezes elas s\u00e3o de dif\u00edcil acesso, ou produzem conte\u00fado com erros de ortografia e empecilhos \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o aos meios digitais. Mas n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m, ou seja, n\u00e3o ultrapassam um olhar colonial de se fazer pesquisa e de se produzir dados. H\u00e1 anos, universidades e ag\u00eancias humanit\u00e1rias atuantes na Serra Leoa, assim como em diversos outros pa\u00edses do continente africano, seguem empregando \u201cnativos\u201d em fun\u00e7\u00f5es bra\u00e7ais, ao inv\u00e9s de contrat\u00e1-los para cargos de lideran\u00e7a e tomada de decis\u00f5es. Estas pessoas conhecem o territ\u00f3rio em que vivem no que tange \u00e0 geografia e \u00e0 cultura, mas tamb\u00e9m compreendem que o padr\u00e3o \u201cocidental\u201d da produ\u00e7\u00e3o de dados n\u00e3o funciona para uma regi\u00e3o que possui 18 l\u00ednguas. Assim, n\u00e3o existiria um padr\u00e3o de pesquisa e sim padr\u00f5es. Mais do que saber com emerg\u00eancia o n\u00famero total de contaminados e mortos pelo ebola, seria mais urgente, em virtude das caracter\u00edsticas locais, conhecer o n\u00famero de mulheres doentes na medida em que este dado poderia responder muito sobre a situa\u00e7\u00e3o de uma comunidade no \u00e1pice da epidemia.<\/p>\n<p>Os cadernos de Doris e os pequenos celulares, sem acesso \u00e0 internet, em que agentes de sa\u00fade na Serra Leoa enviavam os dados da epidemia, muitas vezes incompletos pois n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para digitar caracteres na mensagem de SMS, parecem estar muito distantes do contexto do Brasil, no entanto, o que vemos hoje \u00e9 uma sobrecarga de trabalho das mulheres agentes de sa\u00fade, que representam 85% das pessoas na linha de frente do controle e \u201ccombate\u201d \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus[4]. Al\u00e9m de se colocarem em risco na medida em que s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelo cuidado dos enfermos, as mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o as respons\u00e1veis por preencherem \u00e0 m\u00e3o os prontu\u00e1rios que ser\u00e3o os futuros dados reportados pelos \u00f3rg\u00e3os de resposta \u00e0 crise da Covid-19. Pelo excesso de trabalho e pelo reduzido acesso a outras formas de registro que n\u00e3o os relat\u00f3rios em papel, muitos dos dados de \u00f3bito acabam aparecendo de forma retardat\u00e1ria. O que agrava mais ainda a condi\u00e7\u00e3o para identificar marcadores sociais da diferen\u00e7a entre contamina\u00e7\u00f5es e \u00f3bitos. Garantir ambientes e instrumentos de trabalho adequados a estas mulheres \u00e9, sem d\u00favida, assegurar a qualidade na primeira fase da produ\u00e7\u00e3o de dados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para concluir esta breve reflex\u00e3o, lembro aqui que \u00e9 muito comum em diversas culturas o papel das mulheres como guardi\u00e3s das sementes, das velhas e dos velhos como guardi\u00f5es das hist\u00f3rias e mem\u00f3rias, dos povos tradicionais como guardi\u00f5es da natureza, dentro outros. Assim, acrescento que uma boa forma de entender a import\u00e2ncia destas enfermeiras como engrenagem indispens\u00e1vel na maquinaria do sistema de produ\u00e7\u00e3o de dados, <em>Big Data<\/em>, seria, antes de tudo, respeit\u00e1-las como as guardi\u00e3s destes mesmos dados, que sem elas n\u00e3o s\u00e3o gerados. Acrescentaria a elas, por conta da minha experi\u00eancia de campo na Serra Leoa, os coveiros, ex\u00edmios historiadores e cuidadosos guardi\u00f5es dos fatos durante uma epidemia ou pandemia. Feliz da na\u00e7\u00e3o que pudesse ter como presidente um coveiro t\u00e3o astuto e cuidadoso com os mortos e com os dados de seu pa\u00eds como Mohamed, o respons\u00e1vel pelas \u201ccovas do ebola\u201d no Cemit\u00e9rio King Tom, na cidade de Freetown.<\/p>\n<pre><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1642 alignleft\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem-4-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem-4-300x225.jpg 300w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem-4-768x576.jpg 768w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Imagem-4-1024x768.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\nMohamed, respons\u00e1vel pelas \u201cebola graves\u201d<em>, <\/em>Cemit\u00e9rio King Tom<em>.<\/em>\r\nAcervo pessoal, Freetown, Serra Leoa, 2017.<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Dados consultados em 20 de mar\u00e7o no Coronavirus Resource Center da Johns Hopkins University. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/coronavirus.jhu.edu\/map.html\">https:\/\/coronavirus.jhu.edu\/map.html<\/a><\/p>\n<p>[2] Tradu\u00e7\u00e3o da autora: After a person dies\u2026they don\u2019t matter if it\u2019s he or she. Frase da pesquisadora Dra. Aisha Fofana Ibrahim (Pimenta, 2019).<\/p>\n<p>[3] Tradu\u00e7\u00e3o da autora: I don\u2019t believe in data. Frase de <em>Doctor, <\/em>personagem-interlocutor da pesquisa de campo na Serra Leoa (Pimenta, 2019).<\/p>\n<p>[4] Ver em: <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-02\/a-luta-contra-o-coronavirus-tem-o-rosto-de-mulheres.html\">https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-05-02\/a-luta-contra-o-coronavirus-tem-o-rosto-de-mulheres.html<\/a>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas <\/strong><\/p>\n<p>PIMENTA, Denise. (2019), <em>O cuidado perigoso: tramas de afeto e risco na Serra Leoa (A epidemia do ebola contada por mulheres, vivas e mortas)<\/em>\/Denise Pimenta; orientador John Cowart Dawsey. &#8211; S\u00e3o Paulo. 351 f.\u00a0 Tese (Doutorado).<\/p>\n<p>VERHUST, Stefaan; YOUNG, Andrew. (2016), <em>OPEN DATA\u2019S IMPACT &#8211; BATTLING EBOLA IN SIERRA LEONE: Data Sharing to Improve Crisis Response<\/em>. New York: GovLab\/On Omidyar Network.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>PIMENTA, Denise. \u201cEu n\u00e3o acredito em dados!\u201d: Breve reflex\u00e3o sobre crises de sa\u00fade p\u00fablica e a produ\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas de g\u00eanero e ra\u00e7a na Serra Leoa e no Brasil.\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2020 [published 20 May 2020]. 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