{"id":1612,"date":"2020-05-14T14:51:21","date_gmt":"2020-05-14T14:51:21","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1612"},"modified":"2020-05-15T16:46:08","modified_gmt":"2020-05-15T16:46:08","slug":"pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/en\/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres\/","title":{"rendered":"Pandemia reduz submiss\u00f5es de artigos acad\u00eamicos assinados por mulheres"},"content":{"rendered":"<p>Diversos textos t\u00eam circulado nas redes ressaltando <a href=\"https:\/\/en.unesco.org\/news\/mapping-online-articles-covid-19-and-gender\">os impactos particulares da pandemia de Covid-19 na din\u00e2mica de vida das mulheres<\/a>. Embora a doen\u00e7a tenha alterado drasticamente o conv\u00edvio das pessoas, muitas das desigualdades observadas na conjuntura est\u00e3o longe de ser novidade. O confinamento \u00e0 esfera privada do lar, consequ\u00eancia do isolamento social, assevera os problemas usuais do \u00e2mbito dom\u00e9stico, que costuma figurar como <a href=\"http:\/\/www.generonumero.media\/atendimento-violencia-domestica-pandemia\/\">l\u00f3cus privilegiado de viol\u00eancia contra a mulher<\/a>, al\u00e9m de ser o espa\u00e7o onde o g\u00eanero feminino enfrenta a maior sobrecarga de trabalho n\u00e3o remunerado de cuidado e tarefas de gest\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que as mulheres gastam <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/24267-mulheres-dedicam-quase-o-dobro-do-tempo-dos-homens-em-tarefas-domesticas\">quase o dobro de tempo em afazeres dom\u00e9sticos que os homens, predomin\u00e2ncia que n\u00e3o muda mesmo quando s\u00e3o comparados perfis de g\u00eanero em ocupa\u00e7\u00f5es similares<\/a>. \u00a0Tal cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 singular ao pa\u00eds e, a despeito de todas as transforma\u00e7\u00f5es recentes no mundo do trabalho, as <a href=\"http:\/\/hdr.undp.org\/sites\/default\/files\/hd_perspectives_gsni.pdf\">desigualdades de g\u00eanero continuam a ser uma realidade global<\/a>. Apesar disso, muitos sistemas de avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica seguem ignorando essas desigualdades entre as condi\u00e7\u00f5es de homens e mulheres. Para dar somente um exemplo, os concursos para docentes em universidades p\u00fablicas no Brasil n\u00e3o adotam crit\u00e9rios formais para contrabalancear as diferen\u00e7as de curr\u00edculo dos concorrentes de acordo com aspectos como a licen\u00e7a maternidade. A inser\u00e7\u00e3o e a progress\u00e3o de carreira das mulheres na academia requer a supera\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de barreiras, dentre as quais as extenuantes jornadas de trabalho dentro e fora de seus domic\u00edlios comp\u00f5em elemento central.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de artigos ganha relev\u00e2ncia nesse contexto por ter peso substantivo nos atuais sistemas de avalia\u00e7\u00e3o do desempenho de pesquisadoras\/es, que influencia n\u00e3o s\u00f3 as possibilidades de se encontrar um emprego, como tamb\u00e9m de conquistar financiamento de projetos e visibilidade acad\u00eamica. As revistas especializadas s\u00e3o um dos principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de resultados cient\u00edficos e t\u00eam sido objeto de estudos sobre a sub-representa\u00e7\u00e3o feminina em autoria de textos[1]. Editores\/as argumentam que <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/ps-political-science-and-politics\/information\/gender-in-the-journals-continued-evidence-from-five-political-science-journals\">uma das explica\u00e7\u00f5es mais preponderantes dessas assimetrias consiste na menor regularidade com que mulheres submetem artigos \u00e0s revistas<\/a>, fator que redunda em sua menor presen\u00e7a entre os autores publicados. Em raz\u00e3o das novas rotinas durante o isolamento social, come\u00e7aram a surgir estat\u00edsticas que apontam para um decr\u00e9scimo ainda maior da inclus\u00e3o feminina em alguns desses meios. Reportagens, como as divulgadas no <a href=\"https:\/\/www.insidehighered.com\/news\/2020\/04\/21\/early-journal-submission-data-suggest-covid-19-tanking-womens-research-productivity\">Inside Higher Ed<\/a> e no <a href=\"https:\/\/www.thelily.com\/women-academics-seem-to-be-submitting-fewer-papers-during-coronavirus-never-seen-anything-like-it-says-one-editor\/\">The Lily<\/a>, ressaltam a divis\u00e3o desigual de g\u00eanero do trabalho e comentam achados de peri\u00f3dicos em rela\u00e7\u00e3o a altera\u00e7\u00f5es no fluxo editorial durante a quarentena.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel concluir de tais levantamentos padr\u00f5es diferenciados entre as revistas: algumas detectaram quedas gerais de submiss\u00f5es de mulheres, outras n\u00e3o. Existem, por sua vez, as que demonstram tend\u00eancias variadas, como a American Journal of Political Science (AJPS). <a href=\"https:\/\/ajps.org\/2020\/04\/20\/it-takes-a-submission-gendered-patterns-in-the-pages-of-ajps\/\">Segundo relat\u00f3rio de Kathleen Dolan e Jennifer Lawless<\/a>, editoras-chefes da AJPS, em pouco mais de um m\u00eas de isolamento, a submiss\u00e3o de artigos coautorados por mulheres aumentou proporcionalmente em compara\u00e7\u00e3o a anos anteriores, mas em contrapartida o envio de trabalhos de autoria individual feminina reduziu.<\/p>\n<p>A DADOS pretende colaborar para essa discuss\u00e3o tornando p\u00fablicas as informa\u00e7\u00f5es sobre a participa\u00e7\u00e3o das mulheres como autoras dos manuscritos submetidos \u00e0 nossa avalia\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos tempos. Para averiguar se a pandemia levou \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das submiss\u00f5es de mulheres, analisamos dois dados: a quantidade relativa de mulheres nas submiss\u00f5es e a quantidade de artigos com a primeira autora mulher (individuais ou coletivos). \u00c9 importante diferenciar esses modos de produ\u00e7\u00e3o porque muitas pesquisas v\u00eam indicando que as mulheres tendem a escrever mais em coautoria e menos como primeiras autoras ou sozinhas.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros sobre as submiss\u00f5es foram obtidos a partir do sistema ScholarOne, utilizado pela DADOS na administra\u00e7\u00e3o do seu fluxo editorial. Vale lembrar que, desde 2016, a revista n\u00e3o aceita mais artigos por fora desse sistema, ent\u00e3o estamos lidando com informa\u00e7\u00f5es de todo o universo de colaboradores\/as do peri\u00f3dico. Depois da extra\u00e7\u00e3o dos dados, aplicamos um algoritmo disponibilizado pelo IBGE para a imputa\u00e7\u00e3o do sexo baseado nos primeiros nomes de cada autor[2]. O algoritmo emprega a correla\u00e7\u00e3o entre sexo e determinados nomes da popula\u00e7\u00e3o brasileira, n\u00e3o funcionando apenas em 4% do universo (nomes inusuais ou estrangeiros), que terminamos por classificar manualmente.<\/p>\n<p>O <strong>Gr\u00e1fico 1<\/strong> apresenta o percentual total de mulheres que assinaram artigos como autoras ou coautoras, independentemente da ordem de autoria, em cada um dos trimestres entre 2016 e 2020.1. Vale ponderar que o presente trimestre n\u00e3o terminou. Do total de textos submetidos, 40,8% tem participa\u00e7\u00e3o de mulheres em autoria, contra 59,2% de homens. No entanto, h\u00e1 uma relevante varia\u00e7\u00e3o entre 2016 e 2019, com o percentual de mulheres oscilando entre 36% (2016.1) e 55% (2017.3) por trimestre. Mais importante ainda, h\u00e1 uma brusca queda no atual semestre: mesmo que o ano de 2020 tenha come\u00e7ado com a submiss\u00e3o de 40% de autoras, patamar pr\u00f3ximo \u00e0 m\u00e9dia, <strong>tivemos neste segundo trimestre o menor patamar do per\u00edodo analisado, com apenas 28% de autoras assinando os artigos submetidos.<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1613 size-large\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g1NOVO-1024x575.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"359\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g1NOVO-1024x575.png 1024w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g1NOVO-300x169.png 300w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g1NOVO-768x432.png 768w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g1NOVO.png 1422w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Quando observamos os dados referentes a textos com a primeira autora mulher, o cen\u00e1rio fica ainda mais preocupante. Conforme mencionamos, mulheres tendem a escrever mais coletivamente e menos a assinar artigos como primeiras autoras em compara\u00e7\u00e3o com os homens. No nosso caso, a m\u00e9dia de manuscritos com as primeiras autoras mulheres entre 2016 e 2020.1 foi de 37%, mas <strong>esse patamar caiu substantivamente para 13% neste trimestre<\/strong>. Al\u00e9m de o menor percentual hist\u00f3rico do per\u00edodo analisado, trata-se de menos da metade da m\u00e9dia para os anos considerados.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1615 size-large\" src=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g2NOVO-1-1024x574.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"359\" srcset=\"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g2NOVO-1-1024x574.png 1024w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g2NOVO-1-300x168.png 300w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g2NOVO-1-768x431.png 768w, https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/DADOS_g2NOVO-1.png 1420w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>A ordem de autoria importa n\u00e3o apenas por ser um \u00edndice das hierarquias internas \u00e0s colabora\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, mas tamb\u00e9m porque serve de sinal dos efeitos da pandemia na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Ela sugere que aquelas mulheres que coautoram textos ainda v\u00eam conseguindo contornar parcialmente as press\u00f5es cotidianas e submeter seus manuscritos. J\u00e1 aquelas que escrevem solitariamente ou est\u00e3o \u00e0 frente de uma determinada pesquisa parecem ser as mais atingidas.<\/p>\n<p>Esses dados s\u00e3o preliminares e demandam cautela anal\u00edtica. Pretendemos monitorar essas assimetrias nos pr\u00f3ximos meses para determinar se elas se manter\u00e3o ou aprofundar\u00e3o. De todo modo, os n\u00fameros refor\u00e7am uma tend\u00eancia internacional e s\u00e3o suficientes para ligar um alerta. \u00c9 preciso abrir um debate acad\u00eamico sobre eventuais procedimentos que incentivem a submiss\u00e3o de manuscritos de autoria de mulheres de modo geral e durante a pandemia especificamente. Sabemos que tal contexto reflete problemas sociais muito mais s\u00e9rios e antigos. Isso n\u00e3o deve servir, contudo, como justificativa para aceita\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica das desigualdades de g\u00eanero constatadas. Se a ci\u00eancia \u00e9 uma das nossas maiores aliadas na eventual sa\u00edda ou mitiga\u00e7\u00e3o desta crise, cabe questionar continuamente os mecanismos que afastam as mulheres dos canais de interven\u00e7\u00e3o e delibera\u00e7\u00e3o p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] A produ\u00e7\u00e3o sobre o tema \u00e9 bastante extensa. Para dados sobre as \u00e1reas das Ci\u00eancias Sociais no Brasil, ver, por exemplo: <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1057\/s41304-016-0077-4\">Carpiuc (2016)<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0011-52582017000300623&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\">Campos, Feres J\u00fanior e Guarnieri (2017)<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/pdf\/ref\/v27n2\/1806-9584-ref-27-02-e54033.pdf\">Mendes e Figueira (2019).<\/a><\/p>\n<p>[2] Gostar\u00edamos de agradecer ao mestrando em Ci\u00eancia Pol\u00edtica Andr\u00e9 F\u00e9lix por nos auxiliar nesta etapa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Como citar este post<\/h3>\n<p>CANDIDO, Marcia Rangel; CAMPOS, Luiz Augusto. Pandemia reduz submiss\u00f5es de artigos acad\u00eamicos assinados por mulheres,\u00a0<em>Blog DADOS<\/em>, 2020 [published 14 May 2020]. Available from:\u00a0<a href=\"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres\/\">http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diversos textos t\u00eam circulado nas redes ressaltando os impactos particulares da pandemia de Covid-19 na din\u00e2mica de vida das mulheres. Embora a doen\u00e7a tenha alterado drasticamente o conv\u00edvio das pessoas, muitas das desigualdades observadas na conjuntura est\u00e3o longe de ser novidade. 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