{"id":1431,"date":"2019-11-27T18:20:58","date_gmt":"2019-11-27T18:20:58","guid":{"rendered":"http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/?p=1431"},"modified":"2019-12-16T19:07:19","modified_gmt":"2019-12-16T19:07:19","slug":"manufaturando-um-falso-consenso-sobre-o-baixo-impacto-internacional-da-ciencia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dados.iesp.uerj.br\/en\/manufaturando-um-falso-consenso-sobre-o-baixo-impacto-internacional-da-ciencia-brasileira\/","title":{"rendered":"Manufaturando um falso consenso: sobre o baixo impacto internacional da ci\u00eancia brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Paulatinamente, vem se formando no Brasil um consenso equivocado sobre nossa produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Segundo ele, apesar de estarmos entre as vinte na\u00e7\u00f5es que mais publicam artigos acad\u00eamicos, estes possuiriam um impacto internacional p\u00edfio. Esta \u00e9, por exemplo, a opini\u00e3o expressada e reiterada pelo <a href=\"https:\/\/twitter.com\/Prof_AndersonC\/status\/1175015686445420546?s=20\">atual presidente da CAPES, Anderson Correia<\/a>. Dessa perspectiva, ter\u00edamos que remodelar nossos instrumentos de fomento \u00e0 ci\u00eancia, incentivando o incremento das cita\u00e7\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es internacionais em detrimento das revistas brasileiras com pouco ou nenhum impacto.<\/p>\n<p>Vale mencionar que tal pol\u00edtica j\u00e1 se reflete em restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias e burocr\u00e1ticas. Do lado do fomento, <a href=\"http:\/\/resultado.cnpq.br\/2070386160414233\">o CNPq divulgou h\u00e1 poucas semanas o resultado preliminar do seu programa editorial, o qual financiar\u00e1 apenas 50 peri\u00f3dicos em um universo de mais de 200 solicitante<\/a>s. Embora a ag\u00eancia n\u00e3o tenha revelado os crit\u00e9rios para tamanha restri\u00e7\u00e3o, a lista de contemplados sugere a utiliza\u00e7\u00e3o de \u00edndices internacionais como o <a href=\"https:\/\/www.scimagojr.com\/journalrank.php\">Fator de Impacto<\/a>\u00a0na defini\u00e7\u00e3o dos poucos contemplados. Do lado da avalia\u00e7\u00e3o, o sistema Qualis-CAPES passa por uma profunda remodela\u00e7\u00e3o e, ao que tudo indica, passar\u00e1 a espelhar as m\u00e9tricas internacionais de ranqueamento num chamado \u201cQualis de Refer\u00eancia\u201d, o que implicaria consolidar a exclus\u00e3o do rol de peri\u00f3dicos financi\u00e1veis quase tr\u00eas quartos de nossas revistas. N\u00e3o deixa de ser paradoxal que a publica\u00e7\u00e3o de artigos acad\u00eamicos em revistas qualificadas seja o principal crit\u00e9rio para a distribui\u00e7\u00e3o de financiamento de pesquisa no Brasil e no mundo, mas essas mesmas revistas estejam assistindo \u00e0 extin\u00e7\u00e3o do financiamento para elas pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>No geral, est\u00e3o corretos os <a href=\"https:\/\/www.capes.gov.br\/36-noticias\/8726-documento-disponibilizado-a-capes-apresenta-desempenho-e-tendencias-na-pesquisa-brasileira\">n\u00fameros mobilizados<\/a> para justificar o diagn\u00f3stico de que publicamos muitos artigos de baixo impacto internacional. Apesar disso, tal diagn\u00f3stico padece de s\u00e9rias falhas, n\u00e3o apenas por desconsiderar os efeitos do isolamento mundial de nossa l\u00edngua franca, o portugu\u00eas, mas tamb\u00e9m porque interpreta equivocadamente as diferentes estrat\u00e9gias que um pa\u00eds pode adotar para fomentar as descobertas e debates cient\u00edficos. Embora os artigos aqui publicados tenham menor impacto que aqueles assinados por nossos cong\u00eaneres colombianos, argentinos e chilenos, por exemplo, o portugu\u00eas \u00e9 hoje <a href=\"https:\/\/scholar.google.com.br\/citations?view_op=top_venues&amp;hl=pt-BR\">a segunda l\u00edngua com mais cita\u00e7\u00f5es cient\u00edficas m\u00e9dias de acordo o \u00edndice h5 do Google Scholar, \u00e0 frente do espanhol e do franc\u00eas, s\u00f3 atr\u00e1s do ingl\u00eas.<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel desconsiderar o peso que a ci\u00eancia produzida e comunicada em l\u00edngua inglesa tem no mundo, peso este que espelha em parte suas vantagens econ\u00f4micas gerais. Logo, todo pa\u00eds perif\u00e9rico que deseja competir nesse mercado editorial cient\u00edfico tem de formular uma t\u00e1tica de internacionaliza\u00e7\u00e3o que combine elementos de duas estrat\u00e9gias polares. Uma seria equivalente \u00e0 \u201cdolariza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do mercado cient\u00edfico\u201d, isto \u00e9, incorporar nas ag\u00eancias financiadoras nacionais as m\u00e9tricas e bases internacionais \u2013 leia-se, angl\u00f3fonas \u2013 como crit\u00e9rios de distribui\u00e7\u00e3o de investimentos. Com as devidas propor\u00e7\u00f5es e particularidades, esse \u00e9 o caso de pa\u00edses como o Chile, parcialmente da Argentina e recentemente da Col\u00f4mbia, os quais recompensam seus acad\u00eamicos com bolsas e pr\u00eamios quando eles publicam em peri\u00f3dicos de relevo \u201cinternacional\u201d. Outra t\u00e1tica \u00e9 investir na forma\u00e7\u00e3o de um &#8220;mercado nacional cient\u00edfico&#8221; que mire no \u201cfortalecimento da moeda lingu\u00edstica local\u201d, caminho adotado pelo Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas e hoje em xeque.<\/p>\n<p>De fato, a analogia mercadol\u00f3gica tem seus limites, haja vista o fato de estarmos falando de \u201cprodutos\u201d muito mais et\u00e9reos como descobertas e interpreta\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Ainda assim, ela funciona na medida em que evidencia as vantagens e desvantagens de cada uma das estrat\u00e9gias. Enquanto a \u201cdolariza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d permite aos pa\u00edses participarem da competi\u00e7\u00e3o internacional com muito mais desenvoltura, ela tem como contrapartida a rendi\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia local \u00e0s problem\u00e1ticas, crit\u00e9rios de publica\u00e7\u00e3o e regras internacionais. Vale mencionar, tamb\u00e9m, que a met\u00e1fora adquire tons denotativos quando observamos o mercado internacional de publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, muito mais voltado para o lucro financeiro e a venda de assinaturas ou de espa\u00e7os nas revistas do que o existente no Brasil.<\/p>\n<p>De todo modo, o fortalecimento das moedas cientificas nacionais de fato pode isolar a academia de um pa\u00eds das descobertas internacionais, mas tende a ter como consequ\u00eancia uma maior conex\u00e3o daquela com as problem\u00e1ticas locais, al\u00e9m do fortalecimento das \u00e1reas estrat\u00e9gicas para o desenvolvimento de uma dada na\u00e7\u00e3o. No caso do Brasil em espec\u00edfico, formou-se um mercado de comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica baseado nas pr\u00e1ticas de acesso aberto, fomentadas sobretudo pelo <a href=\"http:\/\/scielo.br\/\">SciELO<\/a>, padr\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que se tornou modelar e \u00e9 agora imitado por muitos pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>Outro dado importante \u00e9 a relativa endogenia entre o n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es de um artigo, revista ou l\u00edngua em uma dada base e a soma total de artigos e revistas indexados naquela base. A quantidade de artigos publicados por um pa\u00eds costuma ser medida a partir do n\u00famero de entradas das revistas deles nas principais bases de indexa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica internacionais como Scopus, Web of Science, SciELO etc; j\u00e1 o impacto cient\u00edfico de um artigo espec\u00edfico costuma ser medido pelos \u00edndices de cita\u00e7\u00e3o como Fator de Impacto, JCR, h5 etc. Logo, um pa\u00eds que tenha muitos peri\u00f3dicos indexados em uma dada base tende for\u00e7osamente a ter mais impacto nela. Em parte, \u00e9 por isso que os EUA figuram como pot\u00eancia isolada em termos de cita\u00e7\u00f5es: n\u00e3o apenas porque seus cientistas publicam mais descobertas relevantes, mas tamb\u00e9m porque o pa\u00eds possui uma quantidade incompar\u00e1vel de revistas indexadas nas mesmas bases que medem tal impacto.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o Brasil escolheu incentivar as publica\u00e7\u00f5es internacionais sem descuidar do fomento a um universo de comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pr\u00f3prio. Mutatis mutandis, o pa\u00eds investiu tamb\u00e9m na pr\u00f3pria moeda lingu\u00edstica em vez de dolarizar por completo sua economia e render-se \u00e0 for\u00e7a do ingl\u00eas como l\u00edngua franca. Tal op\u00e7\u00e3o tem um custo evidente: nossos \u201cprodutos\u201d cient\u00edficos circulam menos pelo mundo, o que se reflete em nossos ainda baixos \u00edndices de cita\u00e7\u00e3o internacionais. Mas tamb\u00e9m ela tem vantagens palp\u00e1veis como a forma\u00e7\u00e3o de \u00e1reas cient\u00edficas orientadas pelos problemas e demandas nacionais.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, s\u00e3o justamente essas \u00e1reas \u201cmais nacionais\u201d que tendem a se gabaritar para a competi\u00e7\u00e3o internacional. Noutros termos, as \u00e1reas disciplinares brasileiras mais fortes internacionalmente s\u00e3o justamente aquelas mais conectadas aos problemas nacionais. Esse \u00e9 o caso das Ci\u00eancias da Sa\u00fade e toda produ\u00e7\u00e3o ligada \u00e0s doen\u00e7as tropicais, secundarizadas pela ci\u00eancia do norte global; da Agronomia de ponta produzida no pa\u00eds do mundo que mais exporta commodities; da Sa\u00fade Coletiva e sua \u00eanfase nos determinantes sociais do bem-estar humano; dos estudos sobre Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, \u00e1rea na qual o pa\u00eds enfrenta problemas s\u00e9rios, mas ainda tem muito a avan\u00e7ar; na Enfermagem e sua \u00eanfase em cuidados b\u00e1sicos, tradicionalmente negligenciados pela Medicina global.<\/p>\n<p>Note-se que nos exemplos citados, o fortalecimento da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional, comunicada ao menos num primeiro momento em portugu\u00eas, foi a base para sua consequente internacionaliza\u00e7\u00e3o. Decorr\u00eancia disso \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/scholar.google.com.br\/citations?view_op=top_venues&amp;hl=pt-BR&amp;vq=pt\">do portugu\u00eas como segunda l\u00edngua cujos artigos acumulam mais cita\u00e7\u00f5es de acordo com o \u00edndice h5 do Google<\/a>. Nesse quesito, estamos a frente do espanhol, do franc\u00eas e do chin\u00eas, perdendo apenas para o ingl\u00eas. Isso n\u00e3o quer dizer, evidentemente, que o Brasil e os demais pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa formem a segunda pot\u00eancia mundial em termos de cita\u00e7\u00e3o\/impacto, mas sim que muitos pa\u00edses n\u00e3o angl\u00f3fonos (como Argentina, Chile, Col\u00f4mbia, China etc.) est\u00e3o preferindo incentivar a publica\u00e7\u00e3o em peri\u00f3dicos estrangeiros angl\u00f3fonos em detrimento do fomento a um mundo editorial nacional.<\/p>\n<p>De todo modo, \u00e9 simpl\u00f3rio dizer que a ci\u00eancia brasileira produz muito e impacta pouco. E o risco de reduzir os investimentos numa estrat\u00e9gia de fortalecimento de uma mercado cientifico-editorial nacional sem uma alternativa clara \u00e9 eliminar todas as conquistas arduamente acumuladas sem os benef\u00edcios de uma nova t\u00e1tica.<\/p>\n<p><b>Como citar este post :<\/b><\/p>\n<div class=\"how-to-cite\">CAMPOS, Luiz A. Manufaturando um falso consenso: sobre o baixo impacto internacional da ci\u00eancia brasileira [online].\u00a0<i>Revista Dados<\/i>, 2019 [viewed December 2019]. Available from:\u00a0http:\/\/dados.iesp.uerj.br\/manufaturando-um-falso-consenso-sobre-o-baixo-impacto-internacional-da-ciencia-brasileira\/<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulatinamente, vem se formando no Brasil um consenso equivocado sobre nossa produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Segundo ele, apesar de estarmos entre as vinte na\u00e7\u00f5es que mais publicam artigos acad\u00eamicos, estes possuiriam um impacto internacional p\u00edfio. 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