Dados é uma das principais e mais longevas publicações nas ciências sociais no Brasil. Criada em 1966, divulga trabalhos inéditos e inovadores, oriundos de pesquisa acadêmica, de autores brasileiros e estrangeiros. Editada pelo IESP-UERJ, é seu objetivo conciliar o rigor científico e a excelência acadêmica com ênfase no debate público a partir da análise de questões substantivas da sociedade e da política.
Hoje, celebramos o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência. Ao longo dos últimos anos, DADOS tem procurado colaborar nessas datas simbólicas produzindo diagnósticos sistemáticos sobre suas próprias práticas editoriais (Campos e Candido, 2022). Já publicamos um histórico da participação das fundadoras das ciências sociais na revista, acompanhado de um levantamento das desigualdades de gênero na autoria de nossos artigos e de um balanço das autoras mais citadas. Elaboramos também um guia de publicações de gênero na revista. Outro exemplo foi durante a Covid-19, quando implementamos um monitoramento do impacto da pandemia nas submissões, o que gerou debate público e repercussão em grandes jornais no Brasil.
No presente texto, propomos analisar algumas das implicações da ciência aberta para a promoção da participação de mulheres nas publicações acadêmicas. Embora as desigualdades de gênero sejam um tema candente na ciência, o movimento de ciência aberta avançou sem dar muita atenção ao problema. Em 2019, o projeto GenderAction, apoiado pela União Europeia, publicou um relatório revelando que a maioria das políticas e pesquisas que abordavam ciência aberta não incluíam considerações sobre gênero, apesar das consequências que diversas mudanças nos processos editoriais podiam gerar na diversidade de autoria. O documento recomendou a elaboração e divulgação sistemáticas de dados desagregados por sexo/género em todas as fases da ciência aberta, a fim de permitir a avaliação de efeitos potencialmente diferenciados sobre os grupos sociais.
Abaixo tratamos de quatro desafios particulares deste assunto às editoriais científicas.
Desigualdades nas publicações científicas?
As desigualdades de gênero na ciência são multidimensionais e se articulam com raça, classe, origem geográfica, geração, orientação sexual etc. Em meio a esse problema complexo, a editoria científica ocupa uma posição estratégica, pois ela não apenas orienta a seleção do que será publicado, como define padrões de excelência, consagra agendas de investigação e influencia na construção de reputações acadêmicas. Ainda mais relevante: é a equipe editorial que conhece o lado sigiloso dos processos de avaliação anônima. Tal grupo de pessoas tem acesso privilegiado às inovações científicas e ao que especialistas determinam sobre elas.
O conhecimento sobre o fluxo editorial ganhou centralidade no texto, de alguma maneira já clássico, de Dawn Teele e Kathleen Thelen (2017), “Gender in the Journals: Publication Patterns in Political Science”, que saiu na PS: Political Science & Politics. As autoras analisaram artigos publicados entre 2000 e 2015 nas dez principais revistas de ciência política em língua inglesa e identificaram três achados centrais: a sub-representação persistente de mulheres nas publicações, a sua menor presença em artigos de autoria individual, modalidade ainda dominante nos periódicos de maior prestígio, e uma distribuição desigual por subáreas e abordagens metodológicas, com maior concentração feminina em campos menos centrais no mainstream disciplinar.
Um dos pontos decisivos ao debate público, contudo, apareceu quando Teele e Thelen argumentaram que análises baseadas apenas em artigos publicados eram insuficientes para determinar a origem da desigualdade. Era necessário tornar públicos dados sobre submissões e processos de avaliação para responder a uma pergunta: as mulheres publicam menos porque submetem menos ou porque são mais rejeitadas? Tratava-se, então, de verificar se os processos editoriais eram discriminatórios. Como resposta, editores de diversos periódicos de ciência política publicaram análises de seus próprios fluxos editoriais em um simpósio (Brown e Samuels, 2018). O padrão identificado foi relativamente convergente: as taxas de aceitação de artigos submetidos por mulheres não eram inferiores às dos homens. A principal diferença era anterior, ou seja, no volume de submissões. Mulheres submetiam menos artigos.
De lá para cá, mais estudos, sobre diferentes contextos geográficos, foram publicados. Ainda que a participação de mulheres varie entre as áreas das ciências sociais, a evidência de que elas submetem menos textos segue a se repetir, confirmada também em DADOS (Campos e Candido, 2022). Tornar público este dado auxilia a comunidade científica a propor soluções mais bem informadas para enfrentar as desigualdades de gênero nas publicações científicas. Na editoria, os incentivos para melhor o cenário podem ser, por exemplo, (1) fazer um fast track de pesquisas com autoria de mulheres, (2) em casos de empate entre pareceres, buscar favorecer a decisão daquele que é mais positivo, ou, (3) convocar dossiês específicos com estímulo à autoria feminina.
Transparência como valor e discriminação como ameaça
A ciência aberta propõe ampliar a transparência, a acessibilidade e a reprodutibilidade da pesquisa científica por meio da divulgação de bases de dados e códigos, do detalhamento dos procedimentos metodológicos, da permissão da submissão de manuscritos via preprints e da possibilidade de quebra da revisão anônima por pares. Transparência, nesse enquadramento, não é apenas um princípio normativo, mas um mecanismo de prestação de contas à comunidade científica e à sociedade como um todo. Em tese, ao tornar mais partes do processo de avaliação visíveis, aumentamos os potenciais de monitoramento das desigualdades.
No entanto, um dos pontos mais controversos do movimento de ciência aberta é a abertura do processo de avaliação anônima, na qual identidades de autores e pareceristas podem ser reveladas. Em contextos marcados por desigualdades estruturais, a exposição de identidades pode ampliar vieses implícitos. Um documento da Coalition for Diversity and Inclusion in Scholarly Communications, publicado em 2024, abordou este desafio convidando os editores a fazer experimentos com a finalidade de identificar qual o modelo de avaliação seria mais eficaz na redução de preconceitos e discriminações, sendo eles: (1) a revisão por pares duplamente anônima (em que nem os autores nem os revisores são identificados), (2) o fluxo de trabalho triplamente anônimo (em que os editores também não conhecem a identidade dos autores) ou (3) revisão por pares totalmente aberta (submissões via preprints e indentidade de pareceristas publicizadas).
A equipe de DADOS acompanhou esse debate desde o início e vem sistematizando informações sobre ele.
Escolhas para uma ciência aberta: o que fazemos em DADOS?
Diante deste cenário incerto para as desigualdades, optamos por uma transição híbrida. Passamos a aceitar submissões via preprints, nas quais os autores tornam públicos seus manuscritos antes da avaliação formal, mas mantivemos também a avaliação duplamente anônima tradicional. Além disso, consultamos pareceristas sobre o desejo de revelar suas identidades e criamos uma nova modalidade de publicação, a de “Comentários Críticos”. Ela consiste na divulgação de comentários críticos sobre artigos lançados em nossas edições, o que possibilita que pareceristas reaproveitem seus pareceres e fomentem o debate público.
Até o momento, a adesão da comunidade científica à submissão via preprints permanece limitada e não identificamos indícios de agravamento das desigualdades de gênero. Dentre as poucas submissões que recebemos por essa via e foram aceitas para publicação, incluem-se trabalhos com liderança de mulheres, como o de Fernanda Beigel et al. (2024), e com participação de mulheres, como o de Erica Castilho Rodrigues com Mauricio Ernica e José Soares (2025). No âmbito da abertura dos pareceres, o avanço também foi tímido. O desafio mais complexo tem sido a abertura das bases de dados.
Entendemos a replicabilidade como a exigência de explicitar o percurso metodológico entre problema e conclusões, disponibilizar os dados necessários à verificação dos resultados e, quando possível, compartilhar rotinas computacionais que permitam sua reprodução (Schaefer et al., 2023). Experimentos conduzidos pelo nosso editor de replicabilidade, Bruno Schaefer, indicam que cientistas políticos disponibilizam bases de dados com maior frequência do que sociólogos nos artigos aprovados em DADOS, provavelmente em função da maior centralidade de métodos quantitativos na disciplina (Figueiredo et al., 2021).
Esse padrão dialoga com desigualdades de gênero pré-existentes: mulheres estão sub-representadas na ciência política e submetem menos artigos (Campos e Candido, 2021). Contudo, entre os artigos aceitos com mulheres como primeiras autoras, 60% disponibilizam bases de dados, contra 58% nos casos de homens (Schaefer et al., 2026). O problema, portanto, não parece residir em menor adesão feminina às políticas de abertura, mas em desigualdades estruturais que antecedem essa etapa — disciplinares, institucionais e profissionais.
Monitorar desigualdades na ciência aberta
A editoria científica é, em grande medida, um trabalho não remunerado, realizado sob exigências contínuas de tempo e responsabilidade. Monitorar desigualdades exige esforço adicional: coleta de dados, sistematização e análise. Nem todas as equipes dispõem de infraestrutura ou apoio institucional para fazê-lo. Ainda assim, se parte das desigualdades se produz ao longo dos diferentes estágios do processo editorial, da submissão à decisão, tornar esses estágios mais visíveis pode ser um caminho de aprendizado coletivo. Não se trata de presumir vieses, mas de criar condições para identificá-los e enfrentá-los quando existirem.
Essa agenda dialoga com compromissos internacionais mais amplos, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente a promoção da igualdade de gênero (ODS 5), a redução das desigualdades (ODS 10) e o fortalecimento da inovação científica (ODS 9). Celebrar este dia, para nós, significa contribuir para esse movimento: avançar na transparência dos processos editoriais e colaborar para que a ciência aberta também seja um espaço de ampliação, e não de reprodução, das desigualdades.
Referências
Beigel, Fernanda, et al. (2024), “La Producción Científica Indexada en América Latina. Diversidad Disciplinar, Colaboración Institucional y Multilingüismo en SciELO y Redalyc (1995-2018).” DADOS, v.67, n.1. Disponível em: https://doi.org/10.1590/dados.2024.67.1.307
Brown Nadia; Samuels David. (2018), “Introduction to Gender in the Journals, Continued: Evidence from Five Political Science Journals”. PS: Political Science & Politics, 51(4):847-848. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S1049096518000598
Campos, Luiz Augusto; Candido, Marcia Rangel. (2022), “Transparência em DADOS: submissões, pareceristas e diversidade no fluxo editorial dos últimos anos”. DADOS, v.65, n.1. Disponível em: https://doi.org/10.1590/dados.2022.65.1.000
Coalition for Diversity and Inclusion in Scholarly Communications. A focused toolkit for journal editors and publishers. C4DISC, 2024. Available at: https://c4disc.pubpub.org/toolkit-editors-and-publishers
Ernica, Mauricio; Rodrigues, Erica; Soares, José. (2025), “Desigualdades Educacionais no Brasil Contemporâneo: Definição, Medida e Resultados”. DADOS, v.68, n.1. Disponível em: https://doi.org/10.1590/dados.2025.68.1.345
Figueiredo, Dalson. et al., 2021 (2021). “Metodologias de pesquisa em ciência política: Uma breve introdução”. BIB – Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, 94. https://bibanpocs.emnuvens.com.br/revista/article/view/175
Genderaction. (2019). Report on strategic advice for enhancing the gender dimension of Open Science and Innovation policy (Deliverable D11). European Union. Published online in 2021. Disponível em: https://h2020.genderaction.eu/wp-content/uploads/2021/02/GENDERACTION_D11_Report-on-Strategic-advice-for-enhancing-the-gender-dimension-of-Open-Science-and-Innovation-Policy.pdf
Schaefer, Bruno et al. “Editorial: Transparência, Replicabilidade e Reprodutibilidade em DADOS”. DADOS, 2026, no prelo.
Schaefer, Bruno; Campos, Luiz Augusto; Candido, Marcia. Revista DADOS creates special editorial office on replicability [online]. SciELO in Perspective, 2023 [viewed 11 February 2026]. Available from: https://blog.scielo.org/en/2023/10/20/revista-dados-creates-special-editorial-office-on-replicability/
Telle, Dawn; Thelen, Kathleen. (2017), “Gender in the Journals: Publication Patterns in Political Science”. PS: Political Science & Politics, 50(2):433-447. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S1049096516002985
Marcia Rangel Candido é Investigadora no CIES e Professora no Mestrado de Ciência Política, ambos no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). É editora adjunta de DADOS.
Luiz Augusto Campos é Professor de Sociologia e Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). É editor-chefe de DADOS.
Candido, Marcia Rangel; Campos, Luiz Augusto. “Meninas e mulheres na ciência aberta: quatro desafios à editoria científica”. Blog DADOS, 2026 [published 11 Feb 2026]. Available from: https://dados.iesp.uerj.br/mulheres-ciencia-aberta-desafios-editoria/
Tags:Ciência Aberta, desigualdades, Gênero