O que leva os países da América Latina e Caribe a alterarem drasticamente suas políticas externas?

Ítalo Sposito


Publicado no blog Scielo em Perspectiva – Humanas em 09/04/2020

Ítalo Beltrão Sposito, Professor adjunto, Universidade Federal do Tocantins, Porto Nacional, TO, Brasil

Os pesquisadores que trabalham com política externa tradicionalmente partem do pressuposto que ela tem características de política de Estado e não de governo, sendo marcada pela continuidade e objetivos de longo prazo. No entanto, rupturas e mudanças abruptas em política externa, além de inesperadas, são correntes e trazem impactos significativos para o país, seus vizinhos e ao sistema internacional. Tentando explicar quando os tomadores de decisões optam por imprimir novos rumos na política externa, estudo sistematiza o conceito de “janela política” – originalmente proposto por Kingdon (1984) e amplamente replicado por autores que estudaram mudanças em política externa – momentos relacionados a mudanças ou crises políticas, que surgem como uma oportunidade para atores políticos inserirem novas propostas na agenda. No artigo “Mudança na política externa dos estados Latino-Americanos e Caribenhos: uma análise baseada nas votações da Assembleia Geral das Nações Unidas”, publicado no periódico DADOS – Revista de Ciências Sociais (v. 62, n. 4), consegue-se elencar alguns eventos e fatores internacionais e domésticos que aumentam significativamente as chances de Estados da América Latina e do Caribe promoverem alterações extremas e abrangentes em suas políticas externas.

Utilizando dados de votações na Assembleia Geral das Nações Unidas como forma de identificar o comportamento internacional dos Estados (STREZHNEV; VOETEN, 2013) e estudos de casos em observações não bem explicadas pelo modelo estatístico, o autor analisa o período que vai desde o final da Segunda Guerra Mundial até o final da primeira década deste século. Como resultado, identificou que ferramentas de pressão externa – principalmente originadas nos Estados Unidos – como alterações no nível de repasse financeiro, imposição de embargos econômicos e, em última instância e com impacto mais determinante, intervenções militares contra regimes adversários aumentam as chances de ruptura na política externa de um país-alvo. Ao passo que as ferramentas de aliciamento e pressão econômica levam líderes a reverem suas diretrizes internas, as intervenções geram a ascensão de novos líderes que implementam ideias reformistas que já defendiam anteriormente.

No âmbito interno, mudanças de líder e de regime também podem gerar como resultado a abertura da janela. Ainda assim, estes câmbios internos só têm impactos significativos quando de fato levam à substituição do grupo político no poder, mostrando de outra maneira que as mudanças mais extremas não resultam da revisão de diretrizes por líderes, mas da entrada de atores políticos que já defendiam ideias reformistas anteriormente.

Referências

KINGDON, John W. Agendas, alternatives, and public policies. Boston, Mass: Little, Brown and Co, 1984.

STREZHNEV, A. and VOETEN, E. United Nations General Assembly Voting Data. 2013. Available from: https://dataverse.harvard.edu/dataset.xhtml;jsessionid=650f2355441b81b

Para ler o artigo, acesse

SPOSITO, Í. B. Mudança na Política Externa dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos: Uma Análise Baseada nas Votações da Assembleia Geral das Nações Unidas. Dados [online]. 2019, vol. 62, no. 4, e20160012, ISSN 0011-5258 [viewed 2020 January 20]. DOI: 10.1590/001152582019193. Available from: http://ref.scielo.org/tvcxqv

Links externos

Dados – Revista de Ciências Sociais – DADOS: www.scielo.br/dados

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:
SPOSITO, Í. B. O que leva os países da América Latina e Caribe a alterarem drasticamente suas políticas externas? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed 10 April 2020]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/04/09/o-que-leva-os-paises-da-america-latina-e-caribe-a-alterarem-drasticamente-suas-politicas-externas/