A segregação de gênero no ensino superior brasileiro, 2002-2016

Equipe NIED-IFCS-UFRJ*


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Introdução[1]

No Brasil e no mundo, atualmente, mulheres têm em média mais anos de estudo do que homens, assim como também maior presença nos níveis educacionais mais avançados: o ensino superior e a pós-graduação. Apesar disso, mulheres seguem apresentando desvantagem em vários resultados socioeconômicos como rendimentos, status ocupacional ou qualidade do emprego. Um componente importante para entender porque homens e mulheres têm retornos diferentes no mercado de trabalho é a segregação ocupacional. Os salários de homens e mulheres não são iguais, em parte, porque eles e elas trabalham em diferentes ocupações, e, em média, as ocupações com sobrerrepresentação masculina têm remuneração maior. Entre os indivíduos mais escolarizados este tipo de hiato se repete.

Se entender a segregação ocupacional é importante, entender o que a alimenta também é. Isso significa dizer que só é possível compreender a segregação ocupacional para homens e mulheres que atingem um ponto de alta escolarização – o ensino superior – se analisamos a segregação das escolhas educacionais antes da entrada no mercado de trabalho, ou seja, qual tipo de curso homens e mulheres frequentam. A seguir, resumimos nossa contribuição para este debate no âmbito da pesquisa “Azul ou rosa? A segregação de gênero das escolhas educacionais no ensino superior brasileiro, 2002-2016” realizada pela equipe do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Desigualdade da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

1. A reversão da desigualdade de gênero no ensino superior: o caso brasileiro

A partir da década de 1960, houve uma tendência global de aumento do número de estudantes matriculados no nível superior de ensino, resultado de um processo de intensa expansão da educação terciária em diversos países (SCHOFER e MEYER, 2005). Esse processo foi concomitante com uma maior participação de mulheres em níveis educacionais mais elevados, provocando uma reversão da tendência da desigualdade de gênero nesses níveis de escolaridade, favorecendo mulheres ao redor do globo, inclusive no Brasil. Segundo Alves (2003), a reversão do hiato de gênero na educação foi a maior conquista das mulheres brasileiras no século passado. Beltrão e Alves (2009), mobilizando dados de diferentes Censos Demográficos, documentam quando ocorreu a reversão desse hiato a favor das mulheres. Seguindo o grupo etário de 10-14 anos, os autores constatam que o fenômeno pode ser identificado desde o Censo de 1960.

Nossos resultados endossam essa afirmação. Mobilizamos dados da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar de 2014 para entender o padrão de representação de homens e mulheres com ensino superior concluído no país. Calculamos a razão de chances (odds ratio) para mulheres e homens com ensino superior completo para mulheres de 30 a 34 anos no Brasil. Para obter as chances de cada grupo, dividimos o número total de homens e mulheres com ensino superior completo por aqueles que não o tinham. Em seguida, dividimos essas duas razões entre si, com as mulheres no numerador e os homens no denominador. O resultado final, isto é, a razão de chances, comunica se há paridade na representação (se o número for próximo de 1), sub-representação do grupo que está no numerador (número menor que 1) ou sobrerrepresentação (número maior que 1).

Avaliando esse grupo, nossos resultados endossam o que outras pesquisas anteriores encontraram (BELTRÃO e ALVES, 2009; RIBEIRO e SCHLEGEL, 2015): a sobrerrepresentação das mulheres entre os concluintes do ensino superior é de 1,6. Ou seja, para cada homem com ensino superior de 30-34 anos em 2014 havia 1,6 mulheres. Comparado a resultados de outras pesquisas esse é um sinal não apenas de sobrerrepresentação das mulheres mas também de sua intensificação. Como avaliamos uma geração diferente, somos capazes de sinalizar que o hiato não apenas existe, mas é crescente e mais intenso nas gerações mais jovens.

Esses resultados apontam que a desigualdade de gênero pode ser entendida em dois sentidos no país. Do ponto de vista do acesso a níveis de ensino mais elevados, a escolarização masculina é menor. Ou seja, dessa perspectiva, o grupo desprivilegiado é o masculino. Cabe, então, perguntar o porquê. Até onde pudemos identificar, a literatura sobre estratificação educacional e sociologia da educação no Brasil não apresenta evidências sobre porque homens e mulheres reagem de forma diferente aos incentivos para permanecer no sistema educacional por mais tempo. A partir de um ponto do ciclo de vida, a permanência na escola concorre com outros eventos, como a formação de famílias, entrada no mercado de trabalho e saída da casa dos pais. A inter-relação entre essas dinâmicas e a vida escolar parece ser a chave para entender porque o sistema escolar é, respectivamente, menos e mais atrativo para homens e mulheres no Brasil.

 

2. Qual tipo de curso homens e mulheres frequentam?

 A maior presença das mulheres no ensino superior convive com outro resultado amplamente conhecido ao redor do mundo e também no Brasil: a segregação das escolhas educacionais (BUCHMANN, DIPRETE e MCDANIEL, 2008). Mulheres e homens costumam escolher, sistematicamente, cursos de ensino superior diferentes.  Esses cursos alimentam carreiras com resultados muito distintos no mercado de trabalho, os cursos majoritariamente femininos, em média, levam a carreiras com menor retorno salarial e de status (CHARLES e BRADLEY, 2002; 2009).

Para explicar esse padrão, a literatura geralmente recorre a um tipo de explicação culturalista. Os conceitos de estereótipos de gênero e essencialismo de gênero são centrais na estruturação do raciocínio. Nessa linha de argumentação uma escolha educacional é feita como forma de se enquadrar nas expectativas societais dos comportamentos apropriados para cada gênero. No Ocidente, os padrões mais tipicamente encontrados associam tarefas analíticas e manuais a signos masculinos, e tarefas artísticas e de cuidado a signos femininos. As referências culturais são a base para entender os padrões empíricos tipicamente encontrados: a sobrerrepresentação de mulheres ligadas a carreiras humanistas e de cuidado e de homens em carreiras científicas e técnicas (BARONE, 2011).

Remetendo aos conceitos de estereótipos e essencialismo de gênero, sociólogas apontam que estudantes estão enraizados em um ambiente saturado de informações sobre o que constitui um comportamento “adequado”, estereotipado do ponto de vista do gênero, e constantemente reforçado por pais, professores e outros membros de suas redes de sociabilidade. Ou seja, o processo de escolarização não é neutro no que se refere às relações de gênero, tendo em vista que alunas e alunos são instados cotidianamente a expressar crenças e aspirações que se encaixem nas categorias de gênero mais prevalentes e frequentemente ligadas a estereótipos masculinos e femininos.

Os argumentos culturalistas também destacam como os estereótipos de gênero estão ligados à propensão “natural” de mulheres se ligarem às atividades de cuidado (CECH, 2014). Mas o que significa o termo “cuidado”? A literatura sobre relações de gênero e trabalho aponta que ocupações ligadas ao cuidado têm duas características: a interação face a face com clientes e tarefas ligadas diretamente ao seu bem-estar ou desenvolvimento pessoal (HIRATA e GUIMARÃES, 2012). Logo, as carreiras ligadas ao “cuidado” seriam aquelas que, literalmente ou simbolicamente, envolveriam o componente de interação e a prestação de serviços ligados ao bem-estar. Os estereótipos de gênero operam via processos normativos e de socialização que direcionam mulheres e homens para escolhas típicas, segundo gênero, em suas carreiras. Implicitamente, há a sugestão de que as preferências masculinas e femininas diferem em relação à família (mais importante para elas) e ao trabalho (mais importante para eles). O resultado agregado, portanto, é a segregação de gênero em carreiras ligadas aos cursos com conteúdo curricular referente ao cuidado em oposição aos conteúdos técnicos (WEEDEN, GELBGISER e MORGAN, 2020b).

Mobilizando o Censo da Educação Superior (CES) de 2002 e 2016 (INEP, 2003; INEP, 2017) investigamos se esses padrões identificados em outros países se repetem no Brasil. Recorremos novamente ao raciocínio da razão de chances: quanto mais próxima de um, mais próximo da paridade de representação de gênero está aquele grupo de cursos. Uma razão de chances maior do que um indica que o evento tem maior probabilidade de ocorrer no primeiro grupo. A seguir, separamos duas análises que se focam em cursos majoritariamente femininos em 2002 e 2016 e depois em cursos masculinos em ambos períodos. Uma interpretação intuitiva dos gráficos se refere a quantas vezes mais matrículas de um grupo podem ser encontradas em um grupo de cursos. Por exemplo, uma razão de chance de 2, com as chances femininas no numerador e masculinas no denominador, indica que, para cada matrícula masculina, se encontram 2 matrículas femininas naquele grupo de curso.

A Figura 1 foi feita com mulheres no numerador e a Figura 2 com homens. Logo, a primeira figura apresenta a intensidade da sobrerrepresentação femininas em cursos que tinham maioria de mulheres nos dois anos. A segunda figura se foca na sobrerreperesentação masculina. Um primeiro resultado dessa análise e da comparação dos cursos em cada figura é que dos 63 grupos de curso passíveis de serem analisados, 57 seguem sendo predominantemente femininos ou masculinos entre 2002 e 2016. Vamos nos concentrar nesses cursos, os outros seis grupos (História e Arqueologia; Filosofia e Ética; Contabilidade e Tributação; Têxtil, Roupas, Calçados e Couro; Veterinária; Medicina) inverteram a direção da segregação – o leitor interessado pode encontrar em contato para uma versão completa da pesquisa.

Nossos resultados apontam que entre os cursos com maior presença feminina, 11 grupos diminuíram a segregação enquanto entre cursos masculinos 18 tiveram a segregação reduzida. Isso pode ser visualmente identificado analisando as figuras. Se o círculo laranja estiver à direita do azul, a sobrerrepresentação era maior em 2002. O contrário indica maior presença do grupo em 2016. Isso indica que a atratividade de cursos com sobrerrepresentação feminina é menor para homens do que os cursos de sobrerrepresentação masculina para as mulheres. Ainda assim, identificamos que a intensidade de segregação é maior entre cursos masculinos do que femininos. Isso pode ser facilmente identificado pelo valor das razões de chance, expressas tanto no eixo horizontal do gráfico como também no tamanho dos círculos.

Analisando as Figura 1 e Figura 2 temos um indicativo que o padrão de segregação mais saliente é o cuidado-técnico e não o humanista-científico. Isso porque os cursos com sobrerrepresentação feminina são ligados ao cuidado enquanto os cursos com sobrerrepresentação masculina são aqueles com componente técnico, com poucas exceções.

Um outro resultado de destaque é que dois grupos de curso raramente citados nos estudos estrangeiros são muito importantes no Brasil e tiveram um comportamento na direção da redução da segregação das escolhas educacionais: Administração e Cursos Correlatos e Direito. Ambos apresentaram uma virtual paridade de gênero em 2016. Como cursos dessas duas áreas concentram 27% das matrículas em 2002 e 26% em 2016, o que ocorre apenas nesses dois grupos de cursos ancora qualquer fenômeno relativo ao ensino superior brasileiro. Nesse sentido, o ensino superior brasileiro foge do padrão internacional ao ter duas de suas áreas mais importantes com baixo nível de segregação em 2002, e menor ainda em 2016.

 

Figura 1. Razões de chance entre matrículas femininas e masculinas no ensino superior brasileiro em nos grupos de curso que têm sobrerrepresentação feminina em 2002 e 2016*. Brasil, 2002 e 2016.

Fonte: Censo da Educação Superior 2002 e 2016, INEP (Elaboração própria).

*Nota: O curso de “Serviços de Beleza” tinha uma razão de chances de 5 em 2002 e 30 em 2016. Excluimos o curso do gráfico porque ele distorcia o eixo. Esse é o grupo de cursos com maior desproporção de matrículas femininas e masculinas no ensino superior brasileiro.

 

Figura 2. Razões de chance entre matrículas masculinas e femininas no ensino superior brasileiro nos grupos de curso que têm sobrerrepresentação masculina em 2002 e 2016*. Brasil, 2002 e 2016.

Fonte: Censo da Educação Superior 2002 e 2016, INEP (Elaboração própria).

 

Conclusão

No que diz respeito à conclusão, as mulheres levam vantagem em relação aos homens, pelo maior número de matrículas, desde a segunda metade da década de 1970. Conseguimos chegar a gerações mais recentes do que as anteriormente alcançadas por outras pesquisas, descobrindo que a desproporção da representação no ensino superior em favor das mulheres aumentou.

Ao mesmo tempo em que mulheres se tornaram maioria no sistema, ainda há significativa concentração em determinadas áreas e pouca representação em outras. A partir dos dados do CES observamos a configuração de campos femininos, caracterizados por grupos de cursos principalmente ligados ao cuidado, e campos masculinos majoritariamente ligados às áreas técnicas, mostrando o quanto a segregação horizontal é mais resistente à mudança.

Ao contrário da literatura internacional, que tem destacado a estabilidade da segregação de gênero, os dados brasileiros se mostram heterogêneos em todas as direções. Há cursos que reduziram a segregação, aumentaram ou a inverteram. Observamos que as mulheres fizeram o caminho de inserção nos campos masculinos de forma mais intensa do que os homens no sentido oposto, o que é explicado pelo maior incentivo a mulheres adentrando áreas “masculinas” do que o contrário, já que áreas femininas são desvalorizadas social e economicamente.

Com esta pesquisa procuramos contribuir para apresentar os números que confirmam a prevalência da desigualdade de gênero no país, onde ela se concentra e como ela se comporta ao longo do tempo. Um passo importante para o futuro seria estruturar pesquisas longitudinais para entender os mecanismos que estruturam os padrões agregados das escolhas que alimentam a segregação.

 

*Equipe do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade do IFCS-UFRJ

Vivian de Almeida (Estudante de Ciências Sociais IFCS-UFRJ)

Flavio Carvalhaes (Professor do Departamento de Sociologia IFCS-UFRJ)

Pedro Elgaly (Estudante de Ciências Sociais IFCS-UFRJ)

Luiza Herculano Houzel (Estudante de Ciências Sociais IFCS-UFRJ)

Carolina Medeiros (Estudante de Ciências Sociais IFCS-UFRJ)

Tayná Mendes (Estudante de Ciências Sociais IFCS-UFRJ)

Bruna Aparecida Milanski (Estudante de Ciências Sociais IFCS-UFRJ)

Flávia Eduarda Rocha (Estudante de Mestrado em Sociologia, PPGSA-IFCS-UFRJ)

 

Notas

[1] Este post resume a pesquisa Azul ou rosa? A segregação de gênero das escolhas educacionais no ensino superior brasileiro, 2002-2016. Uma versão preprint do artigo completo está disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3682320

 

Referências bibliográficas 

ALVES, José Eustáquio Diniz.  (2003), Mulheres em movimento: voto, educação e trabalho.   REM.

BARONE, Carlo. (2011), “Some Things Never Change: Gender Segregation in Higher Education across Eight Nations and Three Decades”. Sociology of Education, 84, 2: 157-176.

BELTRÃO, Kaizô Iwakami; ALVES, José Eustáquio Diniz. (2009), “A reversão do hiato de gênero na educação brasileira no século XX”. Cadernos de Pesquisa, 39, 136: 125-156.

BUCHMANN, Claudia; DIPRETE, Thomas A.; MCDANIEL, Anne. (2008), “Gender Inequalities in Education”. Annual Review of Sociology, 34, 1: 319-337.

CECH, Erin. (2014), “The self-expressive edge of occupational sex segregation”. American Journal of Sociology, 119,  747-789.

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HIRATA, Helena; GUIMARÃES, Nadya.  (2012), Cuidado e Cuidadoras – as várias faces do trabalho do care.  São Paulo, Editora Atlas S.A.

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RIBEIRO, Carlos Antônio Costa; SCHLEGEL, Rogério. (2015), “Estratificação horizontal da educação superior no Brasil (1960 a 2010)”, in: ARRETCHE, M. (ed.), Trajetórias das desigualdades. Como o Brasil mudou nos últimos cienquenta anos, Place, Published: Editora UNESP.

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Como citar este post

ALMEIDA, Vivian de; CARVALHAES, Flavio; ELGALY Pedro; HOUZEL, Luiza Herculano; MEDEIROS, Carolina; MENDES, Tayná; MILANSKI, Bruna Aparecida; ROCHA, Flávia Eduarda. A segregação de gênero no ensino superior brasileiro, 2002-2016. Blog DADOS, 2020 [published 15 October 2020]. Available from: http://dados.iesp.uerj.br/segregacao-de-genero-ensino-superior/

 

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