Inovação social: buscando uma nova interpretação para um conceito cada vez mais comum

Alcides A. Monteiro


Publicado no blog Scielo em Perspectiva – Humanas em 11/12/2019

Alcides A. Monteiro, Professor associado com a Agregação e Diretor do Mestrado em Empreendedorismo e Inovação Social, na Universidade da Beira Interior (UBI), Covilhã, Portugal

Alcides Monteiro, da UBI, Portugal, toma o formato de um ensaio crítico, no qual o autor visa elaborar uma nova interpretação para o conceito e prática da inovação social. A sua proposta de um novo modelo estratégico para a inovação social local resulta da combinação de dois eixos fundamentais: um eixo instrumental (inovações setoriais + governança e externalidades) e um eixo político (aprendizagem coletiva + missão social e visão transformadora).

No que respeita ao seu eixo instrumental, a inovação social traduz-se antes de mais nada num conjunto de atividades e serviços inovadores, que são motivados pelo objetivo de ir ao encontro de uma necessidade social não satisfeita. A que, por sua vez se agrega a necessária reformatação das práticas de governança local, isto é, a implementação de formas de gestão que organizacionalmente promovam uma cultura de trabalho em rede e de co-construção coletiva.

Por sua vez, o eixo político confere relevo à dimensão democrática da inovação social e a desafia a ser parte de uma mudança sistêmica. Ou seja, uma das premissas da inovação social é a de que ela obedece antes de mais a uma missão social e a um impulso de transformação social, que devem ser inequívocos e claramente identificados. Mas, sobretudo, que essa missão social desempenha uma função de comando sobre a vertente econômica (produção de bens e serviços, orientação do investimento, valor gerado), das iniciativas empreendidas. Acrescentando ainda que, no cumprimento dessa missão social, as iniciativas inovadoras se deverão constituir como oportunidades e espaços de aprendizagem coletiva e de empoderamento dos sujeitos envolvidos.

A urgência ou necessidade de uma nova interpretação para o fenômeno (conceito e práticas) da inovação social resulta da percepção que os modelos até agora propostos são incompletos e, sobretudo, separam o que não deveria ser separado. Ao longo dos últimos anos a inovação social tem vindo a ser fortemente encorajada do ponto de vista político, nomeadamente por parte da OECD e da União Europeia, que a concebem como “[…] novas ideias (produtos, serviços e modelos), que simultaneamente promovem a resolução de necessidades sociais (de forma mais eficaz do que as alternativas), e criam novas relações sociais ou colaborações.” (BEPA, EUROPEAN COMMISSSION, 2011, p. 9). Nesta acepção, igualmente partilhada por autores como Geoff Mulgan (BACON et al., 2008), a ênfase é colocada sobre a dimensão utilitarista da inovação social. A este modelo de inovação social de “solidariedade fraca”, que favorece a penetração do modelo mercantil no tratamento das questões da pobreza ou do ambiente, outras perspectivas têm vindo a afirmar que a inovação social deve apostar numa “solidariedade forte” (AMARO; LAVILLE, 2016), aspirante a ultrapassar a função meramente reparadora no domínio da economia, e substituindo-a por uma visão transformadora do modelo de desenvolvimento e das relações coletivas.

eixo politico

Proposta de novo modelo estratégico para a inovação social local Fonte: MONTEIRO, 2019, p. 17.

Na perspectiva de Monteiro, cada uma destas interpretações valoriza dimensões que são importantes na inovação social. A inovação implica a acentuação de determinadas características já presentes nas dinâmicas de desenvolvimento local e nas iniciativas ligadas à economia social e solidária, como sejam a territorialização das decisões, a aposta na democracia participativa ou o investimento em processos de aprendizagem coletiva. Mas também significa o desenvolvimento de novas capacidades e competências (skills), assim como é suposto encorajar a adoção de novas fórmulas organizacionais e de novas estratégias operacionais. Todavia, cada uma delas revela-se incompleta na sua formulação própria, pelo que se justificará integrar numa visão holística da inovação social elementos que até agora têm vindo a compor distintas acepções do conceito. Tal opção é suportada pelo pressuposto de que o investimento na inovação social será tão mais consistente e perene quanto for marcado por uma novidade no nível das soluções para os problemas sociais detectados, dos métodos e arranjos organizacionais colocados em prática, por sua vez subordinando as escolhas a princípios claros no que concerne à orientação socioeconômica e a finalidades de transformação social.

Referências

AMARO, R. R.; LAVILLE and J.-L. Social innovation in Europe: what relation with solidarity economy?. RIPESS Europe, 2016. Avaliable from: http://base.socioeco.org/docs/ripesseu_social_solidarity_innovation_en.pdf

BACON, N. et al.  Transformers – How local areas innovate to address changing social needs. London: NESTA, 2008.

BUREAU OF EUROPEAN POLICY ADVISERS (BEPA), European Commission. Empowering people, driving change, social innovation in the European Union. Luxembourg, EUR-OP, 2011. DOI: 10.2796/13155.

Para ler o artigo, acesse

MONTEIRO, A. O que é a Inovação Social? Maleabilidade Conceitual e Implicações Práticas. Dados, v. 62, n. 3, e20170009, 2019. ISSN: 0011-5258 [viewed 10 December 2019]. DOI: 10.1590/001152582019187. Available from: http://ref.scielo.org/vbpmnn

Link externo

Dados – Revista de Ciências Sociais – DADOS: www.scielo.br/dados/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

MONTEIRO, A. A. Inovação social: buscando uma nova interpretação para um conceito cada vez mais comum [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed 16 December 2019]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/12/11/inovacao-social-buscando-uma-nova-interpretacao-para-um-conceito-cada-vez-mais-comum/